Pelo Mundo Fora

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 24 de 32

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Pelo Mundo Fora

Capítulo II

 

Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero imprescindivel em quem, com acerto e justiça, quizer falar d'elle, não o tinham, estranho é dizel-o, senão com rarissimas excepções, os que em França, no jornalismo, commemoraram

luctuosamente o passamento de Renan. A accusação que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça incomparavel Julio Lemaître no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no Jornal dos Debates. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario.

E além das monographias scientificas e dos estudos especiaes que publicára nas Revistas e nos Jornaes de Sciencias, além da Historia das Origens do Christianismo, que vae de Jesus a Marco Aurelio, e que se compõe de sete grossos volumes, além da Historia do Povo de Israel de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle passou as horas que não consagrava á sua principal tarefa, a escrever toda a especie de artigos litterarios: ensaios criticos; dialogos philosophicos á maneira de Platão, como os que publicou em volume com o titulo que acima démos; comedias e dramas á moda e na tradição de Shakespeare como o Prêtre de Nemi, L'eau de Jouvence, Caliban, etc. etc.; cartas que são celebres como aquella escripta à un ami d'Allemagne, e outra a Mr. Berthelot; fragmentos de historia religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a Francisco d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet e de Renan, etc. etc.

As mil faces do talento de Renan só as conhece o que leu essa obra vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para a saber apreciar devidamente, é comtudo, necessario mais do que havel-a lido, porque então, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se recusa a tão elevada empreza.

Uma das accusações feitas a Renan, até pelos seus criticos mais benevolos, é a de contradictorio e a de incoherente.

Baptisáram de renanismo uma certa qualidade requintada e subtil de duvida amavel, que acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma cousa de verdadeiro e muito de falso, que se balouça voluptuosamente entre doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil fórmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e indiscutida um fundo de inanidade e de illusão, que ante a Natureza,—Isis de mil faces,—se limita a comprehender e acceitar as contradicções do Universo, explicando-as se póde, e admittindo a legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.

Ora esse modo de ser intellectual é tanto da nossa época, que Renan, professando-o, não fez mais do que representar em uma condensação superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.

Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisação em que estes caracteres da intelligencia são justamente os que assignalam o homem superior, o artista consciente, o representative man de uma phase do pensamento humano.

De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de Renan, é-lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os

tempos. Shakespeare, que foi tambem um dilectando genial não dizia já que o homem è talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos?

A interpretação dos phenomenos visiveis do mundo é feita por esses espiritos, não de um modo racionalista e logico, mas consoante a fugitiva inspiração do momento que passa.

A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro, em que elles gostam de debruçar-se, ora trementes de pavor, ora gelados pela duvida...

Mas a justiça, que nem sempre fazem a Renan e que é necessaria fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traços por assim dizer exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.

Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual não negou nunca a existencia necessaria, embora lhe contestasse ás vezes nos caprichos da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as compensações interesseiras; essa cousa é a moral!

«A moral é a cousa séria e verdadeira por excellencia; basta ella para dar um sentido e um fim á vida humana, diz elle no prologo dos seus Ensaios de Moral e de Critica.

«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja realidade se impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a sciencia procuram eternamente, sem jámais a encontrarem, a fórmula d'esse Proteu que a razão não limita e que a

linguagem não exprime. Mas ha uma base indubitavel que o scepticismo por mais completo não póde abalar, onde o homem achará até ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as incertezas; o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar um e amar outro, não é necessario qualquer systema, e é n'este sentido que a fé e o amor, que na apparencia não têem ligação alguma com a intelligencia, são o verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu destino.»

Por estas palavras sinceras e que Renan honrou tão nobremente, em uma longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho incessante, á desinteressada investigação da verdade, ás

sondagens tão difficeis da Historia,—por estas palavras se percebe bem claro, que o renanismo não significa indifferença moral, mas sim benevola sympathia por ideaes diversos, contemplação amorosa dos phenomenos que se succedem em perpetua fluidez, em perpetua transformação, embevecimento perante as mil fórmas alliciadoras com que a eterna illusão nos tenta, nos seduz, nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...

A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de contrastes, de aspectos e de nuances que n'ella se conciliam e n'ella se contém. Os contrastes de um caracter são o sêllo da sua individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de idéas cabendo em uma intelligencia dão a medida do seu grande valor.

As contradições que desnorteiam uma logica vulgar, não assustam por exemplo o pensamento allemão de uma tão extraordinaria complexidade. A concepção, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, além da influencia da Biblia, tão accentuada no seu modo dizer e de sentir, além da influencia grega tão esplendidamente demonstrada na oração sobre a acropole, que vem inserta nos adoraveis Souvenirs de jeunesse, actuou de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.

Na sua moral Renan obedece á inspiração de Kant, na sua concepção do Universo, Renan é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase caracteristica:

«Deus é immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o compõem. Não se reconhece, porém, egualmente em todos. Reconhece-se mais na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais em Christo que em Buddha.»

Eis o resumo de toda a theologia hegelina e renanesca.

Se accrescentarmos a isto a affirmação de que nenhuma vontade particular se tem manifestado até hoje, nem poderá jámais manifestar-se na evolução do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle nega a existencia pessoal, está por assim dizer em formação no tempo e no espaço, á proporção que o mundo vai attingindo a consciencia sempre mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem um fim idéal, aspira a um divino objectivo e não é nem póde ser a resultante de uma agitação inane, inutil e vã; que a razão, reinando mais e mais sobre a humanidade, acabará por crear Deus, creando o bem absoluto, e a divina harmonia das cousas;—nós teremos completado a philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada collaboram para a formação definitiva d'esse Deus, que está em via de apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da consciencia...

Esta philosophia reveste-se porém, das mais deliciosas fórmas, ella tem para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento incomparavel, de uma graça que nenhum artista ainda egualou.

Esse instrumento, que é a prosa de Renan, é que o torna principalmente querido entre os que lêem...

A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doçura estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.