Pelo Mundo Fora
Capítulo II
Deixal-a ir a nota desprendida
De um canto extremo e a ultima esperança...
E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!
Não ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle não era, como já dissémos, um escriptor de officio, que de proposito exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para as transformar em rhetorica livresca; não tinha tambem um vão amor de gloria indesculpavel em quem sondava com tão penetrante e lucido olhar o vasio de todas essas chimeras, a ephemera duração de tudo que é da terra...
Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de expressão inegualavel, e n'esses versos só uma
nota era constante: o elogio da Morte.
Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flôres, supplicou-lhe que o accolhesse no seu regaço frio, achando emfim que depois do mal de haver nascido não havia senão um bem: tornar ao Nada.
II
Quando o livro dos Sonetos appareceu escrevi eu um estudo sobre elles, que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade absoluta e de uma immensa sympathia.
Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas poesias tão raras na nossa litteratura,—a qual como todas as litteraturas meridionaes não pecca pelo excesso de pensamento—tivesse consummido a vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si mesmo, n'aquella especie de meditação allucinada que se traduzia, é verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas, productos de uma dôr mortal.
E revoltava-me contra a solidão mental em que Anthero se concentrára, contra as hesitações do seu querer, contra as fluctuações do seu pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçaes cheios de espinhos e de reptis....
Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de offerecer aos meus leitores, a carta, até hoje absolutamente inedita, que Anthero de Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se publicaram primitivamente no Jornal do Commercio de Lisboa, e que hoje estão incluidos no volume intitulado Alguns homens do meu tempo.
Ahi vae a formosa e eloquente carta:
«Porto, 24 de dezembro.
Minha Senhora
Agradeço-lhe muito os seus artigos no Jornal do Commercio, e creia V. que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva desdenhar par le temps qui court. Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração d'essas palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) pessimistas e nos receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam a manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o nec plus ultra da civilisação, ou em individuos que attingiram o nec plus ultra do pensamento.
Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com elementos estranhos e até contradictorios, e por isso me não admira que não possa ainda ser apreciado sem grandes apprehensões. O meu livrinho, apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota exacta e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos, precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que realmente merecesse ser posta em verso.
Não podia elle, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes era natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convicção é que taes apprehensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturaes e espontaneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, não só não ha contradicção verdadeira, mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera que elles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas illusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas, e attingem a
plena consciencia do que são e para que são. E seria singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo, senão fórmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem!
A, verdade é que a civilisação moderna chegou, no seculo actual,
como a civilisação antiga, no periodo do Imperio Romano, a um ponto em que, sob pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gráu superior da mesma civilisação.
Hoje, como então, as questões metaphysico-psychologicas são a chave de todas as outras questões porque, tendo o proprio progresso das instituições e das idéas arruinado os antigos alicerces moraes da sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiavel não é já a do aperfeiçoamento das instituições nem do augmento dos conhecimentos, mas a da organisação theorica e pratica da vida moral, a creação da ordem nas consciencias, em uma palavra a remodelação do homem interior, sem o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio que pareça é mais miseravel que o escravo mais embrutecido.
O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisação poderosa e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel, bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá morrido: e morto elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a grande mólle social. A sociedade é, antes de tudo, um facto de ordem moral.
Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer d'ellas o assumpto de um escripto, até a certo ponto em resposta aos artigos de V. e que publicarei em fórma de carta, se V. levar isso a bem.
E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.— Anthero de Quental»
Esta carta tão bella na fórma, e tão profunda no pensamento, apresenta porém a contradicção fundamental a que Anthero succumbiu.
O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a actividade mais incansavel, o esforço mais tenaz.
Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e contemplativo pensador a quem o nirvana sorri como o supremo fim da sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e tenta pelo seu esforço creal-o, sabe que se dissolvem as fórmas em que a consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma não se apaga jámais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas não antes de a transmittirmos áquelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais intensa...
O patrimonio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer e luctar. Este não morre com as pobres gerações que se succedem como as folhas das arvores, como as ondas do mar...
Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercicio activo das suas energias espontaneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a qualquer eminencia moral, que ella ainda não antevê de longe, mas que existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...
A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta é esteril, é que elle, querendo salvar por este modo a sua clara consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no suicidio banal dos vencidos e dos fracos!
Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não elle, tão grande, que tinha razão, e essa razão, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar. Ninguem pensára mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia tão delicada, de uma penetração philosophica tão subtil, e cujo entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da metaphysica e da psychologia.
E no emtanto elle não achou outra resolução ao problema que está presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e dos individuos que pensam intensamente, senão a do suicidio silencioso.
É profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em quando, se manifesta em factos como este.
Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino ulterior da nossa especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a natureza não é boa, depois, quem sabe póde porventura, e só por effeito da sua vontade começar de um dia para o outro a ignorar?...
Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisação particular, o que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro, no espirito d'elle, uma irritação doentia, uma penosa desesperação resultante dos limites que este acha sempre á sua curiosidade transcendente—cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, está por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degeneração.
Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas abstracções do pensamento, nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que tem elle produzido senão resultados negativos, e allucinações doentias? A civilisação antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do destino do homem divinisando-lhe as paixões, e fazendo a permanente apotheose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehensão harmonica e grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.
O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mysterio que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que se têem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de pensamento—e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora não tem agua que sacie a nossa sêde, não tem piedade que unja a nossa lenta agonia!
Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio; que é ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!
E um véo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado, convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realisação mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a cada abalo subterraneo que revele quão minados estão os seus alicerces e em que movediça areia assentam os seus edificios de Babel!
Comtudo ha uma affirmação, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem mental, que póde ser feita sem medo!
O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraiçôa ou o desdenha. É ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas d'onde elle promana, e é pela humildade e pela acceitação resignada do seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre humanidade definitivamente se salvará!