Paris Apaixonada
O fim
Quando estou escrevendo um rom ance, digitar “O Fim ” é o m elhor m om ento de todos, porque a esta altura j á estou desesperada para acabar – geralm ente com o prazo atrasado, exausta, desgrenhada e irritadiça. Contudo, reluto ao escrever a página final de Paris Apaixonada. Colocar estas últim as palavras no papel encerra um a experiência que eu detesto ver escorregar para o passado, em bora j á faça quase um ano que m oram os em Nova Iorque enquanto escrevo este ensaio. Mas, é claro, inclusive quando estávam os m orando na rue du Conservatoire, o tem po j á escorregava por entre os nossos dedos. Alessandro e eu tínham os em pregos para os quais precisávam os voltar, m as não tínham os onde m orar. Havíam os vendido nossa casa e carros, com planos de com prar um apartam ento... em algum m om ento.
Depois do Natal, nós dois percebem os com um a sacudida que a hora
chegara. Dois corretores de im óveis m uito gentis cham ados Curtis e William agendaram um a série de visitas a apartam entos para nós dois. Para o espanto deles, decidim os dar um prazo de exatam ente três dias para a nossa busca. Nosso voo chegou em um a sexta-feira de fevereiro, e às cinco da tarde estávam os inspecionando apartam entos naquele peculiar estado de ansiedade que vem com realizar um a com pra no valor aproxim ado de um a pequena ilha na Polinésia. Talvez até um a que contenha um vilarej o ou dois. Estávam os atordoados pela diferença de horário, m as não o suficiente para ignorar o fato de que o prim eiro apartam ento que vim os era o único no tam anho e no preço de que precisávam os localizado na nossa vizinhança de preferência. E tinha um a com prida estante para livros em butida. No entanto, com a devida diligência, passam os o resto do final de sem ana lutando contra um a tem pestade de neve enquanto andávam os a Broadway de cim a a baixo, fazendo o nosso cam inho por dentro das salas de estar de estranhos. Mas nada nos atraiu depois do prim eiro; com parei cada estante de livros à prim eira, e achei que elas não chegavam à altura. Na segunda-feira de m anhã, encontram os nossos corretores e fizem os um a proposta. A experiência foi surreal; nossa hipoteca seria tão gigantesca que parecia dinheiro de Banco Im obiliário. E na m anhã seguinte, descobrim os que nossa proposta havia sido aceita.
Mas ainda tivem os que encarar o tem ido processo de aprovação da
cooperativa de crédito. Em Nova Iorque, a m aioria das pessoas não com pra seus apartam entos de fato; elas m eram ente com pram ações em um a cooperativa. E, antes que os m em bros da diretoria de um a cooperativa o considerem digno de habitar dentro dos seus consagrados m uros, eles têm o direito de ver todo o seu histórico financeiro (e quando eu digo todo, quero dizer desde o seu prim eiro em prego no DeToy ’s Supper Club), sem m encionar o fato de que você precisa passar por um a entrevista pessoal com a diretoria, assim com o os seus filhos e, se você tiver um , o seu cachorro. Voltam os em m aio para a entrevista com a cooperativa, sabendo que o resultado não era algo dado com o certo: na verdade, Curtis e William estavam um pouco deprim idos quando chegam os, um a vez que a diretoria recusara inexplicavelm ente outros clientes deles naquela m anhã. Eles nos deixaram na porta com alguns conselhos finais e ansiosos sobre com o não deveríam os dar qualquer inform ação pessoal que não fosse pedida pois quase qualquer coisa poderia causar o desgosto de alguém . Parecia óbvio que preconceito e opiniões pessoais poderiam influenciar – com im punidade. Torcem os para que não houvesse alguém no grupo que detestasse escritores de livros rom ânticos. Ou professores universitários de Literatura. Ex-alunos de Yale! Italianos! As possibilidades eram infinitas.
(Preciso adicionar que apenas um a coisa m e assustava m ais do que a
diretoria da cooperativa, e era a epidem ia de percevej os em Nova Iorque. Até em Paris, j á tínham os escutado que a cidade estava repleta deles. Felizm ente, eu não tinha m ais estas preocupações com este apartam ento em particular, porque ao m esm o tem po que havíam os perm itido que a diretoria da cooperativa investigasse nosso passado financeiro, exigisse inúm eras recom endações pessoais e até entrevistasse nossos filhos via Sky pe, pedim os um a, e apenas um a coisa em troca: o direito de que nosso advogado esquadrinhasse as m inutas das reuniões de diretoria da cooperativa, voltando décadas, em busca de um a palavra indutora de pânico: percevej os. E ela não constava em lugar algum .)
Durante a inquisição, um a vez que j á tínham os esclarecido algum as
questões (com o, por exem plo, se eu teria que devolver o adiantam ento de algum a editora caso um livro fracassasse – a resposta é não), com ecei a m e sentir cuidadosam ente otim ista. Todos estavam sorrindo. Eles estavam falando sobre festas de fim de ano. Então, o presidente da diretoria da cooperativa inclinou-se e disse, “Não há nada pessoal sobre esta pergunta, m as tem o que preciso perguntar se você j á esteve em contato com percevej os”. Alessandro desatou a rir e explicou m inha fobia profunda, o único fator que nos faria recusar um apartam ento tão adorável quanto aquele. Quando um senhor de m ais idade disse, “Ah, você não deveria ter tanto m edo; eu tive percevej os no ano passado”. A propósito, a entrevista estava acontecendo no apartam ento dele. Todas as cabeças na m esa giraram para encará-lo. Ele acenou a cabeça para a porta sobre o om bro dele. “Eles vieram dentro de um a m ala que fora incorretam ente enviada através da Bolívia”, ele disse alegrem ente. “Descobrim os isto quando um visitante hospedado em um dos quartos foi m ordido, e então cuidam os deles.”
Alessandro m e deu um chute forte – a versão m atrim onial de não grite –
m as eu estava chocada dem ais para reagir, de qualquer form a. Estava pensando que este apartam ento ficava diretam ente abaixo do que havíam os acabado de com prar. “Há quanto tem po você disse que isso aconteceu?” o presidente da diretoria perguntou, no que considerei terem sido m odos adm iravelm ente controlados. Em ergi de um ataque de pânico repugnante apenas quando percebi que o assunto da conversa j á havia m udado, e agora era sobre um a pessoa m orando no prédio que aparentem ente não estava em dia com os seus m edicam entos. A diretoria estava nos dando aviso prévio sobre seu com portam ento ocasionalm ente instável. “Ele pode ser m uito bruto com crianças,” um dos m em bros disse, “e elas podem pensar que estão sendo atacadas por ele, m as ele não é realm ente agressivo”. “Ele é nosso cordeiro, nosso proj eto com unitário,” outra pessoa opinou. “Ele nunca atacou os meus filhos”, disse um a terceira pessoa. “Então, você tem sorte”, o prim eiro integrante da diretoria retrucou.
Saím os para a neve e andam os precisam ente um quarteirão antes de
pararm os para ligar para os nossos corretores e tagarelar no telefone sobre percevej os e pessoas insanas que não tom am os seus rem édios. Finalm ente, Alessandro m e afastou do telefone (a esta altura, eu j á tinha conseguido que Curtis listasse em presas de controle de peste que garantiam total aniquilação) e m e levou para um restaurante. Um a vez que tinha um a taça de vinho nas m ãos, m eu m arido ressaltou que um a pessoa não se m uda para Nova Iorque se na verdade quer m orar em um subúrbio plácido e livre de pestes. Vam os nos m udar para a cidade j ustam ente para nunca m ais precisar ter um a conversa sobre aparadores de erva daninha ou trocas de óleo. Teríam os outros, m ais eletrizantes assuntos para conversa: isto é, percevej os e esquizofrênicos.
Levou algum tem po, m as eu acabei entendendo o que ele queria dizer. Nova Iorque seria um a aventura, enquanto Nova Jérsei (para nós) fora um a
existência. No fim das contas, nosso apartam ento provou de fato não ter qualquer percevej o, e acabam os conhecendo m uitas, se não todas, pessoas no nosso prédio... sem j am ais identificar a pessoa que pode ou não estar tom ando o seu m edicam ento.
No ano que passou, descobri a loj a de um artesão de chocolate a m eio
quarteirão do m eu apartam ento. Perguntaram -m e (m uito educadam ente) se havia dem ônios do m eu lado na estação de m etrô. Não sobrevivi aos percevej os, m as a três diferentes infestações de piolho, piedosam ente reservadas aos m em bros m ais j ovens da fam ília. Usei m inhas cocottes parisienses para fazer bolos de chocolate e usei m inhas botas pretas para reuniões de departam ento. Anna abraçou a cidade com alegria, e Luca (que agora diz que vai fazer faculdade na França) anuncia regularm ente que ele a detesta. Em bora as crianças tenham trocado os papéis, a oposição tem um a sensação confortavelm ente fam iliar.
Paris Apaixonada é sobre um ano trem endam ente feliz, do qual às vezes m e
lem bro através de um a névoa rosada de chocolate e lingerie. Mas a felicidade não vinha apenas do chocolate. Cercada de gente falando outro idiom a, nossa fam ília com eçou a falar entre si. Form am os um a tribo m uito pequena (população: quatro), que com ia j unta e brigava j unta, e acim a de tudo, brincava j unta. Aprendem os a perder tem po – j untos.
E depois trouxem os essa lição conosco para casa.
O Fim