Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 25 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo III

 

 

O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.

«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que, deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias de outro mundo.

«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.

A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse pudor delicioso, esse não sei quê de velado, de requintado, de sobrio, a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos allemães.

«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço, para além da tumba, para além do inferno...»

Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a poesia das raças celticas são o segredo de mil particularidades d'aquella fina sensibilidade de artista.

O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.

A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de dilettante e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal democracia e de lucta pela vida phrenetica; a hereditariedade de uma mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle ter ouvido—nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,—contados com a mais graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha, isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho desmentido áquella poesia tecida em sonhos;— todos estes contrastes, todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.

Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado, levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.

Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario, quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso diletante que se comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um nome vão! glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que ha para o homem superior em morrer por uma idéa, necessariamente falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer doutrina; recommendando a moral como «a cousa por excellencia verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino; sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria, egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas, para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz Jerusalem!

Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em actos as suas theorias?...

Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava, mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação sombria,—seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!

Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia, cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!

Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça—esse dom feminino, que elle possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.

Como havia em Rénan de tudo,—e é este o seu caracteristico mais singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais reprehensivel da sua intelligencia—podia um admirador consciencioso e delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie de Imitação, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos tristes...

No prefacio dos seus Estudos de Historia religiosa, diz Renan pouco mais ou menos isto mesmo.

Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de livro d'horas, para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.

Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a liberdade que amplamente gozou; d'esse dilettante, d'esse mystico que desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica; d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim dizer concreto e material...