Paris Apaixonada
Um inverno parisiense
Am ídia am ericana nos avisa a cada ano que o Natal é um tem po de com placência excessiva. As revistas fem ininas inflam com artigos sobre com o evitar a m esa do bufê, sem m encionar aqueles cinco quilos a m ais. Mas, para ser honesta, o canto de sereia da tentação nunca m e incom odou m uito. As festas de fim de ano do Departam ento de Inglês tendem a oferecer um a seleção desencoraj ante de vinhos baratos acom panhados de três tipos de hom us. E eu queim o as calorias extras digladiando um a árvore de um m etro e m eio até a subm issão, dando notas aos trabalhos finais dos m eus alunos de Shakespeare, e lutando contra as filas dos correios para enviar presentes atrasados.
Minha im unidade foi fortalecida pelo m eu hum or pós-câncer. Nossa cozinha
costum ava ter pilhas de livros de receitas e de louça, até que eu decidi que ela deveria ser um retiro ascético de feng shui no qual eu cozinharia refeições cheias de antioxidantes. Tudo em um a só panela, porque eu dei todas as outras.
E então dezem bro chegou a Paris. Da noite para o dia, o m ercado de nossa
vizinhança, Marché Saint-Quentin, transform ou-se no set de film agem de um m usical de Dickens, com direito a guirlandas e pisca-piscas. Nossa fromagerie preferida expôs caixas de pequenos ovos de codorna e três tipos de queij o de cabra até então desconhecidos, produzidos apenas para a tem porada de fim de ano. Eu fiquei em basbacada com o m onte de cogum elos frescos, grandes e franzidos com o chapéus para fadas idosas que frequentam a igrej a. Foi só quando o marchand de fruits m e perguntou se eu tinha m esm o certeza de que eu queria levar tudo aquilo que eu m e dei conta de que esse fungo em particular custava tanto quanto o nosso aluguel.
Paris sem pre é o playground dos m aterialistas, m as dezem bro é um a
história à parte. Um dia, entrei no departam ento gourmet da Galeries Lafay ette e descobri que haviam brotado m esas em pilhadas com confeitos decorativos para Natal e Ano Novo: j arras de folhas de ouro com estíveis, estrelas prateadas, violetas cristalizadas. A apresentação era destinada a tentar os com pradores desavisados não à gula em si – m as sim à pura beleza da com ida, aos m odos com o pode ser decorada e polvilhada e apresentada, transform ada em algum a coisa que pode nos deixar sem fôlego. Eu instantaneam ente sucum bi a um desej o indom ável por m inicaçarolas Staub, esm altadas em carm esim queim ado e brilhante. Eu com prei oito delas, dando adeus ao sonho de um a cozinha austera. Certam ente, antioxidantes são m ais saborosos quando preparados em caçarolas.
Mas eu não parei nas caçarolas. Eu com prei um a batedeira elétrica m anual
que parecia nada m ais do que um vibrador relativam ente perigoso, sal rosa do Him alaia, e m ostarda com infusão de lavanda em um tom instável de violeta. Parece que m ulheres parisienses evitam sopa de alho-poró em dezem bro, e passam seu tem po criando elaboradas refeições a partir de ingredientes dos quais poucos am ericanos ouviram falar. Resum idam ente, m e tornei vítim a da versão francesa de com placência de festas de fim de ano.
Cheguei em casa com os braços doendo, sem presentes e – o que é ainda
m ais crucial – sem pão. Fui confrontada por um Alessandro irritado, que olhou de soslaio para o sal do Him alaia e exigiu saber com o eu possivelm ente poderia ter m e esquecido de com prar um a baguete. Quando eu voltei da boulangerie, Anna estava perseguindo o irm ão pelo apartam ento com m inha batedeira vibradora. Eu os ignorei e assei frango untado com m ostarda violeta. A honestidade m e força a adm itir que o frango não foi um sucesso. As crianças o encararam com o tipo de expressão que um californiano usa para saudar um assento sanitário felpudo. Crianças francesas provavelm ente saúdam frango roxo com gritinhos de felicidade em vez de dem andas para que seus pais saiam às ruas em busca de KFC.
Todavia, com ecei a ir para a cam a pensando em com ida. Os restos de um
pernil de cordeiro coberto com anchovas e m anteiga poderiam tornar-se um caldo bem quente, que por sua vez transform ou-se em sopa de erva-doce com linguiça apim entada (um a receita em prestada de Gordon Ram say ). Eu fiz a sopa em um a panela grande. Em seguida, coloquei algum as rodelas crocantes de linguiça em cada caçarola, despej ei um pouco de sopa, e derram ei algum as espirais de óleo tem perado por cim a. Isto pareceu um tanto com o um a trapaça: deveria eu usar as caçarolas apenas para servir com ida feita dentro delas? Eu estava certa de que a resposta parisiense seria um sonoro sim . Mas depois m e lem brei que quando m eus pais eram recém casados e m uito pobres, m inha m ãe serviu para um grupo de poetas desavisados um suave patê de carne – feito de com ida para gatos. Meus crim es esm aecem nesta com paração.
Eu passei fantasiosa de um a refeição para a próxim a. Usei as caçarolas
para assar pequenos bolos de chocolate para um j antar entre am igos, m isturando os m elhor dos chocolates – de Michel Cluizel – com toques de Grand Marnier e um a caixa inteira de ovos. Sob a influência eufórica de um dezem bro parisiense, dei a cada bolo um bocado generoso de crème fraîche e coloquei no topo um a estrela translúcida feita de fios caram elizados. Os bolos pareciam m aravilhosos, m as depois que m eus convidados os com eram , seus rostos ficaram um tanto verdes. Mais tarde percebi que a receita prom etia um bolo para dez pessoas, que eu distribuí em seis panelas.
Crème fraîche com eçou a entrar no apartam ento em baldes, desaparecendo
pela goela abaixo da m inha fam ília, dos m eus am igos e da m inha própria. Em Nova Jérsei, as crianças costum avam com er pizza toda sexta feira à noite e clam avam para ir à lanchonete Peppercorn para com er queij o am ericano derretido sobre pão branco. Em Paris, eles aprenderam a sorrir para sopa de erva-doce e a lam ber a colher quando term inassem .
O ascetism o foi relegado ao arm ário (infelizm ente, m inha calça j eans de
quando estava m agra tam bém foi). Eu finalm ente descobri o apelo da com placência – j untam ente com um a recém descoberta apreciação pela luxuosidade do tem po, acontecida por conta do ano sabático, livre dos com itês, horários de escritório, e salas de aula cheias de alunos nervosam ente aguardando serem testados sobre Ham let. Eu aprendi a pensar em com ida com o algo bonito em vez de algo que apenas engorda ou nutre, com o nós am ericanos estam os tão propensos a fazer. Colocar um a pizza fria no forno é fácil; com er sushi pré-em balado do m ercado é ainda m ais fácil. Pipoca para o j antar para que se possa trabalhar sem parar durante a refeição? Por que não?
Eu vou fazer apenas um a resolução de Ano Novo neste ano. Eu vou ignorar
o óbvio: m inhas roupas excessivam ente j ustas. Em vez disto, vou levar o m eu Natal parisiense com igo de volta para Nova Iorque no outono. Minhas caçarolas vão m e lem brar de que com ida deve ser servida aos outros, deve ser bonita, deve ser original (até cor de violeta), deve ser sonhada. Elas vão m e lem brar de que a com placência não é um a virtude que devem os guardar apenas para a tem porada de festas de fim de ano, e que econom izar tem po – quando o assunto é com ida – é m ais pecam inoso do que virtuoso.
Meu dezem bro parisiense contribuiu m uito para consertar um buraco no
m eu coração causado pelas palavras “a biópsia foi positiva.” Com er com o os franceses é celebrar a vida, inclusive a aproveitar de m aneira com placente.
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A Galeries Lafay ette colocou suas luzes de Natal! O enorm e prédio transform ou-se em um conj unto de rosetas de vitrais brilhantes que rem etem à Rússia do século XVIII, ou Versailles; um tem po no qual a exibição da beleza, seu brilho e luxuosidade, eram de sum a im portância. Alessandro, é claro, apontou para o fato de que estas vitrines não convidam à contem plação, m as sim ao consum o.
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Minha vitrine natalina preferida na Galeries Lafay ette exibe um j antar com em orativo requintado: lustres de cristal, louças fabulosas, tiaras espalhadas por entre os pratos, taças de vinho envoltas em pérolas – tudo sendo deleitado por várias m arionetes de ursos. Um deles tinha um a taça de vinho em cada pata e um a tiara dependurada de um a orelha. Ele levanta as taças ebriam ente, brindando a todas as crianças do outro lado da vitrine.
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As ruas ficaram repentinam ente repletas de hom ens vendendo castanhas, assadas sobre barris de óleo. Alessandro e eu com pram os um bocado, que veio em brulhado em j ornal. Elas abrem por conta do calor, m ostrando seu interior am arelo e doce. Cam inham os devagar, em balando os em brulhos quentes em nossas m ãos, com endo castanhas enfum açadas e levem ente cham uscadas.
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Devido à m inha aversão a decapitar galinhas, m eu açougueiro as degola para m im , m as ele deixa os pés: pretos e verm elhos, pés sofridos para correr ligeiro.
Galinhas parisienses são m uito m ais galináceas do que as do Sr Perdue21; além do m ais, ovos vêm ornados com pequenas penas. Meus filhos exclam am : “Penas de bunda!” Tendo crescido em um a fazenda, gosto de lem brar do calor intenso de ovos que haviam acabado de ser botados pelas galinhas.
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Anna e eu estávam os em um a loj a de departam ento, com parando os m éritos de um pinguim de pelúcia com os de um gam bá de pelúcia, quando fom os abordadas pelo Papai Noel. Este Papai Noel m agro e insistente não desistia; ele queria tirar um a foto com Anna. Tendo nascido prem atura, com m enos de 26 sem anas de gestação, ela é bem pequenina. Mas na sua cabeça, ela é um a m ocinha de 11 anos, e m ocinhas não sentam no colo de um Papai Noel desconhecido. “Sabe de um a coisa, m am ãe?” ela disse quando ele foi finalm ente banido. “Aquele hom em era estranho.” E, m om entos depois, “Eu aposto que os Papais Noéis franceses bebem vinho de m ais.”
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Aqui chove todos os dias; m eu guarda-chuva é tão crucial quanto a m inha carteira. Minha adaptação preferida para o clim a úm ido são os bebês vestindo m ochilas verm elhas com quatro suportes segurando toldos verm elhos sobre suas cabeças. Eles parecem raj ás indianos rechonchudos balançando por aí, em cim a de seus elefantes paternais.
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Anna e eu passam os por outro sem -teto e seu cachorro hoj e. “É um cachorro salsicha!” disse Anna. Com um olhar, eu disse, “Não, ela é um a cadela salsicha m am ãe.” Um grito incontrolável seguiu. “Mam ãe! Ela tem filhotes! Pequenos filhotinhos!” Certam ente... nove – nove – pequeninos, pequeninos filhotinhos estavam dentro da caixa sobre um aquecedor. Dois dias de vida, de acordo com o dono. Dem os a ele todo os nossos trocados.
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Esta noite, fom os com am igos ao Cham ps-Ély sées pela prim eira vez desde que as luzes de Natal foram colocadas. As árvores ao longo de toda a avenida estão acesas com pequenas luzes azuis que escorrem , com o se um a chuva preguiçosa e azul estivesse caindo.
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Nos Estados Unidos, tínham os m uita dificuldade para acordar as crianças a tem po de ir para a igrej a, o que m uitas vezes acabava em batalhas im piedosas. Aqui, em pregam os o incrível poder do chocolate. Eu anuncio que, se eles levantarem -se im ediatam ente, nós terem os tem po para ir a um café para tom ar chocolate quente e com er croissants... então andam os pela m anhã gelada até um café e sentam os, os dedos enroscados nas xícaras quentes de chocolate doce, antes de correr para Saint-Eugène-Sainte-Cécile.
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Nossa refeição reconfortante depois de um dia duro na escola é curry Japonês – especificam ente, Golden Curry feito com cinco cebolas cozidas no m icro-ondas até ficarem com o pedaços de alface pálidos e translúcidos, conform e m e ensinou m inha cunhada j aponesa, Chiem i. As crianças devoram o curry da m esm a form a que um francês devora foie gras: com concentração e prazer.
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Aos 15 anos, Luca abandonou o “Mam ãe” e agora m e cham a de “Mãe,” enquanto Anna ainda berra “Mam ãe!” pelo apartam ento afora. Ontem m e ocorreu que ainda o dia em que ninguém m ais m e cham ará de “Mam ãe” chegará, e não m e darei conta disso no m esm o dia, nem no dia seguinte, assim com o não tenho lem brança do últim o “Mam ãe” de Luca. Há m uitas Últim as Vezes quando se é pai ou m ãe – o últim o livro lido em voz alta, a últim a am am entação, o últim o banho.
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Tem os visitas de Florença, então, alguns m em bros da fam ília subiram até a parte m ais alta da Notre-Dam e, aproxim adam ente 380 degraus. Eu fiquei no andar térreo, m e entoquei em um café, observando a chuva cair sobre turistas com frio. As crianças voltaram m uito anim adas: no topo da catedral, os prim eiros flocos de neve da estação caíram sobre suas m ãos, ainda que aqui em baixo não houvesse nada além de chuva.
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Há alguns dias, a professora de italiano de Anna caiu em lágrim as, o que Anna atribuiu ao m au com portam ento generalizado. Então, hoj e Dom itilla apareceu de vestido, segundo Anna, e presenteou a professora com um caderno refinado e três lápis “em nom e da classe” para com pensar pelo m au com portam ento. Anna é m uito desdenhosa em relação a este esforço.
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Nam orando as vitrines da Nina Ricci: sapatos de salto alto em seda cor de m arfim , com saltos de cortiça de quinze centím etros, com pérolas dependuradas. Os sapatos lem bravam um ornam ento natalino que fiz quando era criança, com pérolas biwa e um a bola de isopor. Um produto prom ocional do Km art (loj a de departam ento) para os m uito ricos.
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Eu descobri um a coisa sobre m orar com um adolescente: a m aioria das conversas não serão bem sucedidas, se considerarm os que esta definição im plica em um a troca significativa. Se eu perco a cabeça, m eu filho de 15 anos rosna pra m im em resposta. Se estou de bom hum or, eu o convenço a soltar um a frase... no entanto, se eu perguntar o que aconteceu na escola, a resposta é sem pre: “Nada.” Escola de Ensino Médio Leonardo da Vinci, tam bém conhecida com o o Buraco Negro de Paris.
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Florent disse hoj e a Alessandro que ele está preocupado que seu am or pela garçonete italiana não vá dar em nada. Em prim eiro lugar, ele tem 41 anos e ela é bem m ais nova, um a estudante universitária quando não está trabalhando. Eles passaram um a noite encantadora j untos na últim a visita de Florent. Ele falou na m aior parte do tem po, m as ela pareceu receptiva. Eu não tenho um bom pressentim ento sobre esta história, m as Alessandro diz que escritores de rom ances deveriam ser m ais otim istas.
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Am bulantes estão vendendo árvores de Natal com neve falsa branca – m as tam bém em verm elho cham ativo e roxo vívido. As loj as de departam ento têm pilhas de ornam entos separados por cor: aqui ficam todos os ornam entos pretos, ali fica tudo de vidro transparente, ou rosa tipo Pepto Bism ol. Ninguém parece oferecer um Papai Noel em tam anho real encarcerado em um grande aquário redondo que sopra neve sem parar. É claro, não há quintais de frente, m as eu tenho a sensação de que esta não é a razão...
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Na noite passada, Anna e sua am iga Nicole estavam m ontando um a com plicada casa na sala de estar, incluindo o sofá, m eu colchão de y oga, um a m esa pequena, um m onte de cobertores etc. Do m eu escritório, eu podia ouvir Nicole falando m elodiosam ente com seu adóravel sotaque inglês, e de repente, “Anna, eu falo dem ais?” E, com a honestidade sem concessões da infância, a resposta: “Sim .”
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Nós saím os para tom ar chá com alguns am igos italianos que se declararam encantados pela form a com o Alessandro conversava com o garçom em Francês. Ele sorriu m odestam ente... até que os pedidos chegaram . Meu prato de queij o (fromage do Gay Château) chegou conform e solicitado, assim com o todos os outros pedidos, exceto pelo do m eu m arido. Ele havia pedido um a tisane du berger (um a xícara de chá), e chegou um a lasagne aux aubergines (um a lasanha de berinj ela). Com o os poderosos declinaram !
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Alessandro está ficando am igo do j ovem e m uito conservador padre de Saint-Eugène-Sainte-Cécile. Acontece que a nossa igrej a, esta caixa de j oias, é fam osa por ter sido a prim eira a ser construída em m etal em toda a cidade de Paris. Eu não vej o com o isto pode ser verdade: as paredes são definitivam ente feitas de pedra. Mas não se discute com um padre sobre detalhes arquitetônicos, não quando há tantas outras coisas interessantes, com o as causas para o recente surto de pedofilia, sobre as quais se pode debater. Nosso padre fica m ortificado, e não quer pensar no assunto.
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Todas as noites, Anna e eu deitam os no escuro para a “hora da conversa.” Eu aprendi isso com a m inha am iga Carrie, que definiu a hora da conversa com o trinta m inutos livres de represálias durante os quais a criança pode contar os seus segredos, com o, por exem plo, se j á lhe ofereceram substâncias ilegais. Anna fala de um a coisa: Dom itilla. Hoj e Dom itilla saiu-se pior do que Anna em m atem ática (inconcebível, francam ente)... A m ãe de Dom itilla é m ais boazinha do que eu, porque Dom itilla ganha doces e batatas fritas pro alm oço... Ontem Dom itilla estava usando um vestido rosa (escárnio reduzido). Nada de drogas, só vestidos cor de rosa. Tédio.
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Nosso m ercado local é um banquete visual. Arranj os de penas – presum ivelm ente doadas por ocupantes prévios – acom odam decorativam ente os faisões depenados. Uvas caem dependuradas de estandes retorcidos de m adeira de vinha, e rabanetes frescos ficam arrum ados em um a caixa vertical e rasa, a folhagem verde pelo m eio, os bulbos verm elhos brilhando com o j oias pelos lados. Hoj e eu ignorei os belos produtos naturais e, tom ada por curiosidade, trouxe rabanetes negros para casa, um horror fálico enrugado e um tanto curvo. Ao investigar pela internet, descubro que flacidez é tão ruim quando se trata de um rabanete quanto de um (ra-ran) hom em .
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Um enorm e roda gigante, do tipo com com partim entos envidraçados e aquecidos, foi erguida em um a das extrem idades do Cham ps-Ély sées. As crianças j á deram m uitas voltas nela, de form a que agora apenas um a coisa realm ente as interessa: a cabine VIP, que tem vidro fum ê para proteger suas Pessoas Muito Im portantes. Anna está convencida de que, se ela tiver m uita sorte, um dia ela verá Malia e Sasha Obam a girando por sobre Paris.
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Na m edida em que o inverno avança, parece que cada m anhã em ergim os em um a rua um pouco m ais escura. Espiando adentro das j anelas dos hotéis durante a nossa cam inhada para o m etrô, cada sem ana vem os m enos hóspedes tom ando café da m anhã.
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Hoj e, m inha am iga francesa, Sy lvie, e eu fom os a um m aravilhoso m useu, o Musée Nissim de Cam ondo. Moïse de Cam ondo foi um banqueiro j udeu extraordinariam ente rico e colecionador de arte e m obília do século XVIII. Em 1911, ele construiu um a m ansão para abrigar suas coleções, baseando seu desenho no do Petit Trianon de Versailles. Ele adquiria m obília quando grandes propriedades eram dissolvidas, com prando até painéis de m adeira do apartam ento do Conde de Menou, e então viveu ali por anos, em m eio a um esplendor real. Considero esta obsessão fascinante e triste; ele poderia certam ente decorar os côm odos com os vasos da Rainha Marie Antoinette e recriar a atm osfera da nobreza do século XVIII – m as sendo j udeu e banqueiro, ele não poderia ter feito parte dela.
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Hoj e passei por um a oficina aberta, na frente da qual havia um hom em m odelando m etal com um a serra. Centelhas de cor laranj a brilhante escapavam de sua serra, voando em um arco alto para aterrissarem no jeans do hom em atrás dele, em duas cadeiras, e noutro banco de trabalho. Elas pareciam neve brilhante, inofensiva, desaparecendo no m om ento do contato.
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Hoj e Dom itilla ganhou um “bravissima” em Gram ática de Italiano e Anna só ganhou um “brava.” Então, Anna prontam ente se desfez em lágrim as. A pobre professora, que não tinha ideia das várias tensões na sala de aula, fez um discurso sobre o quão m aravilhosa Anna é, que m inha ingrata filha declarou ter sido chato e vergonhoso.
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Nós com pram os a árvore de Natal ontem . Em Paris, elas são vendidas com troncos reduzidos a tocos pontudos e esprem idas em estandes feitos de toras. Eu aprovo, um a vez que isto evidencia a blasfêm ia anual provocada por com plicados estandes de árvores. Mas eu tam bém desaprovo, porque sem água, quanto tem po esta árvore vai conservar suas folhas? Contudo, a árvore conferiu gentilm ente à sala de estar seu elusivo odor de floresta densa.
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Anna sofreu de am or não correspondido por dois anos, aos oito e nove, e ela está bastante orgulhosa de não ter um a paquera aqui em Paris. Um m enino de sua classe nos seguiu na catraca do m etrô hoj e e atirou-se para m exer nos cabelos de Anna antes de sair correndo. “Aquele m enino tem um a queda por você,” eu observei, declarando o óbvio. “Quatro m eninos têm ,” ela disse, com com pleta indiferença.
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Há alguns dias, o am igo por correspondência que Alessandro m antinha quando era só um m enino, entre 1974 e 1984, lhe escreveu um e-m ail repentinam ente. Depois de m uita surpresa, eles viraram am igos de Facebook, e Andrej , que é da Polônia, abraçou a tarefa de investigar as fotos na página de Alessandro. Ele escreveu de volta hoj e para dizer que sua esposa é leitora de Eloisa James! Ela é um a bancária polonesa, e presum ivelm ente tem lido as traduções para o polonês.
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Hoj e Paris está am argam ente fria – m ais do que congelante. Agasalhei-m e e cam inhei até um a loj a de departam ento para com prar presentes de Natal. Quando m e aproxim ei das vitrines reluzentes, percebi que um a m ulher estava sentada em um degrau com um cartaz sim ples, J’AI FAIM ou “Estou com fom e.” Agarrada a seu braço estava um a criança de cinco ou seis anos, sua cabeça no om bro da m ãe. Paris reveza entre ser a cidade m ais bonita onde j á m orei – e a que m ais parte o m eu coração.
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A escola de ensino fundam ental de Anna apresentou hoj e o seu concerto de Natal, então Alessandro e eu enfrentam os a neve para assisti-lo. Na noite passada, Anna revelou que sabia apenas a prim eira frase de cada canção em italiano; depois ela planej ava trocar para o inglês. Aparentem ente, ninguém notou. Meu m om ento favorito foi quando toda a escola cantou, em fortes
sotaques italianos, “ 22 Last Chreeestmas, I gave you my ‘eart... ”
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Está nevando novam ente e os telhados do outro lado da j anela do m eu escritório ficaram brancos. O céu está precisam ente da m esm a cor leitosa, de form a que onde a cum eeira preta e entalhada encontra o céu, parece que há um a linha de trem alongando-se através de um a vasta e nevada paisagem russa.
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Voltando das com pras de Natal ontem , Alessandro anunciou, “Eu com prei alguns suéteres para m im , você vai gostar, não são todos iguais.” Hom ens parisienses usam pulôveres espessos verm elhos e botas cor de am eixa. Eu abri a sacola de com pras e descobri que Alessandro havia com prado quatro suéteres. Três deles eram pretos. Um distinguia-se por ser cinza com listras pretas.
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Estou em um surto de fervor dom éstico diretam ente ligado à chegada im inente da m inha sogra; Marina poderia derrotar Bobby Flay com as m ãos nas costas. Minha m eta é servir apenas caldos feitos em casa – não que ela vá ficar particularm ente im pressionada, j á que ela não im aginaria nenhum a outra opção.
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Eu descobri o equivalente francês para as loj as de 1,99. Eu com prei um escorredor cor de am eixa por sete euros, ornam entos de Natal que parecem abaj ures “mod” dos anos 1960 em m iniatura por dois euros cada, e, por quatro euros, um a fabulosa form a verde para fazer pequenos bolos. Minha com pra favorita foram luzes para a árvore de Natal, cada qual envolta em um ornam ento de m etal redondo. Alessandro m e diz que estas são clássicas, idênticas às luzes de sua infância.
21 N.T. Frank Perdue (1920 – 2005) foi um em presário norte am ericano cuj o negócio de produção e com ercialização de frangos, Perdue Farm s, é um dos m aiores nos EUA até a presente data.
22 N.T. Aqui, a autora sim ula um a pessoa com sotaque italiano pronunciando a frase “Last Christmas, I gave you my heart” que significa, em Português, “No Natal passado, eu lhe dei o m eu coração.”