Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 9 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 8

 

I

Uma semana depois, o trem das 17h30 entrou na estação de Warmsley Heath e dele desceu um homem alto e bronzeado com uma mochila.

Do outro lado da plataforma, um grupo de jogadores de golfe esperava o trem que partiria. O homem alto e barbudo levando a mochila entregou seu bilhete e saiu da estação. Ficou parado, indeciso, por uns minutos. Então viu a placa: Trilha para Warmsley Vale, e dirigiu seus passos para lá com vigorosa determinação.

 

II

Em Long Willows, Rowley Cloade tinha acabado de preparar uma xícara de chá quando uma sombra projetada sobre a mesa da cozinha fez com que ele erguesse os olhos.

Se por um instante ele pensou que a garota parada junto à porta de entrada fosse Lynn, o desapontamento transformou-se em surpresa quando viu que era Rosaleen Cloade.

Ela vestia um traje de camponesa feito de algum tecido rústico em listras largas e berrantes em cor de laranja e verde. A simplicidade artificial daquilo custava uma fortuna maior do que Rowley jamais teria imaginado ser possível.

Até então ele sempre a vira com roupas caras e de algum modo urbanas, que ela usava com um ar artificial, assim como uma manequim, pensou ele, exibiria vestidos que não lhe pertenciam, mas sim à firma que a empregara.

Nessa tarde, com as listras rústicas em cores vivas, ele pareceu ver uma nova Rosaleen Cloade. Sua origem irlandesa estava mais aparente, o cabelo encaracolado negro e os adoráveis olhos azuis com o halo esfumaçado. A voz também tinha um som irlandês mais suave, em vez das cuidadosas entonações bastante afetadas com que ela costumava falar.

– Está uma tarde adorável – disse ela. – Então saí para dar uma caminhada. E acrescentou: – David foi a Londres.

Disse isso de modo quase culpado, ficou vermelha e pegou uma cigarreira de dentro da bolsa. Ofereceu a Rowley, que sacudiu a cabeça e a seguir olhou ao redor em busca de um fósforo para acender o cigarro de Rosaleen. Mas ela estava acionando sem sucesso um pequeno isqueiro dourado de aspecto dispendioso. Rowley tirou-o da mão dela e acendeu-o com um único movimento incisivo. Quando Rosaleen baixou a cabeça na direção dele para acender o cigarro, ele percebeu o quanto seus cílios eram longos e negros, tocando nas maçãs do rosto, e pensou consigo mesmo: “O velho Gordon sabia o que estava fazendo...”

Rosaleen deu um passo para trás e disse, admirada:

– Você tem uma bezerra adorável no campo principal.

Pasmo com o interesse dela, Rowley começou a falar sobre a fazenda. O interesse de Rosaleen surpreendeu-o, mas obviamente era genuíno e não fingido, e para sua surpresa ele verificou que ela era bastante versada em assuntos de fazenda. Falou com familiaridade sobre fazer manteiga e produção leiteira.

– Nossa, você poderia ser esposa de um fazendeiro, Rosaleen – disse ele, sorrindo.

A animação sumiu do rosto dela.

– Tínhamos uma fazenda... na Irlanda... antes de eu vir para cá. Antes...

– Antes de você entrar para o teatro?

Ela disse tristonha e um pouco, pareceu a ele, culpada:

– Não faz muito tempo... Lembro muito bem de tudo.

E acrescentou com um lampejo de vivacidade:

– Eu poderia ordenhar suas vacas agora mesmo, Rowley.

Essa era uma Rosaleen inteiramente nova. Será que David Hunter aprovaria essas referências casuais a um passado na fazenda? Rowley achou que não. Família antiga e tradicional irlandesa, dona de terras, era essa a impressão que David tentava transmitir. A versão de Rosaleen, pensou ele, estava mais próxima da verdade. Vida primitiva na fazenda, depois o chamariz do teatro, a companhia itinerante para a África do Sul, o casamento. Isolamento na África Central. Fuga. Hiato. E finalmente o casamento com um milionário em Nova York...

Sim, Rosaleen Hunter tinha percorrido um longo caminho desde a ordenha de uma vaca Kerry. Contudo, olhando-a, Rowley achava difícil acreditar que ela sequer houvesse começado. Seu rosto tinha aquela expressão inocente, ligeiramente burra; era o rosto de alguém que não tinha história. E ela parecia tão jovem... muito mais jovem que seus 26 anos.

Havia algo de atraente; ela possuía a mesma qualidade patética que os pequenos novilhos que ele levara para o açougueiro naquela manhã. Ele olhou-a como havia olhado para eles. Pobres coitadinhos, ele tinha pensado, uma pena que tivessem de ser mortos...

Rosaleen fitou-o com olhar assustado. Perguntou, inquieta:

– No que você está pensando, Rowley?

– Você gostaria de dar uma olhada na fazenda e na leitaria?

– Claro que sim!

Entretido com o interesse dela, Rowley levou-a por toda a fazenda. Mas quando por fim sugeriu preparar-lhe uma xícara de chá, uma expressão assustada surgiu em seu olhos.

– Oh, não. Obrigada, Rowley. É melhor eu ir para casa. – Ela olhou o relógio. – Oh! Como está tarde! David estará de volta no trem das 17h30. Vai querer saber por onde eu ando. Eu... eu tenho que me apressar.

E acrescentou com timidez:

– Eu me diverti, Rowley.

E isso, ele pensou, era verdade. Ela tinha se divertido. Conseguiria ser natural, ser ela mesma, simples e sem artifícios. Ela temia o irmão, isso estava claro. David era o cérebro da família. Bem, dessa vez ela havia tido uma tarde de folga. Sim, era isso, uma tarde de folga, como uma criada! A rica sra. Gordon Cloade!

Ele sorriu com ar cruel, parado no portão observando-a apressar-se morro acima rumo a Furrowbank. Pouco antes de ela alcançar a cancela, um homem passou ali. Rowley indagou-se se era David, mas era um homem maior, mais pesado. Rosaleen recuou para deixá-lo passar, então pulou agilmente a cancela, o passo acentuando-se quase em uma corrida.

Sim, ela teve uma tarde de folga. E ele, Rowley, havia perdido mais de uma hora de tempo valioso! Bem, talvez não tivesse perdido. Rosaleen, pensou, pareceu gostar dele. Isso poderia vir a ser útil. Uma coisa linda... sim, e os novilhos daquela manhã eram lindos... pobres coitadinhos.

Parado ali, perdido em pensamentos, levou um susto ao ouvir uma voz e ergueu a cabeça de forma brusca.

Um homem grande com um chapéu largo de feltro e uma mochila atravessada nos ombros estava parado na trilha do outro lado do portão.

– É esse o caminho para Warmsley Vale?

Enquanto Rowley olhava fixamente, ele repetiu a pergunta. Com esforço, Rowley organizou as ideias e respondeu:

– Sim, siga pela trilha através do próximo campo. Vire à esquerda quando chegar à estrada e uns três minutos depois estará na aldeia.

Ele havia respondido essa pergunta específica muitas centenas de vezes com as mesmíssimas palavras. As pessoas pegavam a trilha ao deixar a estação, seguiam-na até o topo do morro e perdiam a fé quando desciam para o outro lado e não viam nem sinal do destino, pois Blackwell Copse escondia Warmsley Vale de vista. A aldeia ficava escondida em uma depressão com apenas a ponta da torre da igreja à mostra.

A pergunta seguinte não era tão usual, mas Rowley respondeu sem pensar muito.

– O Stag ou o Bells e Motley. O Stag de preferência. Ambos são igualmente bons... ou ruins. Acho que você vai conseguir um quarto imediatamente.

A pergunta o fez olhar com mais atenção para seu interlocutor. Hoje em dia as pessoas em geral reservam um quarto de antemão em qualquer lugar aonde vão...

O homem era alto, com o rosto bronzeado, barba e olhos muito azuis. Tinha uns quarenta anos e não era mal-encarado no estilo desordeiro ou até mesmo temerário. Mas também não tinha um rosto completamente agradável.

“Veio de algum lugar além-mar”, pensou Rowley. Havia ou não havia um leve tom fanhoso colonial em seu sotaque? Curioso, de algum modo, seu rosto não era estranho...

Onde ele tinha visto aquele rosto, ou um rosto muito parecido, antes?

Enquanto tentava sem sucesso decifrar aquele problema, o estranho assustou-o perguntando:

– Pode me dizer se há uma casa chamada Furrowbank aqui?

Rowley respondeu lentamente:

– Ora, sim. No alto do morro. Você deve ter passado perto dela... isto é, se veio pela trilha desde a estação.

– Sim, foi o que fiz – ele virou-se, fitando o alto do morro. – Então é aquela... aquela casa branca grande com aspecto de nova?

– Sim, aquela mesma.

– Um lugar grande para se cuidar – disse o homem. – Deve custar um bocado para ser mantida.

“Um tremendo bocado”, pensou Rowley. “E do nosso dinheiro...” Um assomo de raiva fez com que esquecesse por um momento onde estava...

Voltou a si com um sobressalto e viu o estranho vidrado no alto do morro com um curioso ar especulativo nos olhos.

– Quem vive lá? – perguntou. – É uma... sra. Cloade?

– Correto – disse Rowley. – Sra. Gordon Cloade.

O estranho ergueu as sobrancelhas. Pareceu levemente entretido.

– Ah – disse ele –, sra. Cloade. Muito bom para ela!

Então fez uma breve saudação com a cabeça.

– Obrigado, amigo – disse ele e, trocando de lado a mochila que carregava, marchou para Warmsley Vale.

Rowley voltou-se lentamente para o pátio da fazenda. Sua mente ainda matutava sobre uma coisa.

Onde diabos ele tinha visto aquele sujeito antes?

 

III

Por volta das nove e meia daquela noite, Rowley empurrou para o lado uma pilha de formulários espalhados em cima da mesa da cozinha e se levantou. Olhou distraidamente a foto de Lynn sobre o consolo da lareira e então saiu de casa carrancudo.

Dez minutos depois abriu a porta do Stag Saloon Bar. Beatrice Lippincott, atrás do balcão, sorriu dando-lhe boas-vindas. O sr. Rowley Cloade, pensou ela, era um belo exemplar de homem. Junto com um caneco de cerveja, Rowley manteve as conversas de sempre com os demais frequentadores, fez comentários desfavoráveis sobre o governo, o tempo e diversas lavouras específicas.

Pouco depois, aproximando-se um pouco, Rowley conseguiu dirigir-se a Beatrice em voz baixa:

– Há um forasteiro hospedado aqui? Homem grande? Chapéu de aba mole?

– Correto, sr. Rowley. Chegou por volta das seis horas. É a esse que se refere?

Rowley assentiu com a cabeça e disse:

– Passou pela minha casa. Perguntou o caminho para cá.

– Correto. Parece estrangeiro.

– Fiquei pensando – disse Rowley – quem seria.

Ele olhou para Beatrice e sorriu. Beatrice sorriu de volta.

– Isso é fácil, sr. Rowley, se desejar saber.

Ela sumiu por debaixo do bar e ressurgiu com um livro grosso de couro no qual eram registradas as entradas.

Abriu-o na página que exibia os registros mais recentes. No último deles constava o seguinte:

Enoch Arden. Cidade do Cabo. Britânico.