Paris Apaixonada
Rose
Há alguns anos, um a am iga convidou-m e para a sua casa para conhecer outra am iga dela, um a acadêm ica cham ada Rose, que estava passando por um tratam ento contra um câncer de ovário recorrente, havia lido os m eus livros rom ânticos e queria m e conhecer. Sou relativam ente íntim a com este tipo de fenôm eno: pessoas que tem orgulho de lidar com (por exem plo) as m ais de m il páginas de Infinite Jest, de David Foster Wallace, se voltam para a ficção rom ântica quando não suportam m ais o cheiro de cloro, o pinicar do m edicam ento intravenoso e as notícias ruins.
Então, m e cingi para um encontro pouco alegre com um a paciente de
câncer m acilenta e pálida. Mas, em vez disso, Rose sentou-se na cabeceira da m esa, roliça e rosada, se escangalhando de rir enquanto usava um a peruca loira platinada de Marily n Monroe. Descobri, depois, que seu cabelo natural era preto e ela o usava curto e espichado, clareado nas pontas de form a que ela parecia um dente-de-leão depois de soprado. Mas ela gostava de usar a peruca de Marily n de vez em quando porque, com o ela m esm a explicou, é im possível sentir pena de um a m ulher usando cachos dos anos 50 estilizados. Pelo m enos, não pelo seu estado term inal.
Apaixonei-m e pela sua peruca e pela sua risada – sinais externos de notável
coragem . Viram os m elhores am igas, com toda a ironia que o term o im plica. De vez em quando, os m édicos de Rose faziam algum estardalhaço sobre com o possivelm ente o câncer por fim vencera a quim ioterapia. Mas depois eles experim entavam um m edicam ento novo e, ao longo de todo o processo, ela continuou lecionando e traduzindo poesia e viaj ando para a Am érica Latina para descobrir novos poetas. Certa vez, ela m e ligou do topo de um a m ontanha peruana. Parecia que ela estava na casa ao lado. “Aqui é tão lindo”, ela disse. “Você precisa vir antes de m orrer.”
Rose não tinha m edo de falar isso. Ela tinha o dom de saber, m uito
concretam ente, que seu tem po era lim itado, em bora ela certam ente não desse boas vindas ao fim . Ela am ava a República Dom inicana e, certo ano, fom os para um resort, só nós duas. No ano seguinte, fom os para a ilha m ais um a vez, m as para um resort diferente, um que ela achara na internet e que se cham ava Paradise (Paraíso).
As afirm ações do Paradise de que seria o céu na terra eram um tanto
exageradas (a presença de inúm eras prostitutas de luxo adicionou um a com plicação óbvia), m as nós nos divertim os m uito. Nadam os com golfinhos, que estavam suprem am ente desinteressados em nós, m as eram extrem am ente cativantes, com o as pessoas m ais bonitas em um a festa em Nova Iorque. Fizem os m assagens em um pequeno j ardim cercado de árvores com flores desabrochando e andam os pela praia no entardecer. Bebem os m argaritas e Rose recitou poesia em espanhol para m im , um idiom a que eu não falo. Ela sem pre recom endava rom ancistas e poetas latino am ericanos e eu sem pre prom etia que leria, m as nunca li.
Até naquela época, após anos lutando contra o câncer, ela era bonita:
exuberante, carism ática, cheia de charm e. “Acho que aquele garçom tem um a queda por m im ”, ela m e disse. E ela estava certa sobre ele e sobre nosso m otorista de táxi, tam bém . Dom inicanos sequer olhavam para m im – alta, m agra, pálida, entediante – m as seus olhos brilhavam quando encontravam Rose. Ela esbaldava vida, espanhol e pele brilhante. Eles não faziam ideia de que ela estava m orrendo.
Mas nós duas sabíam os que a viagem para Paradise seria a nossa últim a
viagem j untas. Rose veio nos ver em Nova Jérsei logo antes de partirm os para a França, em j unho. Alm a am orosa que ela era, ela nunca dissera um a palavra sobre a inj ustiça do m eu prognóstico otim ista em com paração ao dela, o fato de que os m édicos dispensaram o m eu câncer e m e deixaram livre para ir m orar em Paris enquanto eles não conseguiam dom inar a doença dela. Falam os sobre a estranheza pavorosa de que am bas – e m inha m ãe – fom os diagnosticadas com câncer. Parecia um j ogo de sorte, m as o núm ero preto aparecia com regularidade aterradora.
A esta altura, Rose decidira recusar qualquer tratam ento adicional e visitava
casas de repouso o m esm o interesse que ela tivera ao pesquisar resorts na República Dom inicana. Eu sabia que a decisão cabia a ela, m as tam bém m e senti egoísta. Consegui m e segurar para não ficar apelar a ela para reconsiderar a sua decisão, m as eu im plorei para que ela nos visitasse.
Ela balançou a cabeça negativam ente. “Eu ligo para você,” ela m e disse,
“quando você precisar vir.” Sua ligação m e pedindo para voltar aconteceu antes do que eu esperava, apenas alguns m eses depois que do início do outono.
Minha m ãe havia sido suprem am ente coraj osa no final, um a postura
facilitada porque ela estava com pletam ente dopada por anestésicos. Ela delirava, tão bêbada quanto um lorde: ela m e disse que havia cavalos galopando nas suas cobertas e se entrelaçando em seus dedões dos pés. Certa vez, lhe entreguei o telefone para que ela pudesse falar com a m inha irm ã, que estava longe, em Nova Jérsei. “Por que você está em um carro estacionado no final da entrada da m inha casa?” ela perguntou. Seus últim os dias foram repletos de im aginação; ela disse que um irm ão am ado, m orto há coisa de oito anos, estava esperando por ela no corredor.
Nesta situação, chora-se por si. “Estou tendo um a boa m orte”, ela anunciou,
alguns dias antes de parar de falar.
Mas Rose... Rose não teve um a boa m orte. No prim eiro dia em que cheguei
na casa de repouso ela tom ou o m edicam ento m ilagroso, qualquer que sej a, e m e disse com um a risada que havia pequenas borboletas azuis dançando em volta da m inha cabeça. Mas para ela, os efeitos colaterais acabaram sendo piores do que a dor – o que significava que não haveria m ais borboletas, ou cavalos galopantes... apenas a clara consciência de que a m orte estava a alguns dias ou algum as horas agonizantes de distância. A últim a coisa que m inha m ãe m e disse foi que eu tinha um belo sorriso. Não tenho certeza se ela sabia exatam ente quem eu era naquele m om ento, m as fiquei m uito feliz de ter lhe dado aquele sorriso. A últim a coisa que Rose m e disse foi adeus.
Disse a ela com tanta ferocidade quanto pude que eu esperava que ela
estivesse m e aguardando do outro lado de qualquer que fosse a ponte que ela estivesse prestes a cruzar. “Você está m e escutando, Rose?” perguntei. Havia lágrim as escorrendo pelo seu rosto. Ela am ava Anna e Luca quase tanto quanto eu e Alessandro, então, fiz com que ela prom etesse que esperaria pelos m eus filhos tam bém caso, por algum golpe do destino, eles partissem antes de m im . E então não havia nada m ais a ser dito. Sendo assim , chorei corredor abaixo até o m eu carro alugado e voltei para o aeroporto.
Rose m orreu alguns dias depois, tendo dado adeus a todos, resolvido seus
assuntos e achado um lar para o seu gato.
Algum tem po depois, de volta a Paris, um pacote do tam anho de um livro
chegou para m im . Era de Rose, um últim o toque da atenção am orosa que ela doava tão livrem ente. Levei algum tem po para m e forçar a abrir o pacote: não conseguia suportar que esta seria a sua últim a carta, seu últim o presente. Pensei que ela havia m e enviado um daqueles rom ances latino am ericanos que eu sem pre prom etera ler. Mas, em vez disso, era Austerlitz, de W.G. Sebald, um rom ance sobre sofrim ento, m em ória, o desej o de lem brar e o desej o de esquecer.
Passei este ano em um tipo de Paradise, em bora sem golfinhos ou praias ou
m ontanhas. Pensei frequentem ente em Rose – seus cachos de Marily n, sua risada exagerada, seu j eito destem ido de dizer antes de morrer – enquanto eu andava pelas ruas de Paris, e senti falta dela.
O ím peto de m udar para Paris, de vender a casa e os carros e sim plesm ente
em barcar em um vôo para outro lugar, veio da m orte da m inha m ãe e da m inha própria experiência com o câncer. Mas m e pergunto se eu teria tom ado esta atitude sem as lições que aprendi com Rose.
Então, este livro é a m inha ligação – não do topo de um a m ontanha, nem
m esm o do topo de Torre Eiffel: o “aqui” é negociável.
Aqui é tão lindo. Você precisa vir antes de m orrer.
* * *
Esta m anhã, Anna disse, casualm ente, “Eu vou fazer m eu café da m anhã”. Depois ela disse ter lavado seu prato e seu copo. Quando eu perguntei se ela queria que enchesse a banheira para ela, ela disse, “Não, eu encho.” É com o assistir a versão em film e de Eloise, na qual ela subitam ente envelhece dez anos – agradável e assustador ao m esm o tem po. Em bora, é claro, Eloise fosse aterrorizante em qualquer idade.
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Ontem fom os a um m ercado de pulgas enorm e, Clignancourt, em busca de um obj eto especial para nos lem brar de Paris. Estávam os peram bulando e olhando antiguidades quando acham os um a loj a de lustres do tipo faça-você-m esm o. Você escolhe a base, e adiciona frutas coloridas feitas de cristal da Bohem ia. Os exem plos sugeriam que algum a contenção e sabedoria com as cores era um a boa ideia: um lustre verm elho e dourado ou, por exem plo, azul e violeta. Com eçam os com a base de latão e depois adicionam os peras violetas e douradas, cachos brilhantes de uvas verm elhas, m açãs cor de âm bar e fios de cristal. Ficou loucam ente m aravilhoso.
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Luca tem um m elhor am igo no acam pam ento, um m enino que parece ser um a caricatura de um francês em otivo. “Ele tem um a queda por um a m enina”, Luca contou. “E eu tam bém . Acho que ela pode estar olhando para m im . Mas disse para ele que vou m e afastar.” Nos bastidores da diplom acia, versão adolescente.
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Anna está no capítulo oito do rom ance no qual ela está trabalhando, um a fascinante história sobre crianças sapecas e um porco fugitivo. Recentem ente, ela adicionou um novo personagem , um a órfã francesa desaj eitada cham ada Lucille, e hoj e ela propôs um capítulo que voltaria ao passado de Lucille, com a m ãe dela lendo para ela. “Triste dem ais”, protestei. “Mam ãe”, Anna disse im pacientem ente, “isto é um rom ance! É preciso ter algum choro”.
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Nossa últim a noite em Paris... Florent sugeriu um j antar em um de seus restaurantes preferidos para com em orar o nosso ano. Aparentem ente, ele e Pauline estiveram lá para um encontro de verdade, depois da torta de lim ão. Le Bistrot du Peintre era um antigo bistrô francês na avenue Ledru-Rollin – pequeno e com um a atm osfera de Art Nouveau – que não havia sucum bido ao negócio do turism o e estava cheio de parisienses. Com i gaspacho, seguido de um a hadoque delicada com batatas em vinagrete de m ostarda sobre o qual pensei durante todo o cam inho de volta para casa. Foi um j eito esplêndido de m e despedir de um ano fabuloso.
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Dirigindo de volta para Florença, param os para pernoitar em Beaune, um a bela cidade cercada na região de Borgonha. Para a ceia, Luca com eu escargot, que tinham um arom a tão m aravilhoso que Anna im plorou e suplicou por um . Fiquei olhando para o cardápio e disse, “Anna, olhe, eles têm sorvete!” Ela choram ingou, “Eu não quero sorvete; eu quero caram uj os!” Pedim os m ais escargots e cham panhe (sem suco de laranj a) para com em orar: um ano em Paris fez m aravilhas para os nosso filhos.
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Da noite para o dia, fom os de sublim e (Beaune, França) para ridículo (Pávia, Itália). Em vez de um esplêndido hotel quatro estrelas, só conseguim os achar quartos em um hotel suj o em um a rua m ovim entada, com buracos nas toalhas (foi a prim eira vez que vi isto!). E, em vez de caram uj os, com em os na Grillandia, onde estava acontecendo um a noite espanhola, com dançarinas espanholas falsificadas atraentes e um arroz de caixinha. Até Anna adm itiu que sentia falta de Paris.
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Antes de deixarm os Pávia, arrastam os nossos pouco entusiasm ados filhos para ver as catacum bas de Santo Agostinho, e em seguida dirigim os por três horas até Florença, de volta para Marina e Milo. Marina disse ontem no telefone, na defensiva, que nós não deveríam os esperar ver o Milo m ais m agro, porque está m uito quente em Florença para que um cachorro faça um a dieta. Algum as coisas nunca m udam .