Pelo Mundo Fora
Ernesto Renan
Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.
Quiz—é este o sentido profundo e philosophico do seu livro—dizer-nos que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e austero...
Ernesto Renan
sua obra, o seu espirito, a sua philosophia
I
Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito incidente aos já citados aqui por informadores habeis e intelligentes.
Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores ácerca d'esse espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na Europa culta uma lacuna imprehenchivel.
Não é, porém, meu intento fazer obra de critico, o que além de mais, seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que a minha sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que tão bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome Léolin, nos Dramas Philosophicos, dava do seu genio esta adoravelmente exacta definição:
«O que é que eu faço no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte; entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a minha profissão. Procuro o Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A verdade demanda maior dose de perseverança nos que a buscam; é por isso que ella me foge, talvez.»
Não ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido, entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem possuido em todo o mundo.
É fóra de duvida que, para mim, o hebraisante, o erudito, o epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos assyrios, o sabio, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente. Admirava que um tão grande poeta tivesse a humilde ambição de ser apenas um grande erudito; ambição que lhe era de resto cruelmente contestada por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes impronunciaveis de terminações barbaras, que eu nunca tinha lido, e julgo aqui entre nós, que sómente se tinham lido a si mesmos...
Esses, escreviam volumes in folio para provarem que o Sr. Renan não conhecia os textos, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar até ás lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa— desesperava-se com a incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemães, de que toda a gente que se presa ignora a existencia, não atinando sequer com a arrevesada pronuncia dos seus respectivos nomes...
O hebraisante era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de pé, com a sua intuição extraordinaria da alma religiosa das multidões extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do passado; com a sua visão clara e profunda das cousas que já foram; com o magico poder de evocação que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso d'aquelles todos.
Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e de doentia exaltação, saberá dar vida ás perturbações nervosas, aos desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.
Um Victor Hugo dará o nitido contorno das cousas, e até para o mundo da allucinação levará o seu poder de descrever o incommensuravel, de figurar o impossivel...
Um Carlyle tera a visão ardente de um mundo como foi o puritano, capaz de produzir Cromwell; e saberá—desmontando peça a peça o machinismo complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido conductor de homens, e de crente quasi fanatico—revelar-nos o segredo da quadra estranha de que elle é o producto natural, a resultante logica...
Renan saberá principalmente interpretar e traduzir problemas e sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o grande inglez que escreveu o Culto dos heroes, a historia, é uma
cousa viva, uma cousa ineffavel e divina, destinada a resuscitar diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoções violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e heroicidades, dos nossos irmãos que morreram, das gerações que modelaram fatalmente a nossa, e ás quaes devemos o que somos em bom e em mau.
Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solidão quasi absoluta, em uma isolação moral quasi selvagem, lendo apenas com intima delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros do grande exegeta: a sua longa Historia do Povo de Israel, cujo 4.º e 5.º volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.
E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguiça, que um espirito de mulher indolente não podia deixar de experimentar ante um trabalho d'esta ordem—eu acabára por sentir-me irresistivelmente e deliciosamente transportada áquelles tempos obscuros em que o semita nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano, com a mais alta noção religiosa a que á nossa especie foi dado ainda attingir, a noção de um deus unico, cujo espirito está em tudo, e ao qual o vasto Universo obedece submisso!...
Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituições politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religião de que a nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que tão profundo cunho lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos demolidores do passado se não póde libertar da sua poderosa e absorvente influencia!
Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a Historia do Povo de Israel, é talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espaço para se desenvolverem.
Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito que pensa, do que a evolução da idéa religiosa, seguida passo a passo, com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de sua apaixonada energia, com as acquisições moraes, tão laboriosamente e dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos convulsionarios.
Sendo a civilisação moderna uma resultante da collaboração alternativa da Grecia, da Judéa e de Roma, as origens da historia d'essa raça mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente Jahvê e Jesus não podem deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de conhecimento e de luz moral.
Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa em que vivera, embriagado longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e perturbadora.
E quem como elle sabia, da lingua que fallava, extrahir effeitos de harmonia, ao pé dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente secundarios?
Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua Historia do Povo de Israel:
«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorsões, um trombone de bronze, dilacerando o espaço com duas ou tres agudas notas: eis o hebraico.
«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem um pensamento philosophico, nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepção do infinito.
«As lettras dos seus livros serão contadas como numeros, mas serão feitas de fogo como a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, mas as que disser, serão martelladas sobre uma bigorna.
«Derramará ondas de colera, terá gritos de raiva contra os abusos do mundo; clamará pelos quatro ventos do céo para que acudam ao assalto das cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario não servirá para uso algum profano; nunca lhe será dado exprimir a alegria innata da consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamará a guerra santa contra a injustiça, e o appello dos grandes panegyricos; será o clarão das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio hellenico comporá, para a expressão das alegrias e das tristezas da nossa alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá vibrar unisono com tudo que é humano, um grande orgão de mil teclas igual ás multiplas alegrias da vida.
«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde as dansas em côro nos pincaros do Taygeto até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de Alcibiades até á austeridade do Portico; desde a canção de Anacreonte até ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Platão.»
Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse posto como epigraphe á Historia do Povo de Israel, em que Renan traduziu genialmente sob a divina inspiração do genio Grego, a alma tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos prophetas da raça semitica.
Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religião que veio depois a dominar o mundo!
Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia que sobre a Acropole lhe revelou o segredo dos seus primores! O assumpto é o semita, mas a lingua em que essa sublime evocação se fez, o magico instrumento, atravez do qual nós communicamos com o arido e difficil assumpto, a inspiração adoravel, que presidiu a este trabalho de reconstituição historico-religiosa, a arte plastica, com que elle é genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no coração da Grecia!
É só ahi que a Belleza e a Razão têem a mesma fórma e a mesma essencia; é só ahi que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates e que a Poesia e a Religião enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que são symbolos e de chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.
Mas quem leu sómente de Renan a Historia do Povo de Israel ficará conhecendo todo o genio complexo do escriptor?
Decerto que não. Elle é um grego pelo amor da belleza plastica, mas é um celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu genio.
Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.
Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis, da sua Historia das origens do Christianismo.
Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos inesperados d'esta imaginação de poeta, que em certas paginas,—como por exemplo, no sonho de Leolino, na Eau de Jouvence, invocando a alma da adorada irmã morta; nas paginas dulcissimas dos Souvenirs de Jeunesse; na symphonia esplendida que se chama La Prière sur l'acropole; na dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos de Historia Religiosa;—attinge uma virtuosidade, um poder de harmonia, excita uma emoção, faz vibrar tão intensamente os nervos do leitor, que póde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que parece vir d'além da terra, em musica que penetra no coração e o desfallece de delicioso extase.