Paris Apaixonada

Eloisa James · Capítulo 5 de 21

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Paris Apaixonada

O hino do Robin

 

 

Em novem bro, no período de um a sem ana, confundi im anente com im inente, prim ordial com equivalente e sabão com sopa. Referi-m e ao m eu am igo Philip com o “Paris”, e coloquei um rolo de papel toalha na m áquina de lavar louça, tendo o resgatado no últim o m inuto.

No m eio da noite, eu cheguei à dura conclusão de que o m eu cérebro deve

estar m orrendo. Palavras são a m inha m oeda de troca, m eu pão diário. No escuro, parecia óbvio que transform ar o Philip em Paris significava que eu tinha desenvolvido um a m etástase cerebral. Ou (graças a um artigo que li recentem ente no The New York Times), doença de Huntington. De m anhã, sucum bi ao canto de sereia do Google e digitei “Huntington”.

O site da May o Clinic é especializado em linguagem reconfortante; eu

rapidam ente concluí que a m enos que e até que eu com eçasse a derrubar xícaras de chá, eu não corria o risco de ter este diagnóstico em particular. Então, enquanto eu estava relaxando, m e deparei com esta encoraj adora passagem : “A decisão de ser testado para o gene é pessoal. Para algum as pessoas, a incerteza de carregar o gene defeituoso é estressante e perturbadora. Para outras, ter o conhecim ento de que irá desenvolver a doença é oneroso”.

Oneroso? Minha prim eira reação foi bufar. Saber da m inha m orte, que

espero que não sej a im inente (nem im anente), é oneroso, e eu sequer tenho um gene para m e dar qualquer aviso sobre este encontro. Mas, logo depois, m e dei conta de que sou um a tola por questionar a definição da May o Clinic de um “gene defeituoso”. Assim com o o restante da raça hum ana, eu herdei genes defeituosos, todos os quais estão program ados para m orrer. Tom ar ciência disto é o que é com plicado.

Quando eu era j ovem , costum ava deitar na cam a decorando poesias. Nossa

casa era banhada por poesia, e eu era a prim ogênita obediente. Mem orizei a ode a um a serpente, de D.H. Lawrence, e am ava o som de “arrastou devagar o

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ventre fulvo e m ole.” Eu não com partilhava m eus versos decorados com

ninguém , principalm ente não com m eu pai poeta. Ele parecia ter m il poem as, talvez m ais, arquivados em seu cérebro. Ele irrom pia durante o j antar com um trecho de Rei Lear, seguido de duas quadras de Blake, e um verso em sueco. Minhas am bições eram secretas e m odestas em com paração: eu queria alguns poucos poem as, apenas alguns. Eu queria ter a disponibilidade daquelas palavras em particular, saber que o rio Alph de Coleridge corria “Por grutas sem m edida hum ana / E rum o a um m ar som brio” e que a floresta nevada de Frost oferecia um desafio para aqueles com “prom essas que devem cum prir”.

Quando fui para a faculdade, parei de decorar poesia, acreditando que eu

retom aria o hábito quando tivesse m ais tem po. Mas, enquanto eu deitava no escuro pensando sobre com o a sopa escorregou para sabão, m e ocorreu que poderia não haver m undo nem tem po suficiente para decorar sequer o restante de um pequenino cânone. Minha avó foi diagnosticada com dem ência, e calou-se durante a últim a década de sua vida; m eu pai, m eu querido pai de m il poem as e m ais, tom ou gosto por observar as folhas caindo das árvores. Em vez de tecer estas folhas na form a de palavras, ele sim plesm ente as deixa cair. É um destino cruel: observar sem contar a queda da folha; lam entar sem criar nada novo; envelhecer sem o descrever.

Durante o últim o ano, enquanto assistia a ele digladiar-se com o tem po que

lhe rouba as palavras, m e ocorreu que eu deveria decorar m ais poesia, com o lastro contra m inha provável herança daquela boa e silenciada noite. Aqui, em sua plenitude, está o poem a com o qual retom ei m inha m em orização: “Their Lonely Betters”, de W. H. Audren.

 

As I listened from a beach-chair in the shade

To all the noises that m y garden m ade,

It seem ed to m e only proper that words

Should be withheld from vegetables and birds.

 

A robin with no Christian nam e ran through

The Robin-Anthem which was all it knew,

And rustling flowers for som e third party waited

To say which pairs, if any, should get m ated.

 

Not one of them was capable of ly ing,

There was not one which knew that it was dy ing

Or could have with a rhy thm or a rhy m e

Assum ed responsibility for tim e.

Let them leave language to their lonely betters

Who count som e day s and long for certain letters;

We, too, m ake noises when we laugh or weep:

Words are for those with prom ises to keep.

 

* * *

 

No Métro, Anna apontou para um a m inúscula j oaninha laranj a no vagão conosco. Nós observam os enquanto ela bravam ente atravessou o teto de ponta cabeça e depois voou para a saliência acim a da porta. Quando o m etrô parou, derrubei ela nas m inhas m ãos e nós levam os a j oaninha conosco um lance de escadas acim a, através de um corredor, dois outros lances de escada m enores acim a... e, finalm ente, para a m anhã fresca, onde ela voou para dentro de um aglom erado de arbustos brilhantes.

 

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Eu e Anna estam os, aos poucos, explorando as m ercearias no quarteirão j aponês de Paris. A m inha favorita tem um a parede com diferentes m olhos de soj a, e um a seção no andar de cim a repleta de alim entos m isteriosos em em balagens exóticas. Nada é etiquetado em francês ou inglês, então, trazem os com pras para casa e quebram os as nossas cabeças para descobrir o que são.

 

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Alessandro e eu seguim os um par de pernas im pecáveis hoj e no m etrô. Elas estavam envolvidas em m eias de renda preta e sapatos verm elhos escuros. A dona das pernas vestia um casaco com cinco botões fechando a lapela preta, e luvas exatam ente da m esm a cor dos sapatos. Subim os a escada com certa urgência, e m e virei para ver a frente do casaco, apenas para descobrir que a senhora em questão tinha pelo m enos setenta anos. Ela era tanto digna quanto très chic. Velhice, à la parisienne!

 

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Doze adolescentes da classe de Luca, o nono ano, faltaram a aula hoj e porque estavam doentes; o vírus H1N1 atingiu com força o Ensino Médio Leonardo da Vinci. Por sorte, am bos m eus filhos j á haviam contraído o vírus nos Estados Unidos, em j unho. Luca tem em seus olhos o m esm o brilho alegre que eu tinha enquanto ficava de pé em frente à j anela observando os flocos de neve caírem sobre a área rural de Minnesota: será, será, será que vai nevar o suficiente para fechar a escola? O equivalente contem porâneo constitui-se de recarregar a página do Facebook a cada cinco m inutos, perguntando aos am igos se estão se sentindo febris, e torcendo desesperadam ente (desgraçadam ente) que sim , para que a escola toda feche de um a vez.

 

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Todos os prédios ao longo da rue du Conservatoire são construídos com m árm ore bege ou calcário. Quando eu saí hoj e, o céu tinha um tom pálido e feroz, na im inência da chuva. Lá no topo da igrej a e do conservatório, o contraste era praticam ente im perceptível, com o se m árm ore e ar dançassem de rosto colado.

 

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Acabei de m andar Anna para a escola com um bilhete m anchado, com erros ortográficos, escrito a sangue, suor e lágrim as para a sua professora, pedindo desculpas por ter ‘colado um pouquinho’ durante um a prova. Ela protestou veem entem ente, dizendo que a professora não se im portaria, e que o que estávam os fazendo era com o escrever um a carta para o Papai Noel pedindo desculpas por ter queim ado a sua barba. Não consegui entender a lógica por trás da barba queim ada, então insisti, dizendo, “Sua professora precisa assinar esta carta, Anna.”

 

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Na noite passada, fom os a um restaurante com um garçom rabugento que nos serviu raia m orna coberto com alcaparras salgadas. O cardápio continha um a seção de pratos à l’ancienne, de form a que escolhi um aperitivo singular: focinho de vaca. A iguaria foi servida em tiras em bebidas em m olho vinagrete. O sabor?

Spam18! Eu conheço Spam porque m eu pai esteve na 2a Guerra Mundial e ocasionalm ente tinha ataques de nostalgia e com prava algum as latas. E agora eu tam bém sei o que tem na receita do Spam tam bém .

 

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Em m eio a um passeio em um a feira de antiguidades, nos deparam os com um pequenino café com vista para os j ardins perto da Bastille e bebem os chocolat à l’ancienne – chocolate quente à m oda antiga com chantilly e um a cerej a em bebidas. Havia am êndoas m escladas em algum a coisa ali... estava encantador. Enquanto estávam os sentados, saboreando os nossos chocolates quentes, a atm osfera transform ou-se em l’heure bleue, a fresta de tem po entre a tarde e a noite, quando o céu fica lilás.

 

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Dois dos obj etos que vi na feira de antiguidades m e tiraram o sono na noite passada, e tive que m e lem brar diversas vezes que posses não trazem felicidade. O prim eiro era um altam ente im provável lustre veneziano de vidro soprado. Era decorado com m iúdas frutas e flores de vidro, e provavelm ente fabricado nos anos 1950, tendo tom ado dois anos de vida de algum soprador de vidro desvairado. O segundo era um espelho da década de 1850, tam bém italiano. Era em oldurado em nogueira negra, com elaborados arabescos entalhados e gravuras de cupidos alegres e encantadores.

 

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Os franceses andam devagar. Eles passeiam pelas ruas, encontram am igos e dem oram dois m inutos trocando beij os, então ali ficam , conversando com o se o dia tivesse sido criado para este m om ento. Meu m arido e eu andam os com o nova-iorquinos: rapidam ente, desviando de obstáculos, observando vitrines, indo aos lugares. Levou alguns m eses... m as agora eu penso: Onde estou indo que é tão urgente, enquanto todos os franceses discordam ?

 

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Migram os da charm osa porém superlotada igrej a am ericana para Saint-Eugène-Sainte-Cécile bem na rue du Conservatoire. Descobrim os que eles têm m issas em francês e em latim (não que isso faça diferença pra m im em term os de com preensão). O padre tem nove acólitos de diferentes idades; incenso e pequenos sinos que repicam e são balançados com o fossem poções m ágicas com garantia de aum entar a devoção.

 

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Descobrim os ontem que nosso querido m ercado coberto, sem m encionar a peixaria e o açougue locais, fecham às segundas-feiras, o que deixou a nossa despensa vazia. Para o alm oço, com i um naco de um excelente Cam em bert, acom panhando batata cozida tem perada com um a pitada de sal grosso, seguidos de um resto de torta de dam asco. A vida é boa.

 

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Florent, o colega de conversação de Alessandro, está indo para a Itália para um a visita, então, hoj e eles praticaram expressões rom ânticas. Florent vai tentar ir além dos com entários sim páticos. Em italiano, só se diz “Ti amo” no sentido rom ântico. Para qualquer outra pessoa – filhos, pais, am igos – se diz “Ti voglio bene”, que, traduzido a grosso m odo, quer dizer “Te quero bem ”. É m uito rom ântico guardar “Eu te am o” apenas para assuntos do coração.

 

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Quando chove na rue du Conservatoire, a água da chuva desce por canalizações subterrâneas que correm por debaixo da calçada. A água que escorre por estes canos transform am os ralos em pequenos chafarizes, ej etando água de chuva a alguns centím etros do chão. É com o se m exilhões gigantes estivessem sinalizando que estão cavando m ais fundo, em baixo das ruas do 9o arrondissement.

 

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Ontem com pram os algum as latas de ração canina para “o nosso” sem -teto, ou m elhor, para o seu filhotinho de cachorro, que está crescendo bastante rápido e desenvolvendo as patas desaj eitadas que prom etem que ele será um cachorro de grande porte. Anna entregou a prim eira lata a cam inho da escola. O filhote agora nos conhece, e pula de sua caixa com um latido agudo assim que nos aproxim am os. Ele é daqueles que gosta de lam ber, e gosta de lam ber rostos (é claro que Anna agacha-se até a altura dele), m as é m uito doce, de qualquer form a.

 

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BHV é um a loj a de departam ento enorm e em Paris, com cinco andares com tudo desde lum inárias até roupas íntim as para crianças ou batedores de ovos cor de rosa. Eu acabei de passar horas lá, term inando no departam ento de m ateriais de arte, onde com prei um catálogo de papéis delicados de todo o m undo: papel com desenhos costurados em fios de ouro, papel j aponês do tipo vegetal, papel com espirais extravagantes e elegantes flores-de-lis. Ao invés de enviar cartões de Natal com crianças sorrindo forçosam ente, estou decidida a fazer nossos próprios cartões neste ano.

 

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Anna chegou em casa com um sorriso enorm e e disse que Dom itilla tinha tido um m om ento de estresse no quadro negro durante a aula de m atem ática, e que o professor não só gritou, com o tam bém bateu fortem ente seu punho na m esa. A verdade é que estou falhando em im plantar com paixão nesta criança. Eu conversei com ela durante cinco m inutos sobre paciência, bondade, generosidade e depois ela riu com o um a hiena e saiu em disparada.

 

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Eu j á m orei em Paris antes, durante o m eu terceiro ano de faculdade. Na época, eu trabalhava com o m odelo, o que significava que eu fechava os olhos para qualquer tipo de tentação culinária. Por outro lado, eu salivava nas loj as de lingerie exibindo delicados sutiãs plissados e extravagantes calcinhas de seda. Agora, eu passo direto por estes estabelecim entos, só para m e dem orar em loj as de chocolate expondo j ogos de xadrez com estíveis, ou um a m aquete de

Hogwarts 19 feita de chocolate am argo. É bom que a vida sej a longa o suficiente para nos oferecer desej os de diferentes tipos.

 

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Esta tarde, a cam painha tocou e Alessandro espiou nosso farm acêutico local parado lá em baixo, na rua. Anna tem um a doença crônica nos rins e precisa tom ar quatro m edicam entos por dia, então, o m eu pânico instantâneo foi que tivesse havido algum tipo de engano. Mas não. Ele alegrem ente nos cum prim entou, e em seguida ressaltou que havia um a pequena m udança em um a de suas receitas m édicas, e queria checar se sabíam os disto (e sabíam os). Ele atravessou a rua só pra certificar-se.

 

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Alessandro acha que não está falando francês o suficiente porque seu colega de conversação, Florent, passa a m aior parte do seu tem po livre na Itália seduzindo a garçonete evasiva. Sendo assim , hoj e ele com eçou um a nova troca, desta vez com um a m ulher cham ada Viviane. Ela é professora universitária de cultura norte am ericana, o que quer dizer que eu essencialm ente seria um proj eto de pesquisa am bulante para ela – particularm ente porque ela está escrevendo um artigo sobre o uso que os am ericanos fazem de redes sociais com o o Facebook, e eu passo um a parte desm edida do m eu tem po elaborando m inhas atualizações de status.

 

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Hoj e, fizem os um passeio de barco pelo Sena, e vim os um a casa flutuante com um convés superior encantador, com um caram anchão de uvas e adoráveis vasos de plantas. Um pequeno Porsche azul m arinho estava estacionado no cais.

 

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Os degraus em frente ao banco no início da rue du Conservatoire estão sem pre apinhados de hom ens bonitos e j ovens com cam isas em rosa claro; bancários franceses são um m ilagre a ser observado. Mas o prédio tam bém m erece ser descrito. As pedras são verm iculadas, isto é, esculpidas com desenhos rasos que parecem as com plexas trilhas que se pode ver em um a criação de form igas de criança. O efeito não é bonito de perto, m as, à distância, o efeito verm iculado garante à pedra um tipo de beleza enevoada que atenua a sua grandiosidade.

 

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Meu tio avô Claude escreve que duas “classes” de pessoas vêm à Paris: aqueles pra quem a cidade nunca será m ais do que a som a de suas partes, e aqueles que com preendem “o assolador e constantem ente crescente senso de personalidade da grande cidade.” Para m im , Paris parece um bufê de prazeres terrenos com binados (lingerie e m useus e queij os) – as “partes”, neste caso – então, eu im agino que ele m e relegaria à segunda classe. Meus antecessores (inclusive Claude) acreditam que Paris é “delicadam ente elegante e gay, um a persona com preendida por aquelas sensibilidades m ais discrim inantes. Francam ente, o que eu li até agora m e leva a crer que Claude, e não Paris, era gay apesar do fato histórico de seu casam ento, bem ali em preto e branco.

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Fom os parar em um trecho da rue Saint-Denis que é a região das profissionais do sexo de m eia idade, prostitutas que a idade visitou, m as não destruiu. Estavam todas apropriadam ente equipadas com longas botas de couro, bustiês e olhos cansados. Elas recostavam -se contra as portas dos dois lados da rua, a distâncias educadas, e papeavam a esm o enquanto aguardavam a clientela que não havia sucum bido ao desej o por j uventude.

 

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Ontem com prei luvas quentinhas cor de berinj ela. Sem ana passada com prei sapatos elegantes da m esm a cor: com cadarços e bico fino. Sinto com o se eu fosse a resposta a um a daquelas perguntas das revistas de m oda: “Você é prim avera, verão, outono ou inverno?” Eu acho que sou outono.

 

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Tem um a padaria no fim da rua da escola de Anna, na avenue de Villars, onde sem pre tem um a fila. Eles são especializados em tortinhas de frutas. A m ais bonita tem fatias de figos cortadas tão finas que são translúcidas, cobertas de açúcar. A favorita de Luca parece um a pequena versão dos Alpes: pequenos m orangos, cada qual posicionado em pé e coberto com um a gota de chocolate branco. Particularm ente, a m inha preferida tem dam ascos fatiados organizados em desenhos sobrepostos, com o os círculos nas colheitas de um cam po inglês.

 

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Hôtel Drouot é a casa leiloeira onde m uitas propriedades francesas encontram o seu destino. Pode-se entrar e peram bular pelos côm odos contendo tudo desde quadros flam encos do século XIV e prata opaca até m obília bacana da década de 1960. Hoj e, reviram os caixas de roupa de cam a velha e m edalhas do exército. Eu fiquei particularm ente im pressionada com um retrato de um m enino e um a m enina sentados no que parecia ser um a sala de estar da década de 1970. Onde estão estas crianças agora? Eles se im portam que seus sem blantes um tanto taciturnos estão sendo pechinchados em um a casa leiloeira – e finalm ente são arrem atados depois que um a gravura de pássaros j aponeses é adicionada ao lote?

 

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Anna e eu estávam os aguardando na plataform a do Métro quando um trem chegou e eu vi pela j anela um adolescente m agro e desgrenhado usando um m oletom do Keith Haring. Luca! Conseguim os atravessar as portas abertas pouco antes que fechassem . Lá estava m eu filho de 15 anos, conversando em italiano e aparentando ser descolado dem ais para descrever em palavras. “Querido!”, eu entoei. Eu havia m e esquecido de um a das regras cardeais da vida. Adolescentes do sexo m asculino não gostam de ser cum prim entados por suas m ães na frente dos colegas. Ele virou a cabeça e continuou conversando. Anna e eu nos sentam os.

 

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Acabo de descobrir De Bouche à Oreille (Boca a boca), um a loj a no Marais com um a m ala cheia de globos em m iniatura do tam anho de um a m ão. Há globos cor de m arfim , pretos (com m arcação em branco), ou azul esverdeado claro. Minha im pressão é que você com pra três ou quatro delas e as coloca em um a tigela, com o se fossem frutas. Havia tam bém um dom o de vidro contendo nada além de cabeças de bonecas de porcelana antigas, bússolas antigas, e relógios interessantes em butidos em bolas de vidro, dependurados por correntes.

 

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Alessandro acredita que o “nosso” sem -teto não é um bêbado, m as sim um surdo m udo, j á que não disse um a palavra em três m eses desde que o conhecem os, se assim podem os descrever o nosso relacionam ento. Nós deixam os troco em seu chapéu, doam os latas de ração para cachorro e acariciam os o filhote, e ele apenas sorri um sorriso verdadeiram ente doce. Ele m e parece ter um rosto do Leste Europeu, um tanto arredondado e estoico, com o se seus ancestrais tivessem passado m uito tem po colhendo batatas no vento frio.

 

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Nós tem os sido pais bons e apoiadores quando os professores de Anna gritaram , botaram -na contra a parede, e expulsaram -na para o corredor. Ficam os quietos quando o professor de m atem ática bateu em um a criança com um livro e fez Dom itilla trem er nas bases. Mas hoj e Anna chegou em casa aos prantos depois que o professor de m atem ática debochou da sua divisão (ou de suas tentativas de dividir). Alessandro vai à escola am anhã arm ado até os dentes. Geralm ente, ele é m uito calm o, m as, quando pressionado, ele m ostra a que veio – um a vez que ele m esm o é professor universitário e m em bro do conselho da escola, sem m encionar cavaleiro. É m elhor o professor se cuidar.

 

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Anna e eu tínham os acabado de entrar no departam ento m asculino da Galeries Lafay ette para encontrar a m etade m asculina de nossa fam ília, quando Anna disse, “Mam ãe! Mam ãe, olha pra eles!” Autom aticam ente, eu com ecei a responder, “Nunca aponte...” quando eu vi o que ela estava vendo e o m eu queixo caiu. Cinco hom ens estavam andando na nossa direção usando cuecas j ustas e m inúsculas. Perm ita-m e esclarecer: cinco m odelos deliciosam ente m aravilhosos e fortes vestindo apenas as m enores cuecas que j á vi. Eles seguiram passeando, conversando entre si, prom ovendo (im agino eu) suas vestim entas pequeninas. Os com pradores do sexo m asculino não pareciam estar nem de longe tão entretidos quanto eu estava. Na verdade, em bora estes hom ens certam ente tenham passado perto de Alessandro, ele disse não os ter visto.

 

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Papai Urso (isto é, Alessandro) voltou triunfante da Escola Leonardo da Vinci! Prom essas foram feitas no sentido de se proteger os sentim entos da Ursinha (isto é, Anna). Em contrapartida, Papai Urso prom eteu que a tal Ursinha vai parar de tagarelar durante as aulas, vai parar de esquecer de levar o dever de casa, e vai parar de dizer (esta é um a citação direta) “Eu não aprendi a dividir na m inha escola antiga; eles não ensinam isso nos Estados Unidos.” Foi esta últim a afirm ação que desencadeou o riso do professor de Matem ática (descrito por Anna com o deboche), m as, na verdade, não se pode culpá-lo.

 

17 N.T Do original, “ And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down”. A tradução utilizada acim a foi extraída de: Lawrence, D.H. Gencianas Bávaras e Outros Poem as, versão de João Alm eida Flor. Coleção Inverso. Editora Na Regra do Jogo, 1983.

 

18 N.T. Spam é um a tradicional m arca norte-am ericana de carne pré-cozida e enlatada, consistindo basicam ente em um a m istura de om bro de porco e presunto, fundada em 1937 e m uito popular por sua praticidade e durabilidade em tem pos de guerra.

 

19 N.T. A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts é o palco principal para os prim eiros sete livros da série Harry Potter, de J.K. Rowling.