Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 29 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo IV

Outros narram precisamente os factos, elle commentou-os, esclareceu-os, deu-lhes o sentido occulto, a amarga e profunda philosophia.

O nosso destino historico; o papel particular que aos portuguezes foi distribuido n'essa tragedia épica da peninsula iberica, que deu mundos ao mundo inconsciente; o preço atroz por que nós pagamos a posse d'esse ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tel-o realisado completo;—quem melhor o soube explicar, tornar claro aos olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpavel aos entendimentos ainda os mais obtusos?

 

IV

 

Na obra que elle deixa tão grande, que revela uma capacidade e um methodo de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa que elle não teria escripto se a necessidade quotidiana o não houvesse por largos annos espicaçado,—porque é preciso que se saiba lá fóra que este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que, ficando na quasi infancia orphão de pae, foi elle quem auxiliou nobremente sua mãe a educar e formar uma familia numerosa de que até ao ultimo instante foi desvelado amigo.

Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a respeito dos homens e das cousas. O seu Portugal Contemporaneo foi mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo estudo do movimento liberal que iniciou para nós a éra moderna. Ha capitulos na Historia de Portugal que os seus livros posteriores, ungidos tão docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar, contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que tão profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e tão irremediavel influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da contemporanea geração. O culto dos heroes que elle acabou pregando e exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella, foi elle—força é dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto, a verdade impõe-se como um dever sagrado—foi elle quem quasi completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos os idolos, a escarnecer todas as religiões!

Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam amplamente e soberbamente esses senões secundarios, livros como a sua Civilisação Iberica tão admiravelmente traçada por um pincel de artista e de pensador, como o seu volume Os Filhos de D. João I, feito todo elle sob uma inspiração soberba da epopéa, como o seu Condestavel tão bello, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais intimos segredos d'uma alma de extase e de fé, prenunciando d'este modo a resignação ineffavel, a pacificação serena e alta, a submissa doçura ao mysterio supremo, no qual todas as contradicções se conciliam, a humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que tantos balsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que n'ella teve a sua crucificação e a sua corôa, a sua maior dôr e o seu consolo mais sublime!

Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata até aos céus!

N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins póde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão varias!

É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o põem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis, ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu; á ironia trascendente de umas paginas oppõe o amargo pessimismo de outras; á colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no coração, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se transfiguram; o seu grande poder de suggestão vem menos dos vocabulos empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercussão indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo magico; outras vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado em labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!

Se o estylo deve traduzir todas as nuances de uma dada individualidade e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!

De cada uma das maneiras do escriptor eu queria dar idéa, transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquillo que melhor quadre ao seu gosto especial, á sua concepção artistica, á indole do seu espirito...

Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal belleza da Historia de Nun'Alvares, as descripções que esmaltam ora com o colorido brilhante de uma téla de Veroneze, ora com a melancolia pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente unreal de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.

Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de João I, dos Inclytos Infantes, principalmente de D. Pedro, paginas de uma psychologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da imaginação de Oliveira Martins se allia á sua profunda intuição dos segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas rapidas da Côrte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de modelo ao artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de frisante e juvenalesca ironia!

Não farei comparações sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros escriptores que o precederam. Acho que essas comparações não são em alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e irritam! Um escriptor que se parece com outro, é raras vezes um artista de raça. Não póde um talento grande deixar de suppor uma personalidade accentuada, forte, isto é, differente. De resto não conheço em Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja comprehensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Elle nunca poderá ser considerado como um representative man, nem do tempo nem da raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e talvez o principal caracteristico do seu talento.

Á viveza, á meiguice, á sensibilidade vibrante do meridional, elle juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação de sonho do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lêr os vestigios de antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens historicos mais dilectos, póde tambem dizer-se que no seu genio tão complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro do Norte primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado latino!