Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 17 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo II

A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, a musica, a rhetorica, etc. Os Romanos, porém, de uma inaptidão esthetica tão justamente reconhecida por Mommsen—não acceitaram com prazer, de quantas artes e sciencias lhes trouxeram os seus educadores gregos, senão a grammatica e a rhetorica. A philosophia affigurava-se-lhes um palavriado vão e inutil; a geometria e as mathematicas só os captivavam pelas suas applicações de utilidade pratica; eram para elles a arte de contar e de medir.

A rhetorica, porém, essa arte de falar que tanta influencia produzia na imaginação antiga, impoz-se-lhes fatalmente após as primeiras reluctancias do instincto conservador, que detestava tudo que era innovação.

Foi então que a educação dividida em dois ramos, fez da leitura e explicação dos poetas, da critica e analyse das suas obras, a sua base fundamental.

Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias gothicas a mais romana das nações, dá aos discipulos das suas universidades aquella fórte educação classica que torna tão substancial e tão nobremente florida ao mesmo tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.

 

II

 

Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traçou, n'essas paginas tão ricas de informação e tão sobrias de côr, escolhamos, para d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.

A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica não póde, por exemplo, interessar-nos tanto como a Conversão de Santo Agostinho.

Este Santo que conheceu até á saciedade, até á nausea, todas as delicias da volupia pagã, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixão litteraria as escolas de Carthago, este christão que seguiu com enlevo as procissões da Mãe dos Deuses, e que no theatro devorou avidamente as peças ligeiras do reportorio antigo— interessa-nos pela violenta crise mortal que determinou a sua conversão.

Elle mesmo nos confessou em um livro que será sempre avidamente lido pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as gradações, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do Infinito e que procurava estancar a sêde que tinha lá dentro de verdade e de luz, correndo atraz de todas as sensações acres e pungitivas, sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão e do Prazer.

Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao renunciar ás delicias da litteratura pagã, ás graças da musa classica, aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da intelligencia e dos sentidos.

Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porém, com ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das Escripturas. Ao principio a barbaria christã revoltou o seu puro gosto. Só mais tarde é que, através da fórma incorrecta d'essas traducções hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christãos, elle poude perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior, as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspirações e os seus sonhos, crear uma nova fórma de civilisação infinitamente mais rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravação romana tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca vistos crimes!

Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisação definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão é de um interesse palpitante.

Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de uma consciencia sincera.

Aos que fôrem verdadeiramente homens nada do que é humano póde ser estranho; e onde é que a maravilhosa planta dá a sua flôr mais desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas sublimes energias, a consciencia, todas as suas forças mysteriosas!...

Santo Agostinho é o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida, que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia julgou ser a eterna verdade!

Subir tão alto pela acção do seu proprio entendimento é conter dentro de si, em um momento cuja memoria não mais se anniquilla, fecundando eternamente outras almas e outras existencias;— aquella porção de elemento divino que é dado á frágil humanidade realisar e encarnar em si bem raras vezes.

São estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raça imperfeita, tão grande pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue executar.

As origens da poesia latina christã, que compõem o livro 4.º, no segundo volume, são tambem cheias de interesse e novidade para quem não está costumado—e quem o está hoje em dia?—a versar tão remotos assumptos!

A litteratura christã nasceu como já dissemos da mistura que se fez durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.

Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.

Mas muito embora ella não tenha valor litterario, ninguem póde negar-lhe um grande valor historico.

O grande abalo moral que o Christianismo imprimira ás almas não tem comtudo, um éco que lhe corresponda na poesia d'este tempo.

Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissolução na qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locuções barbaras, e que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes, perdera o sabor e a graça ampla e perfeita da aurea latinidade.

Não póde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de escriptos, que essa era,—no entretanto fecunda e na qual se estavam surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos novos—produziu e nos legou.

N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da Historia.

O mundo estava sendo revolvido até ás suas entranhas mais profundas.

Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas dolorosas em cada familia; em uns a sêde do martyrio tinha voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensações de uma intensidade inultrapassavel conheceram então as almas! Que fontes de graça mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados corações! Os crentes elevaram o espirito n'um extase até alli desconhecido. A vida eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno au de lá. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma maré mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoção da piedade fraternal, que subito fizera todos os homens irmãos, e todos os irmãos soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!

O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graça, as suas parabolas de idyllica innocencia, as suas lições de simples e ineffavel bondade, aos saciados de uma civilisação dissoluta e abominavel!

Todos tinham um quinhão n'aquella herança preciosa!

Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!

Não é, porém, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da litteratura christã do tempo, que este mundo de emoções novas tem o seu perduravel reflexo.

A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por este impulso que a transfigurava e sacudia, em idéas, em typos, em imagens, em lendas, que a Arte Christã em todos os seus periodos tem largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a imaginação christã elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o mundo moderno.

Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no tempo do christianismo primitivo, são os thesouros mais ricos em que essa imaginação se desentranhou.

A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli. Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma moderna, são tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas collaboraram em um enleio religioso, e em uma fé palpitante e suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.

Essa é que é a verdadeira litteratura christã, aquella em que as forças espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.

 

Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos outros que estão cheios de revelações sobre a quadra que descrevem, e em que nós os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e outro principia a destacar-se nitidamente—paremos deante do Livro quinto do 2.º vol. que tem este titulo que é só por si um regalo para os gulosos de taes estudos: A sociedade pagã nos fins do seculo IV.

Mas percebo agora que cheguei ao fim do espaço de que posso dispôr. E este capitulo de costumes,—em que uma sociedade aristocrata, culta, amiga das lettras, fastienta até ao requinte, frivola até á dissipação, muito occupada de elegancias mundanas, de convenções e de cerimonias, muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,—este capitulo, digo em que uma sociedade tão parecida com a nossa com os mesmos preconceitos, com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupação do perigo está posta de pé, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito proximamente lhe consagrarei.