Revisão Sistemática da Literatura em Engenharia de Software: Teoria e Prática
Questão 3: Qual é o objetivo e itens relacionados com a seção ?
Questão 3: Qual é o objetivo e itens relacionados
com a seção Questões de pesquisa?
O objetivo da seção Questões de pesquisa é descrever as questões referentes ao tópico de pesquisa abordado, que devem ser respondidas. Essas questões podem ser primárias ou secundárias. A primária corresponde, na sua essência, ao objetivo descrito na seção Informações Gerais, mas redigido no formato interrogativo, caracterizando o tópico de pesquisa que está sendo investigado. Esta pode ter uma ou mais questões secundárias que, no caso de existirem, devem ressaltar particularidades do tópico investigado.
As questões de pesquisa guiam toda a condução da revisão e, por isso, sua elaboração é considerada a
parte mais importante de qualquer RS (KITCHENHAM & CHARTERS, 2007). É com base nas questões de pesquisa que a atividade de busca e seleção de estudos primários deve ser realizada, ou seja, as questões auxiliam na identificação dos estudos primários que devem ser considerados relevantes (estudos aceitos) para aquela RS, uma vez que o objetivo é respondê-las da forma mais completa possível. A atividade de extração de dados dos estudos considerados relevantes também deve ser totalmente orientada pelas questões de pesquisa, pois é importante que se extraiam todos os dados para que as questões possam ser respondidas adequadamente. As questões de pesquisa também influenciam diretamente a atividade de análise e sumarização dos dados extraídos dos estudos, uma vez que eles precisam ser sintetizados de forma que as questões possam ser respondidas pelos pesquisadores. Assim, para o sucesso de uma RS, é vital que as questões de pesquisas sejam elaboradas corretamente.
Uma questão de pesquisa pode ser estruturada seguindo o conjunto de critérios PICO, derivados da
Medicina (PAI et al., 2004): P (população, paciente ou problema), I (intervenção), C (comparação, controle ou comparador) e O (resultados, do termo em inglês outcomes). Na Medicina, uma questão de pesquisa clínica é considerada adequada se pode ser estruturada em:
• População, ou seja, as pessoas ou pacientes afetados pelas intervenções, descrevendo as
características mais importantes dos pacientes, o principal problema, doença ou suas condições. Em
muitos casos, o sexo, idade ou raça de um paciente pode ser relevante para o diagnóstico ou
tratamento de uma doença.
• Intervenção, que normalmente é uma comparação entre tratamentos alternativos. Pode indicar qual
fator prognóstico ou a exposição que é considerada, o que se pretende fazer para o paciente
(prescrever uma droga, pedir um teste, marcar uma cirurgia etc).
• Comparação ou controle, que procura mencionar as principais alternativas para comparar com a
intervenção, como, por exemplo, se está tentando se decidir entre duas drogas, uma droga
(intervenção) e nenhuma medicação ou placebo (comparação). Em alguns casos, esse critério pode
ser omitido, pois nem sempre precisa haver uma comparação específica em questões clínicas.
• Resultados, que procuram listar o que se pretende realizar, medir, melhorar ou afetar em relação à
população (aliviar ou eliminar os sintomas, reduzir o número de eventos adversos etc).
Pesquisadores da Universidade Médica Weill Cornell 1 exemplificaram o uso dos critérios PICO para
criar uma questão de pesquisa da área de Medicina. Com base nesses critérios, exibidos na Tabela 2.2, eles elaboraram a seguinte questão de pesquisa: Em pacientes idosos, os inibidores de ECA (Enzima Conversora da Angiotensina) são mais eficazes do que os betabloqueadores no controle da pressão arterial e na minimização dos efeitos adversos?
Tabela 2.2
Critérios PICO referentes a um exemplo da área médica
População/Pacientes Hipertensão arterial, idosos
Intervenção Betabloqueadores
Comparação Inibidores de ECA
Resultado Reduzir a pressão arterial, minimizar os efeitos adversos
O grande desafio, quando se trata de outra área que não a Medicina, é adaptar o conjunto de critérios PICO. Para a área de ES, duas propostas de adaptações existentes na literatura são apresentadas a seguir
da seguinte forma: K (Kitchenham e Charters, 2007) e B (Biolchini et al., 2005):
• População:
• (K): um papel específico da ES (por exemplo, testador, gerente); uma categoria específica de
engenheiro de software (por exemplo, novato, experiente); uma área de aplicação (por exemplo, sistemas de TI, sistemas de controle); um grupo da indústria (por exemplo, companhia de telecomunicação, pequena empresa);
• (B): grupo da população que será observado pela intervenção (por exemplo, publicações que tratam
do assunto investigado).
• Intervenção:
• (K): método, procedimento, tecnologia ou ferramenta que serão investigados; • (B): aquilo que será investigado.
• Comparação ou controle:
• (K): método, procedimento, tecnologia ou ferramenta com a qual a intervenção deve ser comparada; • (B): parâmetro de referência ou um conjunto de dados iniciais que o pesquisador já possua.
• Resultados:
• (K): os resultados estão relacionados com os fatores considerados importantes para caracterizar o
que está sendo investigado e que são de interesse àqueles que farão uso da RS;
• (B): correspondem ao campo Efeito, no qual se relatam os tipos de resultados esperados ao final da
RS.
Em seguida, apresentam-se dois exemplos de uso do PICO para a estruturação de questões de pesquisa
no contexto da ES. O primeiro exemplo é de um trabalho de Biolchini et al. (2005), cuja questão de pesquisa é: Quais iniciativas têm sido propostas para avaliar a descrição de processos no contexto de
ES? Na Tabela 2.3 essa questão é estruturada segundo o conjunto de critérios PICO.
Tabela 2.3
Critérios PICO na área de ES - descrição de processos
População Publicações relacionadas com a definição e revisão de processos de software
Intervenção Avaliação de descrição de processos de software
Comparação Não se aplica
Resultado Identificação de iniciativas relacionadas com a revisão e verificação
Outro exemplo de uso do PICO pode ser encontrado no trabalho de Oliveira et al. (2012), que criaram as seguintes questões de pesquisa:
• QP1: Como a orientação a serviços (SOA) tem sido aplicada no desenvolvimento de sistemas
robóticos?
• QP2: Qual a forma mais comum de interação entre sistemas robóticos orientados a serviço?
• QP3: Qual tecnologia de implementação tem sido a mais usada para desenvolver sistemas
robóticos orientados a serviço?
• QP4: Quais são os ambientes de desenvolvimento e as ferramentas que dão suporte ao
desenvolvimento de sistemas robóticos orientados a serviço?
• QP5: Arquitetura Orientada a Serviços é aplicável a qualquer tipo de robô?
• QP6: Como a engenharia de software tem sido aplicada no desenvolvimento de sistemas robóticos
orientados a serviço?
Na Tabela 2.4 essas questões são estruturadas segundo o conjunto de critérios PICO.
Tabela 2.4
Critérios PICO na área de ES - orientação a serviço e sistemas robóticos
População Pesquisadores e desenvolvedores de sistemas robóticos que usam ou estão interessados no uso de SOA como base para o projeto de seus
sistemas
Intervenção Sistemas robóticos orientados a serviço, seus projetos e os métodos usados em seu desenvolvimento
Comparação Não se aplica
Resultado Visão geral dos estudos propostos na literatura que reportam o uso de SOA, os domínios para os quais os robôs foram construídos, e as
estratégias, métodos e tecnologias que deram suporte ao seu desenvolvimento
Como mencionado anteriormente, adaptar o conjunto de critérios PICO para a ES não é uma tarefa
trivial. Observe que, no nosso primeiro exemplo (BIOLCHINI et al., 2005), a População foi definida como sendo as publicações relacionadas com a temática da RS, publicações relacionadas com a definição e revisão de processos de software. Logo, os autores consideraram a População como sendo o
grupo que será observado pela intervenção. Já no segundo exemplo (OLIVEIRA et al., 2012), a População foi definida como sendo o público alvo interessado nos resultados da RS. No entanto, se
considerarmos a definição de Biolchini et al. (2005), a população do trabalho de Oliveira et al. poderia ser definida como os estudos disponíveis na literatura sobre SOA, que é o tema investigado por essa RS. Diferentemente da ES, na Medicina, derivar os critérios PICO é muito mais intuitivo, pois a População está diretamente relacionada com pessoas, que são os pacientes observados em um estudo.
Em resumo, as questões de pesquisa devem ser cuidadosamente formuladas, pois elas vão direcionar
todas as outras atividades da RS, sendo consenso na literatura. Dybå, Dingsøyr e Hanssen (2007) salientam que é a partir das questões de pesquisa que são derivadas as palavras-chave utilizadas na
busca dos estudos. Brereton et al. (2007) salientam que as questões de pesquisa são o ponto mais crítico da RS, pois é a partir delas que são construídas as strings de busca e que é direcionada à atividade de extração de dados. Além disso, esses autores consideram que as questões de pesquisa não devem ser alteradas após a avaliação do protocolo. Em decorrência disso, eles sugerem que seja feito um teste piloto para refinamento do protocolo, em especial para que as questões de pesquisa caracterizem
adequadamente o objetivo da RS. Segundo Staples e Niazi (2007), como essas questões direcionam toda RS, é importante que estejam precisamente definidas, pois isso trará impacto direto no esforço e duração da RS.
Para avaliar se uma questão de pesquisa está correta, Kitchenham e Charters (2007) sugerem as
seguintes verificações:
• Se a questão elaborada é significativa tanto para quem atua diretamente com o tópico da pesquisa
quanto para os pesquisadores da área, ou seja, se ela reflete tanto os anseios de quem atua quanto de
quem pesquisa sobre o tópico abordado.
• Se a questão de pesquisa elaborada acarreta em mudanças nas práticas existentes na área do tópico de
pesquisa ou se contribui para aumentar a confiança nas práticas atuais da área no que se refere ao tópico de pesquisa.
• Se a questão de pesquisa elaborada auxilia na identificação de discrepâncias entre o que se
acredita/espera sobre o tópico de pesquisa e o que realmente ocorre na prática, ou seja, confrontar a expectativa com a realidade.
• Como pode haver questões de pesquisa que são apenas de interesse acadêmico, ou seja, de
pesquisadores pertencentes às instituições de ensino, espera-se que essas questões de pesquisa auxiliem na identificação de lacunas que levem a atividades de pesquisa complementares.
• Para auxiliar na elaboração das questões, Staples e Niazi (2007) recomendam limitar o escopo da RS
por meio de questões de pesquisa estruturadas de maneira clara e objetiva. Uma das formas de se fazer isso é aplicar o conjunto de critérios PICO.