Revisão Sistemática da Literatura em Engenharia de Software: Teoria e Prática

Prefácio

 

A busca pela evidência tem sido um desafio constante em Engenharia de Software. Ao longo dos últimos 30 anos, diferentes estratégias de observação têm sido aplicadas para apoiar a investigação de nosso objeto de estudo mais importante, o software. Bem verdade que ainda não conseguimos responder a várias perguntas básicas sobre ele, nem mesmo conseguimos responder de forma precisa o que ele é. Entretanto, temos evoluído nossas habilidades científicas e demonstrado nossa capacidade de investigação através da realização de vários estudos primários associados a diferentes problemas e fenômenos do software. Quanto resultado disponível! Quanta indecisão ainda há no campo! Quanta dificuldade para sua compreensão! Como descobrir o que existe? Como agregar esses resultados?

Estudos secundários intencionam apoiar a observação e agregação dos resultados dos estudos primários. A existência de diferentes resultados relacionados com problemas “em comum” justificam a elaboração de estudos desta natureza. Não tem muito tempo que iniciamos a execução de estudos secundários em Engenharia de Software. Por volta de 2003, Barbara Kitchenham, Emilia Mendes e eu iniciamos as discussões dos primeiros protocolos de revisão sistemática da literatura aplicados à Engenharia de Software. Outros pesquisadores, tais como Magne Jørgensen e Töre Dybå, também iniciavam discussões semelhantes. Estávamos bastante motivados pelos resultados que vinham sendo obtidos em outras áreas de ciência, tais como Medicina, e isso nos levava a trabalhar no sentido de buscar internalizar os conceitos deste tipo de estudo em Engenharia de Software. Quantos desafios! A falta de uma taxonomia consistente, uma agenda de pesquisa bem definida (parece que pouco mudou desde então...) e sistemas de buscas robustos faziam as revisões sistemáticas difíceis e de longa duração. Assim, a experiência em preparar e executar diferentes revisões sistemáticas aliadas às dificuldades naturais da área nos levou a buscar níveis intermediários de trabalho. Em algum momento do tempo, estruturas mais leves (tais como mapeamentos sistemáticos ou quasi revisões sistemáticas da literatura) passaram a ser utilizadas e a contribuir com a organização do conhecimento em Engenharia de Software. A realização desses estudos nos permitiu destacar a falta de evidência relacionada com as diferentes tecnologias de software! Quanto a desenvolver e evoluir!

Muito conhecimento metodológico relacionado com estudos secundários tem sido gerado, com o estabelecimento de práticas e novas estratégias de apoio. Percebe-se uma evolução natural dos sistemas de busca, mesmo que ainda sejamos deficitários em discussões relacionadas com a taxonomia em Engenharia de Software e não consigamos definir uma agenda de pesquisa comum que nos permita investir esforços combinados e com foco experimental bem definido. Entretanto, muito se aprendeu e se aprende. O engajamento dos pesquisadores em Engenharia de Software neste movimento foi de fundamental importância. Vários materiais foram produzidos ao longo deste período e apresentados como relatórios técnicos, artigos científicos, modelos ontológicos, algoritmos de busca, dentre outros. Porém, a diversidade deste material e suas mais diferentes estruturas de apresentação acabam dificultando o acesso aos conceitos básicos por aqueles interessados no aprendizado de revisões sistemáticas da literatura e suas derivações em Engenharia de Software.

O livro Revisão Sistemática da Literatura em Engenharia de Software: Teoria e Prática, organizado pelos pesquisadores Katia Romero Felizardo, Elisa Yumi Nakagawa, Sandra Camargo Pinto Ferraz Fabbri e Fabiano Cutigi Ferrari, representa um diferencial interessante nessa área. Ao reunir os conceitos básicos deste tipo de estudo de uma forma simples, rigorosa e didática, ele contribui para a disseminação deste conhecimento entre os pesquisadores de Engenharia de Software interessados nessa estratégia de investigação. A estrutura em capítulos autocontidos facilita a leitura e o aprendizado, e permite delinear corretamente os conceitos envolvidos com as revisões sistemáticas da literatura e sua utilização em prol do avanço da área.

Muito temos ainda a aprender e evoluir em Engenharia de Software. Porém, o conhecimento adquirido

até então pode e deve ser corretamente aplicado no sentido de alavancar nossa evolução. Por isso, materiais como este são importantes e trazem benefícios intangíveis para a nossa comunidade. Espero que a leitura seja proveitosa e o material contribua com a elaboração de seus estudos secundários! Parabéns aos organizadores e colaboradores! Boa Revisão Sistemática da Literatura!

Guilherme Horta Travassos

Pesquisador CNPq

Professor Titular de Engenharia de Software

Programa de Engenharia de Sistemas e Computação COPPE/UFRJ

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