Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 12 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo XI

É a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e inviolados, a que pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o tempo, contra a fortuna, contra tudo...

A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de Poitiers? Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil illusões de que a vida se faz e se compõe, só ella é mais intensa do que a realidade, e mais verdadeira do que a verdade!

 

XI

 

Uma das excursões feitas por mim com mais prazer é a dos Museus, tanto artisticos como historicos.

Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do Louvre ou do Museu de Madrid e vou falar agora da minha visita ao museu Carnavalet. O palacio em que este museu está estabelecido pertenceu a Madame de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui a quantidade de recordações d'esta mulher encantadora, que o povoam e para mim o tornam particularmente interessante.

Ha logo á entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em contemplação de uma das physionomias mais espirituosas e mais sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.

O nez carré de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, lá está, mas sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expressão. Os lindos cabellos penteados ao nome d'ella, (porque aquelle penteado de caracoes que enquadra tão graciosamente o rosto feminil ficou sendo chamado á Sevigné) dão um caracteristico especial á sua bella cabeça de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graça gauleza sorriem na bocca espirituosa e finamente recortada.

A gente não se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o original inspirasse verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos sessenta annos houvesse, não quem a requestasse á moda de Ninon ou de Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque de Luynes, que por signal foi repellido.

Para mim, digo francamente, o Museu Carnavalet é Madame de Sevigné e não é mais nada. Este museu, extravagante contraste! está cheio de recordações revolucionarias. Lá está uma reducção feita, creio que em pedra, da Bastilha, lá está uma galeria, por signal detestavel, de retratos dos vultos principaes da revolução.

Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre e Marat, está a cadeira em que expirou Voltaire. A collocação pareceria propositadamente feita, senão fosse antes uma necessidade de symetria, pois que, encostada á mesma parede na outra extremidade da sala, está tambem a cadeira em que expirou Béranger.

Entre Voltaire e os homens da Revolução a affinidade é vizivel para o espirito, mas o pobre Béranger é que não vem aqui ao caso para cousa alguma, de modo que a intenção philosophica que eu á primeira vista attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda idéa que elles tiveram de collocar a cadeira de Béranger em symetria com a de Voltaire.

Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é que em França quem sahe do vulgar morre de cadeira. Incommodissima maneira de dar a alma ao Creador! Ainda bem que nem a Béranger posso aspirar, quanto mais a Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me á sorte commum de todos os mortaes.

Não venho, já se vê, fazer uma descripção miuda do Museu Carnavalet. Além de não ter fixado tanta cousa que vi—e que vai desde os troços de ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavações recentes ou antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos, pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, até a centenas de reliquias da Revolução—não acho que isso seja sufficientemente interessante para o leitor, a quem não posso communicar impressões que não recebi.

Ha, por exemplo, no Museu uma collecção enorme de caricaturas da época de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo que teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio dos pés até á cabeça, alli está representado sob uma fórma que produz cauchemar, á força de irritantemente feia.

Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem—a ultima que elle assignou como rei—encerra nada menos que a sua abdicação e a sentença da sua morte e dos seus.

Acabada a resistencia, o monstro jacobino pôde refocilar-se á vontade no sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao direito da sua vingança secular.

Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idéas me produziria a maior impressão, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.

 

Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao tempo de febre de que elles são as reliquias, por assim dizer, mumificadas!... É preciso, para que certas recordações do passado nos «empolguem», se apossem ardentemente de nós, que as evoque a imaginação omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo, em vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a que se referem, parece que o recuam indefinidamente nos limbos do passado.

Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; não os conserva.

Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio á morte, concorre para tornar mais saliente a idéa da morte, assim tambem o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a realidade no passado. É possivel que eu exprima muito vagamente uma cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta mesma desconsolação, comprehende perfeitamente o que ella significa!

Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma, evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animação e vida.

Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que tão bem se sahiu da educação da sua querida e intelligente pupilla.

Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que á moda do tempo, Ménage e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado á amavel e gentil Maria. Ménage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que é peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, já se vê, o tempo e o feitio que não era de amoroso, como egualmente o perdeu um homem que é o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o donjuanesco Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevigné, a odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito, encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com vinte e dois annos, e em uma côrte licenciosa, em que ella propria se mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios—tudo passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.

Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixões que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado romance.

Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos de sahir levemente compromettida do processo do Intendente de finanças, em cujo cofre de galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas são simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e se provam alguma cousa é a bondade, a generosidade do seu coração prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses bilhetes formalistas é porque talvez no coração do galante financeiro a formosa physionomia de madame de Sevigné tivesse produzido uma impressão excepcional; mas isso não basta para comprometter uma mulher que as primeiras pessoas da côrte, em influencia e em virtude, protegem ardente e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevigné soffre a mais leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que inspira a sua «razoavel» e formosa pessoa!