Pelo Mundo Fora
Anthero de Quental
Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do mau rico!
O que quer hoje o socialismo triumphante?
A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel proletario!
Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e profundo interesse?
Anthero de Quental
a obra e a sua morte
I
Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um tão silencioso esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva, capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.
A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e dolorosa que em vão tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde imperfeito e rude de uma apreciação critica qualquer.
É hoje sómente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio, que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar com os leitores a respeito d'elle.
O livro dos Sonetos, saudado na sua primeira apparição com sincero e quasi religioso enthusiasmo, póde considerar-se como a completa confissão d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras perseguidoras da Imaginação.
Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero não era realmente um infeliz.
Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.
Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha a sufficiente abastança para não precisar viver d'elle—o que eu pelo menos considero o maior dos bens—tinha a adoração dos amigos (que lhe chamavam Santo Anthero), o respeito dos estranhos, a par de uma consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e ineffavel consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma belleza de Christo, espiritual, meiga e serena.
E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles sonetos magistraes, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos supplicios se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos labios: onde é que este homem tão tranquillamente e tão lucidamente desesperado encontra a força de continuar a viver?
O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente, terrivel mas logico, á irresistivel pergunta.
O pessimismo de Anthero não era, como a maior parte dos que nós por ahi conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado ás contradicções e ás tristezas do seu proprio destino.
Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.
A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se no soneto: A Divina Comedia, em que elle figura os homens erguendo para os remotos céus os braços desesperados e apostrophando esses deuses que só produziram a Dôr, a Paixão, o Peccado, as Illusões, as luctas fratricidas.
«Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dôr nos evocastes?» Mas os deuses com voz ainda mais triste, Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»
A Morte, não sob uma fórma repellente e odiosa, mas attrahente como esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua cantilena de seducção á flôr das aguas de um verde glauco, a Morte, revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e contagiosa tristeza.
Dir-se-hia que os sonetos lhe são quasi inteiramente consagrados. É a ella que elle vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho, entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.
Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado pedia emfim misericordia. A sua ambição não fôra de vãs glorias, nem vãos triumphos; quizera levantar uma ponta d'esse véo que esconde a eterna Verdade, além da qual tantas gerações humanas têem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e de eterno.
E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que acabou por consumil-o!
A illusão, o vasio universal, que encarava ao sahir das suas vertiginosas contemplações metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e tremente. A vida não lhe dava o que elle queria; para áquem d'esse vasto mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sêde ideal. Por isso Anthero, fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o desesperava; a
«Morte! irmã do Amor e da Verdade»
A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios tambem famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela notoriedade que os assignala, eu não sei que elles tenham comparação com o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos transcendentes que actuáram no animo de Anthero de Quental.
Os tres mataram-se porque soffriam mais do que é dado aos seres humanos soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre supplicios.
Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira, temperamento de hysterico para o qual a resignação era uma virtude impossivel, matou-se para fugir ás trevas densas de uma lobrega morte em que se sentia perdido!
Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora, elle concentrava as affeições todas do seu coração, os ultimos sonhos da sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, no amor de um filho que se suicidára com 19 annos! —deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se tambem...
Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe que luctas intimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicidio não veio rematar!
A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. Não digo que para ella não concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha porventura esperado qualquer acto de energica reacção contra o destino), mas a sua dôr era uma d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, que não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam do espirito cançado de cogitar em vão no mysterio impenetravel das cousas...
Querem vêr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites? Ouvi este soneto que é, como todos os outros, pagina solta de uma confissão intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram tambem cada um, já se vê, na sua respectiva esphera, um nos seus immortaes Pensamentos, outro no seu jornal tão caracteristico e tão pouco comprehendido:
Espectros que velais emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!...
De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia á mão dos fados
Uma parcella do saber augusto.
Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa
Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!
Foram estas as dôres que o mataram. A sua consciencia não achava repouso em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava acolher-se.
Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com infantil simplicidade; ora punha na mão direita de Deus o seu coração cançado, e lhe ordenava que alli dormisse eternamente; ora achava que a Duvida tinha soprado sobre o mundo um vento de ruina e de morte, que tudo emmurchecêra, que tudo apagára, deixando apenas uma humilde e mysteriosa flôr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.
Aspirava ao nirvâna, á paz inconsciente; queria cahir n'aquelle vacuo tenebroso onde na immobilidade indefinida termina o ser inerte, ocioso; e ao mesmo tempo a comprehensão atavica da eternidade catholica torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.
Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que sublimes tormentos os seus, procurando sem descanço a verdade e a luz!...
Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse sorrir alguns dos leitores dos sonetos emquanto o suicidio do poeta lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,—Anthero chamou pela Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais doces, os mais apaixonados!
D'elle se pôde dizer que foi um amante da Morte, amante austero e triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente
Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a nós, pobres creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repelle formidavelmente.
Digam-me se ha em lingua alguma expressão de dôr mais completa do que a d'este soneto a que Anthero pôz o titulo de Despondency por não achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado de resignada e tranquilla desesperança que elle traduz:
Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...
Deixal-a ir, á vella que arrojaram
Os tufões pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na immensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...
Deixal-a ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e fé e confiança
Á morte quêda, á morte silenciosa...