Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 28 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo III

 

Deante da obra tão vasta e variada de Oliveira Martins não póde ainda a critica lavrar qualquer juizo definitivo. É cedo de mais para que esse tribunal pronuncie a sentença decisiva que tem de ficar gravada no Pantheon das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel e austera tem de addiar ainda o resultado da sua investigação, é licito a cada um de nós dar a impressão intima que recebeu do trabalho devéras extraordinario do escriptor que se finou.

Em primeiro logar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta, transforma-a em uma especie de problema altamente interessante para a psychologia.

Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, do sonhador philosopho, do moralista desdenhoso, havia—estranha coisa, tão rara na nossa raça simplista—um ser inteiramente contrario a esse, um espirito positivo na analyse dos factos, rigoroso nas deducções do pensamento, pratico na administração dos negocios, e em que uma rara sagacidade das coisas se alliava a um methodo maravilhoso na classificação dos conhecimentos positivos.

Estes dois homens tão diversos formaram um só, ás vezes coutradictorio até ao enigma irritante, incomprehensivel ao entendimento médio, illogico perante a opinião do vulgo. Separados, cada um d'elles formava um conjuncto completo de qualidades harmonicas, uma força intellectual de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de desnortear, de entontecer até o espirito mais perspicaz e mais aberto ao feliz dom da sympathia intelligente. Assim como o seu talento tinha estas duas faces distinctas quasi inconciliaveis, pois que presuppõem qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical opposição, assim tambem a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. A um d'esses ramos, o mais arido para mim, o que nada admira—pertencem os seus tão notaveis artigos jornalisticos, quasi todos compilados nos volumes Politica e economia nacional e Carteira de um jornalista, os seus opusculos e livros sobre o Regimen das riquezas, o Socialismo, as Eleições e até o seu magnífico projecto de Lei de fomento rural, que póde bem chamar-se um programma completo de restauração patriotica, uma especie de systema de hygiene applicado ao organismo exangue de um paiz que, primitivamente destinado a uma existencia modesta e rudemente tonica de trabalho rural, de obscura felicidade sem historia, se gastou nos excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino que o fez viver, é certo, e que lhe deu renome, mas que o condemnou á longa e incuravel anemia de que todos morremos hoje aos poucos...

É como um homem verdadeiramente pratico que apparece aos nossos olhos, o publicista, o deputado, o politico nem sempre feliz, embora sempre perfeitamente intencionado do periodo que talvez mais do que nenhum outro, elle quereria ter riscado da historia, aliás tão nobre da sua vida. É sob essa face que elle assombrou muitas vezes não sómente os espiritos da nossa terra mais chãos e mais positivos, mas ainda os homens de negocio estrangeiros com quem teve de tratar tantos assumptos de importancia e que ficavam falando d'elle como de uma intelligencia rapida, aguda e fria, absolutamente rara nas nações peninsulares.

Se essas faculdades sem o auxilio de outras já são sufficientes para assignalar o alto valor de um homem, o que fará quando a essas se ajuntam em rarissimo connubio outras, mais altas, mais nobres, mais reveladoras de uma grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!... Quando o mesmo homem, que ha pouco parecia versar, com tanta segurança e tão fino criterio, questões de que dependem o bem estar material e a ordem administrativa e economica das nações, se revela de repente um delicado artista vibrante e creador, um entendimento alado, capaz de erguer-se ás cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a historia é uma continua revelação de reconditos segredos da alma, uma evocação magica de figuras vivas, uma palpitante suggestão de moral e de justiça?!...

Os que tiverem de pôr de pé deante da posteridade a figura inteira de Oliveira Martins, têem de evocal-o sob estes dois aspectos e fundir ambos na culminação intellectual a que elle attingiu.

Outros fizeram a historia com mais exactidão e mais verdade—se a verdade historica é apenas a verificação rigorosa das datas e a decifração lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais bronzeo estylo as cogitacões do seu vasto pensamento; outros interrogaram com mais paciente e minucioso escrupulo os monumentos do passado, legados sob multiplas fórmas materiaes ou moraes, artisticas ou religiosas, á geração sua contemporanea: poucos têem possuido, mais ardente e mais vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raça e de lhe traduzir as aspirações occultas ou os sonhos realisados; de lêr a summula completa dos destinos de uma nação na obra truncada que ella tentou em vão consummar; de evocar em plena vibração de vida, em plena intensidade de emoção communicativa os typos representativos de uma época remota e finda; de emprestar a sua propria alma á alma dos mortos e de os fazer resurgir do sepulchro, onde pareciam para sempre esquecidos, á luz fremente do mais bello e claro dia.

Accusam-n'o com razão de contradicções, de inexactidões e erros de facto, que um espirito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou evitar. Sim. Tudo isso é verdade.

Mas escrevam, se são capazes, a Historia que elle escreveu, interessem-nos apaixonadamente como elle nos interessou, dêem o vigor, o relevo, a vida que elle deu aos personagens que evocava, façam de cada um dos seus livros o drama agitado que elle fez, transformem a Historia como elle a transformou, em uma prophecia, em um lamento, em uma licção, em uma suggestão ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e não póde tornar a ser.