Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 21 de 32

Páginas do PDF

Pelo Mundo Fora

Anatole France

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, não podemos pois achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.

 

Anatole France

 

I

 

Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que é francez e moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispõe de mais

liberdade moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre?

Anatole France é, como Renan, um charmeur, mas é mais do que elle—um voluptuoso.

A sua philosophia, mais Renanesca do que Hegeliana, move-se phantasiosamente em um universo de illusões.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginação, reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edições se multiplicam com espantosa rapidez—apezar d'elle o ter no pensamento dedicado aos delicados, aos happy few de que fala desdenhosamente Stendhal—chama-se Thaïs.

Thaïs é uma lenda dourada dos primeiros seculos christãos, que entre parenthesis estão sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos duros cilicios, curtida pelos sóes causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes areaes—e Thaïs, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as duas, em que esplendidamente se encarnára para enlouquecer e perder os homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplação e no ascetismo. Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, bellos como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para morada o deserto —e tentavam em vão os santos ascetas.

Quando elles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas na movediça areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os maravilhosos combates do inferno e do céu.

Mas tão profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao seu poder as proprias féras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das suas visões, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixões humanas travavam com a perfeição ideal, todo este symbolismo humano e comprehensivel está traçado com mão de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um primitivo, tanto é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel simplicidade.

Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fôra por elles instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle tivera de partir, para chegar á perfeição santissima da sua vida de anachoreta christão.

Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa actriz chamada Thaïs.

Tão bella como a mais bella das suas visões esplendidas do Paraizo e condemnada á eternidade das penas, á perdição infernal, á ignorancia absoluta do bem!...

Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e não a salvar, não tentar salval-a ao menos!...

Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura lei.

Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thaïs fazia as delicias e a admiração do povo, e vae arrancar ao inferno a sua presa deslumbrante.

É necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio não começára a premeditar esta santa empreza, já os demonios que em figuras de chacaes costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim procederem?...

A graça ironica, a commoção subtil com que estes quadros são traçados, podem ser indicados pelo commentador, mas não podem ser fielmente traduzidos por elle.

Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a dominar as indominaveis, as omnipotentes paixões humanas, e se considera com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a vasta natureza cheia de graças e de assombros.

As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as figueiras que elle trata dão grandes figos cheios de nectar cuja contemplação é para elle um regalo innocente.

Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de tanto zêlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados até d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.

Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma attender; isto, seja dito de passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus inopportunos familiares.

Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão sómente de um longo cilicio, ei-lo que se dirige para o Nilo—no designio de seguir a pé a margem lybica até á cidade fundada por Alexandre.

Que deliciosa a narração d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de nós como uma evocação de magia!

Nem a traducção litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico, emballador, quasi morbido, de requintado que é, d'este estylo em que as palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave, e subtil, e suggestiva das musicas.

E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanças a brincar na soleira das portas, mulheres paradas á beira das cisternas, sorrindo cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a Samaritana já sorrira.

Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flôr, o sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do divino mysterio das cousas...

Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita bhuddico, todo nú, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu nihilismo absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda que lhe abrazava o coração.

A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o ibis mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo pescoço côr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem argentea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos cannaviaes da margem escutava-se o grito de outras aves aquaticas.