Pelo Mundo Fora
Segunda parte
O fim do Paganismo
(gastão de boissier)
A litteratura franceza da actualidade é pouco abundante em obras fundamentaes de sciencia ou de historia, embora conte no seu seio dois dos historiadores mais brilhantes dos modernos tempos Renan e Taine. Á excepção, porém, d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas principaes da sua educação intellectual á Allemanha e á Inglaterra e nos quaes são profundamente sensiveis essas influencias estranhas—póde dizer-se que a grande geração dos Michelet, dos Quinet, dos Auguste Comte não deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.
Continúa, porém, a escrever-se muito em França, e como as qualidades eminentemente sociaveis d'esta nação privilegiada a tornam apta para o seu grande papel de propagadora, de educadora dos espiritos, póde bem accrescentar-se que nós os europêus do Occidente quasi tudo que sabemos, o sabemos passado pelos livros da França.
Ou traduzidos para francez ou assimilados pelo espirito da França, é por esse caminho que nos chegam todas as grandes idéas mais ou menos novas, elaboradas ou transformadas pela raça anglo-saxonia, pela raça germanica, ou pela raça slava.
Eu por mim lamento infinitamente que em Portugal a litteratura ingleza por exemplo seja tão incompletamente conhecida. Tenho achado tantas vezes um gozo incomparavel na leitura de escriptores inglezes, que não posso deixar de sentir que esse intenso prazer intellectual não seja mais universalmente partilhado. E é-o tão pouco que ha tempos uma amiga minha—muito instruida e grã ledora por signal—me affirmava ter ouvido a um homem de Estado portuguez, ministro, e não sei que mais, se mais alguma cousa póde haver que ministro, na opinião imparcial de quem o é,—affirmar audaciosamente que para provar a inferioridade mental da Inglaterra bastava dizer isto: é que a Inglaterra não tinha uma litteratura!
Que a patria que viu nascer desde Chaucer e Spencer, até Shakespeare, Milton e Byron, desde Bacon até Herbert Spencer, desde Addisson até Macaulay, desde Richardson até Georges Elliot, desde Bunyan o inspirado da Religião até Carlyle o inspirado da Historia—perdôe as heresias do joven estadista, meu compatriota, cuja ignorancia me parece o estar realmente predestinando para governar e dirigir a nossa metaphorica Náu do Estado, por muitos annos e bons.
Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, contra o meu costume, de apresentar um livro francez tão erudito, tão profundamente e facilmente elaborado, tão cuidadosamente feito sobre documentos authenticos, como se o firmasse o nome de um inglez estudioso, ou de um sabio allemão.
O livro, chama-se O fim do paganismo e deve-se á penna autorisada e seria de Gaston Boissier da Academia Franceza, grande e sincero cultor da antiguidade latina e autor de obras muito importantes sobre a historia das lettras classicas.
A obra é enorme. Tem dous volumes macissos que tratam unicamente de assumptos estreitamente ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso lê-se com immenso agrado, porque é profundo sem ser pedante, é vivo sem ser desordenado e está escripto com um sentimento intenso e profundo da época que o inspirou.
Essa época é aquella em que as ultimas luctas religiosas se travaram no Occidente entre o Paganismo que expirava e o Christianismo que irrompia ardente, impetuoso, tumido de seiva,
cheio de um longo futuro das entranhas fecundas da humanidade.
Abre com o seculo IV pela conversão de Constantino, isto é, pela christianisação do Imperio Romano, e fecha com a invasão dos barbaros e com a destruição d'esse Imperio assombroso, que até ás vesperas da sua completa anniquilação fez o espanto até d'aquelles mesmos que mais soffreram d'elle, e que não podiam crêr que elle fosse destruido!
Ja se vê que nos é impossivel em um artigo, ou mesmo em uma série de artigos, resumir este trabalho que representa longos annos de estudo e de paciente investigação; que reflecte a leitura aturada do mais enfadonho e difficil de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e a de Roma decadente.
Não queremos, porém, deixar de anunciar este livro áquella classe de leitores que amam sinceramente o estudo, e principalmente o estudo da historia, um dos mais attractivos, um dos mais interessantes que existem no mundo, porque é um d'aquelles que suggerem mais variedade de pensamentos e mais extensa série de impressões intellectuaes.
A que logo se destaca d'esta obra monumental de que tivemos a paciencia de lêr attentamente as mil e tantas paginas é esta: Como nas mais diversas épocas, os homens, tendo attingido um certo gráu de civilisação, se parecem entre si!...
Quantas similhanças frisantes, que identidade de pontos de vista encontramos entre os homens que figuraram no IV seculo da nossa éra e os homens de hoje!
Não admira, porém, isso tanto, logo que pensarmos que ha bastantes similhanças entre a phase de civilisação que atravessamos e a d'esse seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso imperio, ao fim tragicamente melancolico de uma religião, á transição violenta e brutal na distancia, mas menos violenta de facto do que a imaginámos, de um regimen para outro que lhe era totalmente opposto.
Não é por uma historia systematicamente escripta, chronologicamente ligada pelos factos, que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra tão afastada de nós.
O auctor preferiu um methodo muito mais captivante e talvez um pouco menos difficil.
Traça quadros differentes e livros completos em si. Fórma como que uma galeria de figuras typicas, cuja influencia se tenha feito sentir pela sua obra escripta ou pela sua acção directa sobre os contemporaneos.
Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre e analysa-lhes os livros, as cartas, as poesias, etc. etc. Pede á historia do tempo que lhe forneça os seus documentos mais incontestaveis e reconstrue com elles ou uma physionomia de Imperador ou uma figura de Poeta, ou uma veneravel e grandiosa imagem de Bispo ou de Doutor da nascente egreja.
Constantino, o imperador convertido, Julião, o imperador apostata, são dois estudos de alto interesse historico e psychologico. Em ambos, o auctor vê dois convertidos, dois fanaticos, um do christianismo que se apossa da sua alma e a transporta em allucinações supremas, outro dos velhos deuses, abandonados, cuja restauração prepara com paixão fogosa e arrebatamento devoto.
Nem Constantino é o ambicioso que muitos historiadores têem imaginado e descripto, nem Julião é o livre-pensador que Voltaire enthusiasticamente applaudia.
São duas almas sinceras que usáram do poder illimitado que possuiam, para imporem ás almas dos outros a fé que os transportava. Julião vingava-se assim da oppressão em que o tinham tido longos annos e associava á causa dos deuses vencidos a sua propria causa de opprimido e de victima.
No livro intitulado O Christianismo e a Educação Romana, Geston Boissier, o erudito escriptor, traça o mais brilhante quadro d'essa educação antiga, cujo poderoso encanto é tão penetrante, é tão subtil que nunca mais ella deixou de ser a base da instrucção que o mundo tem dado aos seus modernos filhos.
Foi por meio da educação, dada publicamente por mestres pagãos á mocidade christã, que os dois cultos inimigos se fundiram no coração e na imaginação da humanidade. Sem darem por isso, os christãos receberam a influencia do paganismo expirante, por meio dos livros dos seus poetas sublimes e dos seus admiraveis prosadores.
Quem bebera com o leite as inspirações de Homero e de Virgilio; quem aprendera a bem pensar com Platão e a bem dizer com Cicero; quem recebera a magistral lição da Philosophia e do Direito antigo; quem formára o seu espirito por esses moldes incomparaveis, não podia mais esquecer o mel de tão doce eloquencia, a graça de tão perfeita poesia e a lição viril de tão alta sciencia philosophica!
S. Jeronymo, Santo Antonio, Santo Agostinho, os grandes doutores, os grandes luminares do christianismo, estão todos penetrados, até á medulla, d'essa influencia suprema e invencivel.
Foi, portanto, por meio da educação, que os dois elementos, o pagão e o christão, se fundiram harmoniosamente.
É de um interesse profundo o quadro que Gaston Boissier desenha d'essa educação romana, tão propria para formar chefes politicos e chefes militares incomparaveis. Mas no seculo IV da éra christã essa educação modificara-se muito, a ponto de já não parecer a mesma, nem ser capaz de produzir os mesmos fructos. Um romano de grande familia não conhecia, nos tempos aureos da vida d'esse imperio, senão dois officios: a guerra e a politica. Aprendia no campo a guerra; a politica aprendia-a, não, lendo Aristoteles ou Platão, mas assistindo diariamente ás sessões do Senado.
Esta educação pratica de uma efficacia admiravel fazia então os valentes capitães e os famosos dominadores politicos.
A Inglaterra contemporanea, de todos os paizes modernos o que mais se parece com a Antiga Roma imperial, tambem cultiva a força viril dos seus filhos nos mais variados sports que a desenvolvam; na natação, na nautica, nas corridas de cavallos, na lucta athletica, nos jogos da gymnastica moderna,—mais sabia, embora menos esthetica do que a antiga,—e tambem começa, de muito moços, a exercital-os na arte da palavra, na educação que forma os oradores, os debaters, os grandes parlamentares da eloquencia ou dos negocios.
Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, ha clubs especialmente destinados á discussão dos negocios publicos, onde se propõem e se debatem assumptos de interesse nacional e de politica geral.
Mais tarde, quando os professores gregos se estabeleceram em Roma, os grammaticos e os rhetoricos tomaram conta da mocidade, ou nas escolas publicas, ou no seio das grandes familias.