Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 8 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo VI

A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de agonisante prazer, é a musica. Essa sim, que é para nós o que a estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade media, o que a pintura foi para os renascidos pagãos da Renascença italiana, ébrios de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de nós todos, e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e nos arranca a nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo.

 

VI

 

Visto que no outro capitulo fallei, não na inferioridade o que seria um mal escolhido termo, mas na differença que distingue a estatuaria moderna da estatuaria antiga, vou dizer alguma cousa a respeito de um dos artistas mais palpitantemente modernos, mais caracteristicamente diversos dos antigos que hoje possue a França e a quem de passagem me referi nos meus anteriores artigos.

Este artista é Rodin. Os seus principios foram rudes e difficilimos, como o de quasi todos os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles que trazem comsigo um temperamento tão accentuadamente independente e tão intransigentemente pessoal, que desnorteia todas as rotinas e revoluciona todas as estheticas estabelecidas e todas as escolas triumphantes.

Hoje Rodin é, elle proprio, um triumphador.

Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe a altiva independencia artistica, chamam-lhe um dos primeiros, senão o primeiro esculptor do seculo.

Nem sempre comtudo succedeu assim.

Quando elle primeiro apresentou no Salon a sua figura denominada «L'áge d'airain», que hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim do Luxemburgo, a primeira impressão do Jury, diante da escrupulosa exactidão de algumas partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario o tinha modelado sobre um corpo vivo e real.

Como se um tal excesso realista e anti-esthetico não fosse a condemnação de um artista e pudesse produzir outra cousa a não ser uma obra morta logo á nascença.

Foi em 1877 que a figura da «Idade de bronze» foi mandada ao Salon. Em 1881 Rodin expunha o «S. João de bronze», «um

anachoreta magro e robusto, de musculatura devastada e solida, erguida sobre pés que a marcha endureceu, torso nodoso, habituado a todas as intemperies, com um gesto de prégador obstinado, que levanta a face illuminada e aberta dos mysticos e dos colericos.»

Até 1885 Rodin, que ao pé do «S. João» expuzera tambem a «Creação do homem», apresenta na grande nave do Palacio da Industria os bustos expressivos e magistraes de Jean Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de Victor Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.

No emtanto o acontecimento magno que até o presente domina a carreira artistica de Rodin é a concepção e a execução da «Porta», destinada ao «Museu das artes decorativas», á qual me referi já n'estas mesmas notas.

Fiz, acompanhada do meu amavel cicerone o trajecto longo que leva ao «atelier» de Rodin.

Caminhámos pela rua da Universidade, atravez dos longos boulevards e das largas avenidas que se entrecruzam ou correm parallelamente nas proximidades dos Invalidos.

É uma rua aristocratica e socegada; tem grandes palacetes e tem velhas arvores.

Outras vezes surprehendem-nos entre esses vestigios de antigas grandezas, pequenas casas graciosas com jardinsinhos á ingleza cuidados e cheios de flores.

No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo de mau gosto, americanismo revoltante erguido em plena Athenas moderna,—a physionomia d'esta rua placida e tranquilla modifica-se bastante.

Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraçados, mais altos do que as muralhas, annunciam ao observador que entra n'um bairro de esculptores e pintores.

Entrámos no n.º 182.

Transposta a grande porta, que lembra o portão de uma das nossas quintas, achámo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o chão é musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viçosa, e por sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam curiosamente...

A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz profunda, uma quasi solidão melancolica e doce.

Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de fórmas diversissimas, de côr frigida e branca, de arestas que brilham como aço ou como vidro ao sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso sangue...

Dormem na severa prisão cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos, leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva adolescente, divinas nudezas de que esses marmores são a primeira fórma rude, fórmas delicadas em que o genio do artista accenderá uma chispa mysteriosa de vida immortal.

Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancará d'essa massa dura e informe!

Como elle saberá flexibilisal-a em membros de uma graça serpentina, arredondal-a em braços que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva, derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de um seio virginal...

Todas estas visões de um mundo increado nos são suggeridas pela vista d'esse campo cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz rosea e violeta do crepusculo, parece—disse-nos alguem—uma charneca semeada de gigantescos tumulos...

Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos «ateliers» de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, que eu ia visitar.

 

Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre não estava, e o discipulo, que trabalha com elle,—um rapaz do Norte, de immensa distincção de aspecto,—nem sequer pôde mostrar-nos a esplendida Porta, que estava no compartimento fechado contiguo áquelle em que nós entrámos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa griffe do grande esculptor se imprimira profundamente.

O talento de Rodin é tão pessoal, é tão inconfundivel a sua maneira, que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, não tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos seus contemporaneos celebres.

Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin destaca, comtudo, em uma energia indominavel.

E original é ainda o assumpto que elle escolheu para essa Porta monumental, apesar de arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma transformação da idéa do poeta, não é uma copia do seu pensamento, nem um reflexo exacto da terrivel visão florentina.

Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor a descripção d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.

Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece, envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que se contam por milhares.

Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto.

A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a distracção absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes da execução manual, ora a preoccupação dolorosa do investigador insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco ogival na fórma, é vasta bastante para conter um cerebro potente de pensador e de poeta.