Pelo Mundo Fora
Capítulo XII
O conde de Ludre esteve vae não vae a vencer as resistencias mysteriosas d'aquelle coração de mulher que a precoce experiencia da vida endurecêra para o amor.
Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e claras, que é em certas mulheres um preservativo efficaz contra os desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor materno, salvam-n'a d'essa tentação suprema, como a salvam do prestigioso amor de Turenne, da côrte persistente do principe de Conti, do amor claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, entre os mais queridos e os mais felizes em aventuras femininas.
No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma, gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma confidencia escabrosa, comtanto que lh'a façam com espirito e bom humor; indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como ninguem, o preço da virtude.
XII
Insensibilidade? Não de certo. Amor bem entendido de mãe, e medo talvez de soffrer mais do que soffrera já na sua curta experiencia da vida conjugal, a que um duello infeliz—e por causa de uma mulher— tinha dado fim.
Quem soube no amor maternal pôr tantos requintes de sensibilidade, tão intensa paixão, tanta vida, tanta abnegação, tão louco enthusiasmo, o que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos são quasi naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade. Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz, amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixão tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos á Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres Ménage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da sua alma exigente, ambiciosa.
Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer até mesmo um espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de attenção e de estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexões.
Em cima Luiz XIV—o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adoração, de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que a posteridade continuaria a vêl-o, se o desastre final de sua obra lhe não désse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon não tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse idolo com pés de barro; —Luiz XIV que o amor divino e divinamente desinteressado da La Vallière envolvera em uma nuvem de olympico prestigio. Abaixo d'elle,—tudo n'esse tempo ficava muito abaixo d'elle—essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial, que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a vida cheia de graça, de encanto aristocratico e talvez de amor, transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e deslumbrador.
O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa côrte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.
A guerra já se vê, não como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleão, mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada festiva...
Mademoiselle, a grande Mademoiselle, apaixonada por Lauzun chorava todas as lagrimas de seu corpo porque lhe não deixavam desposar o eleito do seu coração; a epopéa gentil das Longueville, das Chevreuses, das lindas e intrepidas heroinas da Fronda, andava ainda em todas as memorias e em todas as imaginações. Hoje era Luiza de la Vallière a mais doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir humildemente perdão á sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da ceremonia da sua consagração a Deus um d'estes acontecimentos palpitantes com que vibra uma geração inteira; amanhã é Montespan, a altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da côrte em comptes rendu mais ou menos pittorescos, mais ou menos eloquentes...
Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica entre Fénélon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a publicação dos Caracteres de La Bruyère; as Maximas do Duque de Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermão do Pére Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os incidentes mais comicos e os mais tragicos—tudo se succede, tudo se entrelaça, fazendo da existencia um espectaculo tão alegre, tão variado, tão divertido, tão interessante, tão atordoador, que facil foi a Madame de Sévigné resignar-se a não pôr na sua propria vida interesses dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profusão.
Basta a curiosidade para encher a existencia, disse algures Fontenelle. Esta maxima de egoista acha-se justificada pensando na vida de madame de Sévigné.
Onde ha espirito mais eminentemente curioso no sentido elevado e espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade femenina?
Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixões humanas e achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observações que mais a divertem.
A côrte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado sobre ella o véo de hypocrita devoção em que tão cautelosamente se embrulhára, é tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um observador, um moralista como Madame de Sévigné.
Moi qui aime tant à faire des reflexions, esta phrase vem mil vezes nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante para reflexões não é essa côrte, onde tudo que as paixões humanas têem de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas fórmas mais pomposas...
O amor sem outra lei que não seja a inconstancia e o capricho; a ambição sem outra restricção e outro limite que não sejam os que fatalmente lhe impõe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada, o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberrações inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais abjectos do servilismo—e todos estes diversos sentimentos, uns simples, outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado, individualidade inconfundivel, energia pessoal.
Póde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplação que sem talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?
Não é, porém, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das paixões pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, uma aptidão para se interessar pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.
Quando a vida em Paris a cança, quando a sociedade habitual do seu salão começa a enfastial-a um pouco, quando as graças de monsieur de Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual é tão extraordinariamente serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de Les d'Haquevilles) lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o meio habitual em que ella se move tem perdido, pela continuação, um pouco do seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e das quaes é o querido adorno mais precioso e raro, não offerecem assumpto nenhum que a satisfaça, quando a côrte está em uma phase de semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte para Livry, ou para os Rochers, e ahi na paz deliciosa do campo, que ella e La Fontaine são no seculo XVII os unicos a sentir, passeia sósinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e la fauvette, saboreia a graça primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine, La Fontaine, até Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e até o ensinou á filha.
O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevigné, o seu amor pela filha, é a maior prova de quanto póde a illusão sobre um cerebro, sobre um coração de mulher! Mme. de Grignan, la plus belle fille de France, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante attenção lisongear o coração da mãe, não é realmente digna por motivo nenhum da adoração que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa, gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa mãe adoravel cujo crime unico foi preferil-a em tudo ao irmão, Carlos de Sevigné, tão sympathico quanto ella é antipathica, tão dedicado quanto ella é egoista, tão apaixonado pelas graças, virtudes e encantos da mãe, quanto ella parece ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade, com uma frescura, um pittoresco, uma animação que jámais serão excedidos.
No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer infinito em evocar estas visões do passado, e muitas outras que não podem caber no limitado espaço d'estas notas, o guia que não sei porque tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si para si que nós eramos dignos de ser apresentados ao conservador do museu, Monsieur Cousin, que não sei se é parente do celebrado philosopho do eclectismo.
Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala, furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?
Com madame de Grignan! Não madame de Grignan em carne e osso, que isso não seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino que a convivencia de la plus belle fille de France não era tão agradavel que a propria mãe, idolatra como era, não preferisse viverem em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores como uma verdadeira madame Pimbêche que era.
Não, a maneira por que madame de Grignan se achava representada n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima. Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara, penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras flôres de romeira e de flôres brancas de laranjeira.
No peito, completamente decotado, um ramo viçoso das mesmas flôres.
—Flôres de Provença, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de Chevreuse!
—Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vêl-as tivera tanta saudade do meu pequeno paiz longinquo.
Se a minha antipathia a Mme. de Grignan não fosse fundada e irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a representa verdadeiramente formosa, e o que é mais, seductora! retrato que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior dos grandes mestres.
Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, assim a vê em pensamento e feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e que a não deixa avistar se não a raros profanos!
O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia das cousas grandes ou pequenas!