Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 15 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo XIV

 

 

As bellas theorias optimistas dos doutrinarios que haviam proclamado os Direitos do homem, a Egualdade, a Liberdade e a Fraternidade, a bondade innata da especie humana, o retrocesso á boa Natureza, o Culto da razão humana como a religião melhor e a mais infallivel, tinham produzido, ninguem sabia em virtude de que sortilegio hediondo, uma horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns aos outros com delicia selvagem e requintes de odio e covardia, ao pé dos quaes empallideciam as descripções que o passado nos legou das suas peiores tragedias.

Ninguem atinava como de tão puras premissas tinham sahido tão horrendos resultados; ninguem podia explicar como do bem se gerara tanto mal, como do progresso das luzes se tinha feito tão negra escuridão, porque motivo intenções tão sublimemente generosas tinham produzido tão monstruosos e contradictorios effeitos.

A primeira embriaguez da liberdade sem restricções e sem limites, produz sempre no homem esta demencia má. A Historia assim o diz, mas n'esse tempo era apenas uma restrictissima minoria, a que sabia lêr a Historia e colher as suas lições.

Imagine-se que Napoleão não tinha então surgido; que depois da orgia de sangue que se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho e que se chamou Directorio, não se erguia, mais alto que qualquer individualidade e qualquer instituição, essa força disciplinadora, organisadora dos partidos internos, subjugadora dos inimigos estranhos, tão poderosa, tão efficaz, tão capaz de querer, tão profundamente inimiga da anarchia mansa, que dissolve as nações e da anarchia brava que as esphacella.

A reacção mais desbragada e mais insolita tomaria então conta da França, que n'esse momento decapitada, mutilada, exangue e sceptica, não achava dentro de si nem uma energia redemptora, nem uma crença activa, nem uma só fibra que não estivesse morbidamente combalida.

O sublime esforço de tantos genios humanitarios seria por um longo periodo, que hoje não podemos calcular com acerto, inteiramente perdido; da Revolução restaria apenas a memoria dos seus inexpiaveis crimes. E porque havia rolado nos degraus da guilhotina a bella cabeça precocemente embranquecida de Maria Antonietta, e porque o pobre e burguez e inoffensivo Luiz XVI tinha expiado, como quasi sempre succede em politica, os erros e as faltas dos seus antecessores, acontecia que Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet teriam pensado, escripto, meditado, trabalhado em vão.

Quem é que seria capaz de pacificar os partidos exasperados a não ser esse homem superior a todo o seu tempo, superior á sua raça, e que pôde congregar no mesmo fim:—fazer grande e gloriosa a patria commum;—os vencidos e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados os que tinham escapado por milagre ás proscripções jacobinas e os que as tinham decretado, Fouché e Talleyrand, os filhos da antiga aristocracia espoliada, e os triumphantes espoliadores que estavam na posse do que fôra d'ella?...

E d'essa agglomeração de interesses contrarios, de ambições que se excluiam, de classes que eram antagonicas por instincto e por circumstancias, de adversarios que se odiavam mutuamente, quem tirou a França poderosa, affirmativa, unificada pelo mesmo codigo de justiça, enriquecida pelo mesmo regimen de propriedade, tendo conquistado a egualdade civil para todos os seus filhos, vendo abertas todas as carreiras para as individualidades que se distinguissem no seu seio, consolidadas todas as conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaçara suicidar-se, envenenando no seu sangue aquelles que d'elle haviam sonhado nutrir-se?

É este o papel cumprido por Napoleão na Historia, é esta a sua missão na França; como foi sua missão no mundo espalhar, propagar os principios da Revolução que elle, sem talvez o querer, representava como ninguem!

Os que o julgarem mais tarde hão de julgal-o assim, e hão de perdoar ou escurecer, como succede com Cesar, como succede com Alexandre, os seus erros e defeitos pessoaes, os quaes, feito o balanço final, que só o futuro fará, foram talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram para o inutilisar no momento em que o seu papel deixava de estar em estreita harmonia com as circumstancias que necessitaram a sua cooperação.

Ultimamente, porém, desenvolveu-se no mundo a febre de atacar ou defender o caracter pessoal de Napoleão em memorias numerosissimas, em folhetos, em livros de historia, em pamphletos, em ensaios criticos, etc., etc.

Quem deu o branle a este movimento bibliographico extravagante, que tem como heróe Napoleão, foi Taine em um dos seus volumes sobre as Origens da França Contemporanea, em que traçou do grande homem um retrato, por todos conhecido hoje, retrato á Rembrandt, cuja belleza magistral não fere á primeira vista senão os verdadeiros entendidos, quer dizer os psychologos e os observadores e moralistas.

Taine para desenhar Napoleão serviu-se do seu velho processo de documentos miudinhos juxtapostos, que não é de certo o mais interessante para o grosso publico. Interrogou as testemunhas oculares, os criados, as damas de honor da Imperatriz Josephina, as pessoas que mais ou menos estiveram na intimidade e no contacto directo de Napoleão. Ora, é bem sabido que não ha grande homem para o seu criado de quarto, mas ainda assim Napoleão excede tanto a craveira commum e Taine sabe de tal modo vivificar os mortos documentos com que fórma o seu dossier de investigador, a sua imaginação auxiliou-o de tal modo, indo procurar nos condottieri do seculo XIV e XV, como Stendhal já fizera antes d'elle, os antepassados cuja influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com tão pittoresco relevo no grande aventureiro do seculo XIX —que mais contribuem para a grandeza de Napoleão as accusações de Taine, que os elogios de mediocridades incapazes de entenderem a verdadeira grandeza.

Já se vê que um homem como Napoleão não póde ser julgado pelo nosso codigo moral. O seu potente cerebro, o maior de certo que a determinados respeitos tem havido no mundo, não se deixa subordinar pelas leis fatalmente restrictas, pelas quaes a simples humanidade tem de reger-se para mutuamente se supportar.

A sua imaginação portentosa põe-n'o continuamente a dous passos do crime ou da loucura; as suas paixões indomitas não conhecem regra, como não conhece obstaculos a sua vontade inflexivel.

É em virtude d'estas faculdades extraordinarias que elle é capaz de executar cousas que os outros nem em sonhos ousariam conceber.

Não admira que as memorias do tempo lhe sejam muitas vezes contrarias. Elle teve de subjugar muitas vontades, de se contrapôr a muitas ambições, de humilhar naturalmente muitas vaidades, de excitar muita inveja e muito despeito, para que os seus contemporaneos mais intimos sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza excepcional de um destino que a todos offuscava.

Mas o que ninguem póde negar-lhe é o poder singular de seducção que o seu sorriso irresistivel, que o seu olhar de aguia exerciam. Venceu e dominou todos os que se lhe approximavam, e os proprios imperantes, seus inimigos, receberam, ao contacto d'aquella grandeza simples que o distinguia, o choque electrico que se communicava fatalmente da alma d'elle ás almas com que a sua estava em contacto.

O retrato de Taine indignou, porém, apezar da sua incontestavel belleza artistica, apezar da sua expressão intensa de vida, dos toques humanos que o fazem palpitar, os adoradores de um Napoleão imaginario, todo virtudes burguezas de familia, e clemencia de Moral em acção e um escriptor francez para mim desconhecido, o Sr. Arthur Levy, acaba de publicar um grande volume com o fim de contrapôr o verdadeiro Napoleão, o que elle chama Napoleon intime, ao terrivel grande homem descripto por Taine, e de contradizer o critico francez em todas as suas asserções ácerca do caracter pessoal do Imperador.

Ora, o Napoleon intime do Sr. Arthur Lévy é a mais falsa personagem historica que póde imaginar-se, embora seja todo elle composto, como um mosaico laboriosissimo, de pedacinhos de cartas escriptas por Napoleão, e de pedacinhos de documentos de uma authenticidade incontestavel.

O que mais irrita o auctor do Napoleon intime é a hereditariedade italiana, que Taine tão logicamente lhe attribue. Um burguez francez dos quatro costados e com todas as virtudes médias e as qualidades mediocres da burguezia francesa eis o que o Sr. Levy pretende fazer do heroe das Pyramides e de Austerlitz e de Arcole e de Wagram!...

Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, que a piedade de nacionaes e estrangeiros visita quotidianamente em veneravel recolhimento, poder-se-hia escrever segundo o criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre a sepultura de um burguez de 1830 mandou gravar a familia consternada:

Bom esposo, bom pae, bom filho e bom guarda nacional.

Napoleon intime está escripto, é verdade, com grande copia de referencias, de citações e documentos. Em primeiro logar, documentos e citações truncadas nada significam. Depois, quando muito, elles poderiam provar que uma das faces do multiplo caracter de Napoleão era essa que o Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: isto é, uma certa fraqueza, que é frequente nos seres superiores para o seu entourage mais intimo, para a familia, para a mulher, para os amigos, sempre que os amigos lhe não resistiam.

O heróe de mil batalhas desde as campanhas da Italia e do Egypto até essa admiravel campanha de França, a de mais superior estrategia, segundo asseveram entendidos; o organisador, o administrador, o general extraordinario em cuja visão se gravava toda a topographia de um paiz, com os seus accidentes de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus recessos, as suas planicies, os seus pontos mais fracos e os mais fortes, e que fazia d'essa sciencia rara a applicação mais genial e a mais pratica; o homem de mil occupações simultaneas, que deslumbrava, pasmava, esfalfava os seus collaboradores subalternos; o violento, o apaixonado, o teimoso, o tyranno; o organismo de uma delicadeza de impressões, de uma violencia de impulsos, de um apuro de sensibilidade excepcionaes; o que suggeria milagres e os fazia; o que subjugou e seduziu uma nação inteira; a figura, emfim, unica! em toda a Historia moderna, que foi Napoleão, nem por um momento transparece nas paginas de uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy lhe consagra laboriosamente.

Napoleão antes queria, de certo, esse retrato ás vezes de um crú realismo de toques, que Taine lhe consagrou, do que o monotono panegyrico d'este seu incommodo admirador.

Aquelle que eu fui ver aos Invalidos é talvez o Napoleão de Taine, o do Sr. Levy, oh! esse é que affirmo com a infallibilidade da minha intuição de mulher, que não é de modo algum.