Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 18 de 32

Páginas do PDF

Pelo Mundo Fora

Capítulo III

 

O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias, o methodo de Taine.

Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus escriptores. Cada typo representativo—representative man, dizem os inglezes—dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam em uma determinada época.

Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de Aurelio Symmachus—personagem de que muitos dos seus leitores e dos leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.

Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.

Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de Symmachus o mesmo impagavel serviço.

N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a sociedade antiga.

Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou «nullos ou de pequena importancia.»

Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da epistolographia no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a sua palavra de fogo.

Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.

Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um mundo novo?

Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema da miseria—quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera porventura os que teimarem em viver muito?

É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.

 

Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.

Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja se vê, a moda e dominando os costumes.

É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que nos fala Saint-Simon—e dominam—o que tambem frequentemente lhes succedia a elles—na administração interna das provincias romanas.

Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo. O pão e espectaculos, de que fala Juvenal, continuam a ser até á final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana. Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas, tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos amigos que elle tinha em todo o mundo.

Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle uma somma equivalente a dois milhões de francos.

Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a sua popularidade.

N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.

Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia, crocodilos do Nilo,—d'esse verde Nilo, de que Cleopatra fôra a serpente lasciva,—cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo, então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!

Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos melhores:

Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano, estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.

Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico, enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos que Spartacus.»

E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse do caracter e da sensibilidade antigos.

O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém, complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos, investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.

A paixão das lettras é universal na sociedade elegante—tal como no nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.

Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença—os quaes, já se entende, tratavam de imitar a antiguidade —ha banquetes em que se leva a noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.

A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos ricos, tem tres casas em Roma e quinze villas nas mais bellas regiões da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura, em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as infinitas delicias.

 

Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma» contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo porque os ociosos e os ricos de ambos os cultos passavam a existencia.

«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e não ha meios de acabar.

«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se quem não está, e adula-se quem ouve.»

Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?

Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?

«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas. Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o, lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por conseguir que lhe façam presente d'elle.

«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos em cada vez que as conta.»

Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro, não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S. Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta agudeza espirituosa em uma das suas Epistolas!

A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da caridade, essa base fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a religião antiga affeiçoára e modelára—mas apesar de tudo isso, quantos quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.

 

Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e deslumbrante magnificencia—esquecida ou despreoccupada dos perigos que a ameaçavam,—assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo, avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o ar falta e onde a desesperança brama sinistramente—e se prepara energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha sociedade apodrecida!

O que queriam—não esses christãos degenerados e contagiados pelo paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo— mas os grandes christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes hymnos de adoração e de fé?