Revisão Sistemática da Literatura em Engenharia de Software: Teoria e Prática

Questão 1: O que é uma RS?

A Engenharia de Software Baseada em Evidência (ESBE) foi proposta como um meio de aperfeiçoar a tomada de decisões relativas ao desenvolvimento e manutenção de software, por meio da integração de evidências de pesquisa com experiências práticas e valores humanos. O objetivo principal da ESBE é diminuir a lacuna existente entre a pesquisa e a prática na Engenharia de Software (ES) e, para tal, disponibiliza meios para construir um corpo de conhecimento sobre quando, como e quais processos,

tecnologias, ferramentas, entre outros, são adequados para serem utilizados na ES (KITCHENHAM

et al., 2004; DYBÅ, 2005; BASILI et al., 2007). Nesse contexto, a Revisão Sistemática da Literatura (RSL), ou simplesmente Revisão Sistemática (RS), é um dos principais meios para sumarizar evidências

de pesquisa (KITCHENHAM et al., 2009). A RS tem se tornado cada vez mais popular, conforme pode

ser constatado em trabalhos como Kitchenham et al. (2009) e Silva et al. (2011).

A RS tem como objetivo identificar, selecionar, avaliar, interpretar e sumarizar estudos disponíveis

considerados relevantes para um tópico de pesquisa ou fenômeno de interesse (KITCHENHAM et al.,

2004; BIOLCHINI et al., 2005). Os estudos individuais que contribuem para uma RS são chamados de

estudos primários, enquanto a RS em si é considerada um estudo secundário (KITCHENHAM &

CHARTERS, 2007). Na mesma linha que as RSs, os Mapeamentos Sistemáticos (MSs) também são estudos secundários e, nesse caso, eles têm como objetivo identificar e classificar os estudos primários relacionados com um tópico de pesquisa, sendo, então, uma revisão mais ampla das evidências

disponíveis de um dado tópico. No Capítulo 6, são apresentados mais detalhes sobre o MS.

De um modo geral, na área de ES, os estudos primários visam propor novas soluções e tecnologias (incluindo, por exemplo, os processos, métodos, técnicas e abordagens) e/ou então caracterizar uma determinada solução ou tecnologia em uso dentro de um contexto específico. Nesse último caso,

encontram-se os estudos primários que apresentam experimentos, estudos de caso e surveys (WOHLIN et

al., 2012). Por outro lado, um estudo secundário analisa os estudos primários com o objetivo de sintetizar

as evidências relacionadas com um tópico de pesquisa. De acordo com Brereton et al. (2007), a sumarização dos resultados dos estudos primários por meio de estudos secundários é um mecanismo de pesquisa valioso por prover conhecimento de um dado tópico e apoiar na identificação de temas para pesquisa futura.

A RS é conduzida por meio de um processo composto por uma sequência de fases bem definidas. Para mais detalhes sobre o processo de RS, leia a Questão 3 deste capítulo. A RS apresenta uma avaliação considerada justa sobre um tópico de pesquisa, uma vez que utiliza uma forma de revisão rigorosa, confiável e passível de auditoria (BRERETON et al., 2004). Além disso, uma RS baseia-se em um

protocolo previamente definido (BIOLCHINI et al., 2005), ou seja, um documento que formaliza a execução da RS desde a definição das questões de pesquisa, passando pela estratégia de busca até o relatório final. O protocolo tem como objetivo reduzir a possibilidade da ocorrência de vieses

(KITCHENHAM et al., 2004). As fases do processo de RS devem ser explicitamente definidas no protocolo, assim como os critérios e estratégias de seleção, extração e sumarização dos dados, para que

outros pesquisadores possam reproduzir a RS adotando os mesmos critérios e estratégias (BIOLCHINI et

al., 2005). Para mais detalhes sobre o protocolo da RS, leia o Capítulo 2.

Por outro lado, a realização de uma revisão de forma não sistemática (ou seja, revisão informal da literatura ou revisão tradicional da literatura) está sujeita a vieses de investigação, tais como na formulação das questões de pesquisa, coleta, avaliação, interpretação e apresentação dos dados, que podem ser influenciados por interesses pessoais dos pesquisadores envolvidos, levando, por fim, a

resultados pouco confiáveis (BIOLCHINI et al., 2005; MAFRA & TRAVASSOS, 2006). As revisões informais da literatura, que são conduzidas sem um planejamento estabelecido a priori, caracterizam-se por serem pouco abrangentes, não passíveis de repetição, pouco confiáveis e com a qualidade

dependente da experiência dos pesquisadores (MAFRA & TRAVASSOS, 2006).

Uma das razões pelas quais RSs têm sido conduzidas em ES é devido às suas vantagens quando

comparadas às revisões informais, o que inclui a redução de vieses nos resultados e a possibilidade de identificar e combinar as principais diferenças entre os dados dos vários estudos selecionados na revisão. Outra vantagem é a identificação de lacunas na pesquisa atual, o que pode sugerir novos temas de investigação e fornecer uma direção para posicionar adequadamente esses temas no contexto da

pesquisa existente (BIOLCHINI et al., 2005). Outros benefícios da RS são apresentados na Questão 6 deste capítulo.