Pelo Mundo Fora
Capítulo VIII
É triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretações a concepção que Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle ser, d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade, é que eu, em face da Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante dos olhos do leitor um esboço ao menos rude e tosco embora, d'essa tragica Porta do Inferno, pela qual o esculptor nos faz penetrar na gehenna das loucas paixões insaciadas, que erguem na sombra o seu brado ululante de intraduzivel dôr...
VIII
Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!—foi isso que positivamente me deslumbrou.
O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques, nos bosques de Paris, é verdadeiramente delicioso e de um encanto incomparavel e unico.
N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me consolou tanto a alma a este respeito como Paris. Vê-se que o culto da arvore, a paixão da Natureza, vive em um canto do coração d'esse pagão extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois será realmente extra-civilisado como nós julgamos o parisiense genuino? Não haverá n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de artistas de talento, uma incontestavel multidão de almas ingenuas que representam de boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo à outrance, até ao chauvinismo á Boulanger? Será verdade o que dizem d'elle os que o pintaram com uma amargura tão acre, F. Flaubert e Balzac, por exemplo?
Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.
Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É que tambem alli as arvores são incomparaveis. Ha alamedas longas e deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta no azul levemente grisalho do céo! Ha longe verduras em Auteuil, por exemplo, que dão vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade doce e amarga a um tempo, a saudade que Adão teve de certo do Paraiso, de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se tão longos, tão calmos! Quem dirá que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos boulevards, onde a febre da vida é tão tentadora e tão intensa! Auteuil parece ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente adormecido é o seu aspecto, tão ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas avenidas ao
lado de arvoredos, com uns fundos longiquos, em que ha toda a especie de cambiantes.
O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um véu diaphano de vapor, é bem differente do meu céu portuguez de uma côr tão quente, ás vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina, ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma côr glauca, atravéz das rendas do arvoredo, movediças e multicôres.
Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expansão risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se não encontra infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, onde a Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas de producção!
A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam no nosso verão africano; não sabemos pelo trabalho incessante, intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.
A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as alamedas se desdobram lentas, magestosas à perte de vue, faz-me uma impressão de deliciosa calmaria. Não me canso de olhar para as arvores, as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde ruço, de um verde mauve, de todas as gradações imaginaveis do verde, e em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando como uma estridula fanfarra de côr.
Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas negras de arvoredo—«Não ha cidade com mais arvores», digo eu verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e cicerone que me responde:—«Londres ainda tem mais!»
Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, um céu esplendido, um clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel de arvoredo, de verdura massiça em torno de nós!
As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaçados, formando a abobada sobre a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de floresta selvagem, se não fosse a invasão da burguezia e do povo vestido de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que elle podia beber na solidão.
Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dôce e luminosa de Abril, se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena, entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruçam nas aguas do rio, e os chalets e os palacetes que espreitam do outro lado da estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flôr, não ha coração por mais secco e positivo que resista ao encanto embalador d'este passeio.
Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra vez, moça e romanesca e a arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli, n'aquella paz tão proxima da infinda agitação, n'aquelle ermo tão chegado ao borburinho de uma vida em festa.
Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e tão longe d'elle, a minutos de distancia do boulevard da Yvette Guilbert, a deusa da chansonnette moderna, da Comedie e da sua classica e correcta interpretação da arte, do Chat Noir e da sua phantasia revoltada, e ao mesmo tempo tão longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flôr, na serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala da sua flôr avelludada e tenra...
A vida para certos organismos de eleição só se comprehende n'estes dois pólos contrarios. Ou tudo que a civilisação tem de mais quintessencial e de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais permanente.
Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que poucos são os que as sabem ou querem reunir!...
Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de Bagatelle, a casa campestre e o lindissimo parque, que surdiram com tão vertiginosa rapidez de uma aposta entre a infeliz e então leviana Maria Antonietta e o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes—as casas e os homens passam egualmente por ellas— pertence aos herdeiros do celebre philanthropo William Wallace. A lembrança d'esse tempo, d'essa côrte, d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha imaginação para longe, para bem longe no passado.
Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.
Noventa e tres, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinação que eu sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.
Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema sensação da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella, despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da côrte, quiz enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o lenço castamente cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginação romanesca de leitora de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta delicia das experiencias contrarias que é o sol do dilettantismo, mas nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de melhor, desde a amisade até á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles até á Guilhotina.
O ambicioso coração humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!
E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal na sua phrase incisiva e sombria: «o remate é sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia ou a tragedia que o antecedeu».
E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de Paris!...
A mais completa visão de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos tiveram, de que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, foi em Fontainebleau que a recebi.
Fontainebleau está para Versailles como uma joia de Benevenuto está para um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. Não ha comparação entre os dois, e para um artista não ha hesitação na escolha.
Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta consagrada por tantas recordações artisticas, litterarias e historicas, é tudo que póde haver de mais estranhamente bello.
Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, e saudosa. Parece um paiz devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de seiva se degrada e decompõe em tons expirantes de um encanto mysterioso, em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o amarello alaranjado vão até ao côr de lilaz e ao côr de malva,—o outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que só sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado, defezo ás profanidades do vulgo...
Não admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas grandes almas desenganadas da illusão multiforme da vida.
Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella quereria fugir se uma grande dôr lhe désse a sêde, a necessidade de um asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera: —Para Fontainebleau.
—E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma até ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:—Em Fontainebleau!
É que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os estados da alma.
Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando as idéas e os sentimentos do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia atrozmente o coração, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo a Deus conforto e paz.
Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tédio dos Cesares, a quem nada resistiu—que é de certo o estado de espirito que mais deve approximar-se da infinita desolação de Satanaz, foge de Versailles, das suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que então não eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar, sob as arvores colossaes da
floresta amiga, o repouso, o silencio, o adormecimento ás suas lancinantes dôres de rei... Francisco I, desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI perseguiu os reis da
França, vem alli construir uma Italia franceza que o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael, Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito tão fascinadora e tão grande!...
É em Fontainebleau que Napoleão se despede do seu sonho homerico e sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes capitães da historia, tão raros como os grandes poetas.
É alli que essa epopéa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas mãos que assignam a suprema abdicação do poder e da gloria.
Quantas recordações me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colherão no tronco dos annosos carvalhos o qui das evocações druidicas.
E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla talvez, mas menos visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que Georges Sand e Musset dão aquelles ultimos passeios tão tristes, de uma melancolia feita de tanta saudade, quando elle já sabe que não podia viver sem ella nem com ella, como diz a triste cantiga peninsular quando ella começa a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de percorrer até ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem satisfaça a sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz em procura do impossivel!
Que fundo de paizagem tão triste para um fim de amor! Onde poderiam elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...
Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluços immortaes as melhores recordações do seu fatal amor.
Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère
Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur Quel chagrin t'a dicté cette parole amère
Cette offense au malheur!
En est il donc moins vrai que la lumière existe
Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit
Est ce bien ta grand âme immortellement triste
Est ce tu qui l'as dit?
Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'éclaire Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur
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As estatisticas dirão quantas leguas quadradas tem a floresta; os naturalistas saberão explicar quaes as diversas qualidades da sua flora, e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei sómente que ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a aldêa em que Millet e Rousseau pintaram as suas télas melhores, e evoquei alli as figuras da litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso—bem mais magestoso do que ellas são grandes!—a floresta divina de Fontainebleau.
A scena capital e magistral da Sapho de Daudet é alli que se passa; quando o pobre moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para a mocidade uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para recomeçar ao longe uma existencia calma e boa—em harmonia com as leis sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis para quem as despreza ou para quem as illude—e é vencido irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido de animal, longo, constante, ininterrupto, com que Sapho acorda e sobresalta os écos de immensa solidão ao vêr imminente a ruptura de que elle lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz prever... Grande quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moços deviam meditar, se é que os moços meditam, se é que a mocidade é compativel com a previdencia e o calculo.