Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 30 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 12

 

Quando Poirot deixou a delegacia de polícia, foi abordado quase no mesmo instante por tia Kathie. Ela tinha várias sacolas de compras e veio até ele com uma atitude ansiosa esbaforida.

– Que terrível o pobre major Porter – disse ela. – Não posso deixar de achar que a visão de vida dele deve ter sido muito materialista. Vida militar, o senhor sabe. Muito limitadora e, embora ele tenha passado boa parte da vida na Índia, temo que jamais tenha aproveitado as oportunidades espirituais. Deve ter sido tudo pukka e chota hazri e tiffin e caça de javali... o limitado âmbito militar. Pensar que ele poderia ter se sentado como um chela aos pés de um guru! Ah, as oportunidades perdidas, monsieur Poirot, que tristeza!

Tia Kathie sacudiu a cabeça e afrouxou um pouco o modo como segurava uma das sacolas. Um pedaço de bacalhau de aspecto deprimente escorregou e resvalou para dentro da sarjeta. Poirot juntou-o, e, em sua agitação, tia Kathie deixou uma segunda sacola escorregar, com o que uma lata de melaço começou uma alegre carreira rolando High Street afora.

– Muito obrigada, monsieur Poirot.

Tia Kathie agarrou o bacalhau. Ele correu atrás do melaço.

– Oh, obrigada. Sou tão desastrada... Mas realmente fiquei muito transtornada. Que homem desafortunado... Sim, está grudento, mas não quero usar seu lenço limpo. Bem, é muito gentil de sua parte... Como eu ia dizendo, na vida estamos na morte, e na morte estamos na vida... Eu jamais deveria ficar surpresa ao ver o corpo astral de qualquer um dos meus amigos queridos já falecidos. O senhor sabe, pode-se passar por eles na rua. Ora, na outra noite mesmo eu...

– Me permite? – Poirot socou o bacalhau nas profundezas da sacola. – A senhora estava falando... sobre?

– Corpos astrais – disse tia Kathie. – Sabe, eu pedi dois pence, porque só tinha meio penny. Mas na ocasião achei que o rosto fosse familiar, só que não consegui situá-lo. Ainda não consigo... mas agora acho que deve ser alguém que faleceu, talvez há algum tempo, de modo que minha lembrança é muito incerta. É maravilhoso o modo como as pessoas são enviadas quando se necessita... mesmo que seja apenas o caso de uns trocados para o telefone. Oh, meu caro, que fila no Peacocks; devem ter bolo ou rocambole! Espero não ter chegado tarde demais!

A sra. Lionel Cloade atravessou a rua e juntou-se ao fim de uma fila de mulheres de cara amarrada do lado de fora da confeitaria.

Poirot seguiu pela High Street. Não entrou no Stag. Em vez disso, guiou seus passos para a White House.

Ele queria muito ter uma conversa com Lynn Marchmont e suspeitava que ela não se oporia a conversar com ele.

Estava uma manhã adorável, uma daquelas manhãs de verão na primavera que possuem o frescor negado a um verdadeiro dia de verão.

Poirot saiu da estrada principal. Viu a trilha que subia de Long Willows até a encosta acima de Furrowbank. Charles Trenton tinha vindo por ali desde a estação na sexta-feira antes de sua morte. Em seu trajeto morro abaixo, tinha encontrado Rosaleen Cloade subindo. Não a havia reconhecido, o que não era de surpreender, visto que ele não era Robert Underhay, e ela naturalmente não o havia reconhecido pelo mesmo motivo. Mas, ao ver o corpo, ela jurou que jamais tinha visto sequer de relance o rosto do homem por quem havia passado na trilha. Sendo assim, no que ela estava pensando? Estaria, por algum acaso, pensando em Rowley Cloade?

Poirot dobrou na estradinha que levava à White House. O jardim da White House estava com uma aparência adorável. Apresentava muitos arbustos floridos, lilases e laburnos, e no centro do gramado havia uma grande macieira velha e retorcida. Debaixo dela, estendida em uma espreguiçadeira, estava Lynn Marchmont.

Ela deu um pulo nervoso quando Poirot, em voz formal, desejou-lhe:

– Bom dia!

– O senhor me assustou, monsieur Poirot. Não o ouvi se aproximar pelo gramado. Então ainda está aqui em Warmsley Vale?

– Ainda estou aqui... sim.

– Por quê?

Poirot deu de ombros.

– É um lugar agradável e afastado onde se pode relaxar. Eu relaxo.

– Estou contente que esteja aqui – disse Lynn.

– A senhorita não me pergunta como o resto de sua família: “Quando vai voltar para Londres, monsieur Poirot?”, esperando ansiosamente pela resposta.

– Eles querem que o senhor volte para Londres?

– Parece que sim.

– Eu não.

– Não... entendi. Por quê, mademoiselle?

– Porque significa que o senhor não está convencido. Digo, convencido de que foi David Hunter.

– E a senhorita quer tanto assim... que ele seja inocente?

Ele viu um leve rubor insinuar-se na pele bronzeada dela.

– Naturalmente não quero ver um homem enforcado por algo que não fez.

– Naturalmente, oh, sim!

– E a polícia simplesmente está predisposta contra ele porque ele os irritou. Isso é o pior de David, ele gosta de hostilizar as pessoas.

– A polícia não está tão predisposta quanto a senhorita pensa, srta. Marchmont. A predisposição contra ele estava na mente do júri. Eles se recusaram a seguir a orientação do magistrado. Deram um veredito contra ele, e por isso a polícia teve de prendê-lo. Mas posso lhe dizer que eles estão muito longe de satisfeitos com o caso contra ele.

Ela perguntou animada:

– Então podem soltá-lo?

Poirot deu de ombros.

– Quem eles acham que fez aquilo, monsieur Poirot?

Poirot disse devagar:

– Havia uma mulher no Stag naquela noite.

Lynn exclamou:

– Eu não entendo nada. Quando pensamos que o homem fosse Robert Underhay, tudo pareceu muito simples. Por que o major Porter disse que era Underhay se não era? Por que ele se matou? Estamos de volta ao ponto de partida.

– A senhorita é a terceira pessoa a usar essa frase!

– Sou? – ela olhou atônita. – O que o senhor está fazendo, monsieur Poirot?

– Falando com as pessoas. É isso que eu faço. Apenas falo com as pessoas.

– Mas não pergunta coisas sobre o assassinato?

Poirot sacudiu a cabeça.

– Não, eu apenas, como direi... cato mexericos.

– Isso ajuda?

– Às vezes sim. Ficaria surpresa com o quanto aprendi sobre a vida cotidiana de Warmsley Vale nas últimas semanas. Sei quem andou por onde, e com quem se encontrou, e às vezes o que falou. Sei por exemplo que Arden pegou a trilha para a aldeia passando por Furrowbank e depois perguntando o caminho ao sr. Rowley Cloade, e que ele tinha uma mochila nas costas e nenhuma bagagem. Sei que Rosaleen Cloade passou mais de uma hora na fazenda com Rowley Cloade e que ela estava feliz ali, ao contrário do habitual.

– Sim – disse Lynn. – Rowley me contou. Disse que ela parecia uma pessoa tirando uma tarde de folga.

– Ah, ele disse isso?

Poirot fez uma pausa e prosseguiu:

– Sim, sei de muitas idas e vindas. E ouvi um bocado de coisas sobre as dificuldades das pessoas... suas e da sua mãe, por exemplo.

– Não é segredo sobre nenhum de nós – disse Lynn. – Todos nós tentamos filar dinheiro de Rosaleen. É a isso que se refere, não?

– Eu não disse isso.

– Bem, é verdade! E suponho que o senhor tenha ouvido coisas sobre eu e Rowley e David.

– Mas a senhorita vai se casar com Rowley Cloade?

– Vou? Gostaria de saber... Era isso que eu estava tentando decidir naquele dia... quando David irrompeu de dentro do bosque. Era como um grande ponto de interrogação na minha cabeça. Vou? Vou? Até o trem no vale parecia perguntar a mesma coisa. A fumaça fez um belo ponto de interrogação no céu.

O rosto de Poirot assumiu uma expressão curiosa. Lynn entendeu errado. Exclamou:

– Oh, monsieur Poirot, o senhor não vê, é tudo tão difícil! Não tem nada a ver com David. É comigo! Eu mudei. Estive fora por três... quatro anos. Agora que voltei não sou a mesma pessoa que era ao partir. Essa é a tragédia por toda parte. As pessoas voltam para casa mudadas, tendo que se reajustar. Não se pode ir embora, levar um tipo de vida diferente e não mudar!

– A senhorita está errada – disse Poirot. – A tragédia da vida é que as pessoas não mudam.

Ela fitou-o sacudindo a cabeça. Ele insistiu:

– É sim. É assim. Para começar, por que a senhorita partiu?

– Por quê? Entrei para o Wrens. Me alistei.

– Sim, sim, mas por que, para começar, a senhorita entrou para o Wrens? Estava noiva e ia se casar. Estava apaixonada por Rowley Cloade. Poderia ter trabalhado como lavradora aqui em Warmsley Vale, não poderia?

– Suponho que poderia, mas eu queria...

– Queria ir embora. Queria ir para o exterior, ver a vida. Queria, talvez, escapar de Rowley Cloade... E agora está inquieta, ainda quer... escapar! Oh, não, mademoiselle, as pessoas não mudam!

– Quando eu estava fora, no Oriente, ansiava por voltar para casa! – exclamou Lynn na defensiva.

– Sim, sim, a senhorita vai querer estar onde não estiver! Talvez vá ser sempre assim com a senhorita. Veja, você faz uma imagem de si mesma, uma imagem de Lynn Marchmont voltando para casa... Mas a imagem não se torna real porque a Lynn Marchmont que você imagina não é a Lynn Marchmont verdadeira. Ela é a Lynn Marchmont que a senhorita gostaria de ser.

Lynn perguntou com um tom amargo:

– Assim, de acordo com o senhor, eu jamais estarei satisfeita em lugar nenhum?

– Não digo isso. Mas digo que, quando partiu, estava insatisfeita com seu noivado e, agora que voltou, ainda está insatisfeita com o noivado.

Lynn arrancou uma folha e a mascou, meditativa.

– O senhor é mesmo danado para saber das coisas, não é, monsieur Poirot?

– É meu métier – disse Poirot, modesto. – Existe uma verdade adicional, creio, que a senhorita ainda não reconheceu.

Lynn disse de jeito brusco:

– O senhor se refere a David, não? Acha que estou apaixonada por David?

– Isso cabe à senhorita dizer – murmurou Poirot com discrição.

– E eu... não sei! Há algo em David de que tenho medo. Mas também há algo que me atrai... – ela ficou em silêncio por um instante e então prosseguiu: – Falei com o brigadeiro dele ontem. Ele veio para cá quando soube que David tinha sido preso para ver o que podia fazer. Ele me contou coisas sobre David, como era incrivelmente audacioso. Disse que David era uma das pessoas mais corajosas que ele já teve sob seu comando. Ainda assim, sabe, monsieur Poirot, a despeito de tudo que falou e das louvações, ele não tinha certeza absoluta de que David não tivesse feito aquilo!

– E a senhorita tampouco tem certeza?

Lynn deu um sorriso torto, patético.

– Não... veja, jamais confiei em David. Pode-se amar alguém em quem não se confia?

– Infelizmente sim.

– Sempre fui injusta com David. Porque não confiava nele. Acreditei em muita coisas dos infames mexericos locais. Insinuações de que David não era David Hunter coisa nenhuma... apenas um namorado de Rosaleen. Fiquei envergonhada quando encontrei com o brigadeiro e ele me falou que conhecia David desde garoto na Irlanda.

– C’est épatant – murmurou Poirot – como as pessoas conseguem ver as coisas pelo lado contrário.

– O que o senhor quer dizer?

– Apenas um ditado. Diga-me, a sra. Cloade, me refiro à esposa do doutor... ela ligou na noite do assassinato?

– Tia Kathie? Sim, ligou.

– Para quê?

– Alguma trapalhada incrível em que havia se metido com algumas contas.

– Ela ligou de casa?

– Não, na verdade o telefone dela estava estragado. Teve de ir a uma cabine.

– Às 22h20?

– Por aí. Nossos relógios nunca estão particularmente bem acertados.

– Por aí – disse Poirot, pensativo. Ele seguiu em tom delicado: – Essa foi a única chamada naquela noite?

– Não – Lynn respondeu secamente.

– David Hunter ligou de Londres?

– Sim – ela arrebatou-se de repente. – Suponho que queira saber o que ele disse?

– Oh, de fato não presumo...

– Está convidado a saber! Ele disse que estava indo embora, dando o fora da minha vida. Disse que ele não era bom para mim e que jamais andaria na linha, nem mesmo por minha causa.

– E, visto que isso provavelmente é verdade, a senhorita não gostou – disse Poirot.

– Espero que ele vá embora. Isto é, se for devidamente inocentado... Espero que ambos vão para a América ou algum lugar. Talvez então tenhamos condições de parar de pensar neles. Aprenderemos a viver por nossa conta. Pararemos de sentir rancor.

– Rancor?

– Sim. Senti pela primeira vez na casa de tia Kathie certa noite. Ela deu uma espécie de festa. Talvez tenha sido porque eu acabara de chegar do exterior e estava muito impaciente, mas parece que senti aquilo rodando no ar à nossa volta. Rancor contra ela, contra Rosaleen. O senhor não percebe, estávamos querendo que ela morresse... todos nós! E isso é medonho, desejar que alguém que jamais lhe fez qualquer mal... morresse...

– A morte dela, claro, é a única coisa que pode fazer bem a vocês em termos práticos – Poirot falou em um tom vivaz e prático.

– O senhor diz nos fazer bem em termos financeiros? O simples fato de ela estar aqui nos causou mal em todos os sentidos! Invejar uma pessoa, ressentir-se dela, filar dinheiro dela... isso não é bom. Agora, lá está ela, sozinha em Furrowbank. Parece um fantasma, parece morta de medo... parece... oh, é como se estivesse ficando doida. E ela não nos deixa ajudar! Nenhum de nós. Todos nós tentamos. Minha mãe convidou-a para ficar conosco, tia Frances a convidou. Até tia Kathie foi se oferecer para ficar com ela em Furrowbank. Mas ela não quer nada conosco, e eu não a culpo. Ela não viu sequer o brigadeiro Conroy. Acho que ela está doente, doente de preocupação, medo e aflição. E não estamos fazendo nada a respeito porque ela não deixa.

– A senhorita tentou? A senhorita em pessoa?

– Sim – disse Lynn. – Fui até lá ontem. Perguntei se havia alguma coisa que eu pudesse fazer. Ela me olhou... – Lynn parou de repente e estremeceu. – Acho que ela me odeia. Ela disse: “Você menos que todos”. Creio que David disse a ela para ficar em Furrowbank, e ela sempre faz o que David diz. Rowley levou ovos e manteiga de Long Willows para ela. Acho que ele é o único de nós de quem ela gosta. Ela agradeceu e disse que ele sempre foi gentil. Rowley, claro, é gentil.

– Existem pessoas – disse Poirot – por quem sentimos grande piedade, grande pena, pessoas que têm um fardo pesado demais para carregar. Tenho grande pena de Rosaleen Cloade. Se eu pudesse, a ajudaria. Mesmo agora, se ela escutasse...

Ele pôs-se de pé com uma resolução súbita.

– Venha, mademoiselle – disse ele –, vamos até Furrowbank.

– Você quer que eu vá junto?

– Se você estiver preparada para ser generosa e compreensiva...

Lynn exclamou:

– Estou... de fato estou...