Pelo Mundo Fora
Capítulo VII
O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e onde um toque de causticidade põe não sei que estranho realce...
Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.
Como typo representativo da arte moderna, não o ha mais culto, mais philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.
E porque elle é assim, absolutamente incompativel com o simples ideal grego, é que procurou no grande poeta da Idade Média o assumpto da sua obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao mesmo tempo que é obra de artista; representação tragica, complexa e soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus aspectos mais inquietadores.
VII
Tem seis metros de altura a famosa Porta. As estatuetas do alto, alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores estão completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no chão, nos sofás, nas cadeiras, em ètagères, estatuetas de todas as dimensões, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou desespero, de agonia ou de dôr, dando a impressão de um campo de batalha em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo prodigioso...
O escriptor a que me estou referindo considera esta multidão de estatuas um agrupamento humano tão significativo, tão eloquente, tão expressivo em cada uma das suas mil attitudes, que só o apreciará quem o estudar individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina, como se lê uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra por fibra...
É a Porta do Inferno, quer dizer a agglomeração n'um drama cheio de movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixões inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade, vencendo-lhe a razão, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a sua acção irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma força da natureza que a sua intelligencia não comprehende, e que a sua virtude não submette...
Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente moderno que é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou a côr local, nem tão pouco o colorido catholico que o especialisa.
O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significação italiana e medievica, e sómente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo não transforma e que o meio não pode alterar.
A Porta ainda está por concluir; sómente o enquadramento do poema esculpido se póde julgar executado e completo.
As divisões principaes, todavia, já podem ser imaginadas.
Começando pela parte inferior da Porta vê se que os baixos-relevos por sobre os quaes se vae erguer a composição principal, têem nos paineis centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expressões da Eterna Dôr.
Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas, uma dança vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.
Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma theoria de figuras apertadas no estreito espaço, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.
São as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixão illicita, os amantes que a mesma angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam o que tinham de humano, e as creanças inconscientes, nascidas de pouco tempo e já marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vão prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros rachiticos se lhes agitam convulsamente.
No alto, sobre o frontão ha tres homens que são a representação viva do distico dantesco: Lasciate ogni speranza. Inclinam-se uns sobre os outros na attitude da desolação inconsolada. Apontam com os braços extendidos para um ponto ignoto, a região do irreparavel, do horrendamente irreparavel.
Por debaixo d'elles á frente das multidões movediças, que constituem o primeiro circulo do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos que marcam uma época ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de repouso.
Os membros fortes são feitos para as longas caminhadas e para as
luctas asperrimas, o rosto inquieto e intrepido, que se crispa na obsessão de uma idéa fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignação, a tristeza, todas as sensações que excitam o pensador até ao enthusiasmo, e o commovem até á lamentação dolorida e tragica.
Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilhão vertiginoso, cahe no espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta dilacerante, de viver despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dôres, com agonias d'alma que lembram arroubamentos de extase!..
Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem que esses esboços, esses estudos, essas realisações plasticas bastam para provar a tenacidade de trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de seres vivos!
Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaçado, cada representação de uma das mil paixões que cingem nos seus tentaculos de polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma victoriosamente não só a destreza magistral do estatuario, como tambem a ardente visão do poeta e a comprehensão soberba do pensador.
Ha entre centenas de outros, cuja descripção acabo de ler enlevada, com pena inconsolavel de os não ter chegado a vêr com os meus proprios olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para confirmar a grandeza de concepção, a força tranquilla e a doçura melancholica d'este grande artista, que em fórmas asperas, atormentadas, sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo humano,—soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a variedade horrorisante das dôres physicas.
Esse grupo é o de Francesca e Paolo, ou antes, tão supprimidas estão todas as condições do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este grupo é o do amante e da amante, quer dizer do Amor.
Do Amor, não como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida imaginação de hoje o concebeu e creou!...
O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno desabrochar da puberdade, está sentada com tal ligeireza e tal meiguice sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma ave.
A mesma doçura de contacto é perceptivel aos sentidos no gesto com que elle, fazendo do braço um collar quente e caricioso, a prende a si, emquanto que a outra mão lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa mão forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas, tem a leveza divina do contacto de uma flôr.
O abandono da amante é completo. Enlaça-o como uma liana, enrola-se n'elle com um carinho em que ha a gratidão do amor feliz e a avidez insaciavel de caricias; e com a mão que lhe fica livre d'este abraço apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez e de graça pueril.
A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e as duas boccas encontram-se em um beijo que é como que a união mystica de dois seres!
A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto: é um beijo visivel! Visivel na impressão violenta que contorce em uma attitude de sedenta adoração o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor e todo graça!
É triste e deliciosa essa representação sublime e symbolica do amor humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos olhos tudo que é bello, intenso de vida e condemnado á morte!...
Como vêm, a inspiração de Rodin participa do que mais agudo tem a observação da vida real, da vida verdadeira em todas as suas manifestações e fórmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante, capitoso e perturbador!
O que elle principalmente traduz é o amor nas suas infinitas modalidades tragicas ou divinamente bellas...
O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaçados e produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corróe como um veneno, que contrahe como uma convulsão, que entontece os sentidos e dá ao coração as revelações da infinita Dôr!
D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua mão genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor subverteu no abysmo infernal.
Elles exprimem o cançasso devastador da saciedade que já nada espera; o phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte ha de breve estancar; as fadigas as aspirações, os sonhos morbidos, as angustias e as melancholias que essa paixão entre todas omnipotente inflinge aos seus condemnados escravos.
O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes não passa de um arrebatamento ephemero, de uma illusão rapida e momentanea; o amor que é a impossivel aspiração que leva dois seres a quererem formar essa Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a Dôr,—aspiração que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser apenas um ser unico, e não ha agonia mais tragica do que esse luctar angustioso para alcançar um impossivel bem,—o amor tal como á triste lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de ardentes lagrimas: eis a inspiração, senão unica, principal do grande traductor plastico da sombria epopéa dantesca!
Como é triste, como representa bem o Terror sentido perante as duras revelações da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braços em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mãos entrelaçadas os olhos que tanta miseria têm de ver ainda na terra...