Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 11 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo X

O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta que é uma das maiores da Europa e a maior da França, por isso parte da litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de enthusiasmo, de paixão ou de desespero.

Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas télas retalhos de paizagem em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.

A floresta de Fontainebleau educou uma geração de paizagistas, qual d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha

tons de um tenro ineffavel em cada rebento, que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!

É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que é preciso conduzir o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.

 

X

Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta das maravilhas da arte.

Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse Mecenas da litteratura italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudição, da architectura, da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da Italia,—mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado pela garra de Miguel Angelo.

O Penseroso, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leão X, Julio II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a historia.

Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os chefes da aristocratica Republica veneziana não hesitavam quando se tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas Francisco I, o rei da França a quem se deve a magica de Fontainebleau, esse não sómente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.

Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua côrte o já octogenario Leonardo Da Vinci.

—«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.—Faço-te conego—exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este, pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje chamada de Francisco 1.º—em que o rei desenganado e cançado passou depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de conego na collegiada da Sainte Chapelle.

O que fizera elle para merecer tão piedosa distincção? Pintára o mais estranho e luminoso carnaval de alegria e de côr, que ainda a imaginação febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizára.

Uma multidão pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o delicioso de graça, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, ás fontes de Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente bellas.

No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.

A delicia de Francisco I não teve limites ao entrar n'aquelle recinto encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais bellos!

Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e uma investigação nova.

O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas fazia scismar o pagão devoto que Francisco I era, como todas essas crianças grandes da Renascença.—Mas então mentia a Biblia quando contava a creação do homem?

Essas raças, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, não eram tal, não podiam ser filhas do biblico Adão?

E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras de Josué?...

Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de Solimão, as maravilhas da civilisação arabe, tão superior em certos pontos n'aquelle tempo á civilisação christã, e esta idéa de que o turco não era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.

Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as conversações curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil, mais refinado e mais credulo!...

Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,—o qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante sensibilidade para tudo que é bello;—surge a Margarida das Margaridas, a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra. N'aquelle tempo saber latim não é um requinte de pedantismo, é uma exigencia da fina cultura.

Quem não soubesse latim não sabia nada, não tinha conhecimento nem da poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os poetas e a poesia, e ajudava seu irmão a fazer a Historia, aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os diplomatas do tempo.

A sciencia, a erudição, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem lhe enche completamente a alma é o irmão, esse irmão grosseiro e sensual, natureza que, a não ser o amor da arte, seria feita do barro mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que é no fim de contas mais uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspiração espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expressão moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um dos seus modelos...

Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o coração delicado e subtil de Margarida.

Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a flux, ao lado do rei seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas que fazem das paredes um kaleidoscopo tão curioso e illuminado, em que o velho e o novo mundo se confundem, discutindo—com Budé seu bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmãos du Bellay, os celebres humanistas da Renascença franceza, seus favoritos e commensaes,—um dialogo de Platão que tivesse acabado de lêr em grego, um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma; conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, ácerca da medição e do rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos elles, curiosamente, avidamente, informações ácerca do novo livro extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava de dar á estampa em Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem até alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de homem fôra celebrado em lingua vulgar...

 

Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas succede a inspiradora dos artistas ébrios de enthusiasmo...

No céo da Renascença azul e ouro, é Diana quem desponta... A Salamandra, emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do desejo, sem jámais chegar a consumir-se, é substituida pela inicial de Henrique enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do envoûtement mais pavoroso.

Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? Não o perguntem á Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, esmagando os povos, que a maldizem, com o peso das contribuições mais engenhosas, das que tiram o sangue e a pelle á plebe opprimida que se lamenta em vão.

Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista, contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e victorioso á antiga fórma humana.

Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as féras que caçou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto á frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos eternos amores que não se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva elegancia e pelo magestoso porte regio.

De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas correntes, o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaçam,—de todas estas imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação compõe uma só figura, um só vulto, uma só imagem que as concretiza a todas.