Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 28 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 10

 

Passava das oito horas quando Poirot voltou para o Stag. Encontrou um bilhete de Frances Cloade pedindo para ir vê-la. Ele saiu na mesma hora.

Frances o aguardava na sala de estar. Ele não tinha visto aquela sala antes. As janelas abertas davam para um jardim murado com pereiras em flor. Havia vasos de tulipas em cima das mesas. A velha mobília brilhava devido a cera de abelha e muito polimento, e o bronze do guarda-fogo da lareira e do balde para o carvão resplandecia, cintilante.

Era uma sala muito bonita, pensou Poirot.

– O senhor disse que eu desejaria vê-lo, monsieur Poirot. Estava certíssimo. Há algo que precisa ser contado. E penso que o senhor é a melhor pessoa a quem contar.

– É sempre mais fácil, madame, contar algo para alguém que já tenha uma boa ideia do que seja.

– Acha que sabe o que vou dizer?

Poirot assentiu.

– Desde quando...

Ela deixou a pergunta inacabada, mas ele respondeu prontamente:

– Desde o momento em que vi a fotografia de seu pai. As feições de sua família são muito características. Não se poderia duvidar que a senhora e ele fossem da mesma família. A semelhança era igualmente grande com o homem que chegou aqui dizendo se chamar Enoch Arden.

Ela suspirou. Um suspiro profundo e infeliz.

– Sim. Sim, o senhor está certo, embora o pobre Charles tivesse barba. Era meu primo em segundo grau, de certo modo a ovelha negra da família. Nunca o conheci muito bem, mas brincávamos juntos quando crianças... e eu o trouxe para morrer... uma morte horrível e sórdida...

Ela ficou calada por alguns minutos. Poirot disse em tom gentil:

– A senhora vai me contar...

Ela se endireitou.

– Sim, a história tem de ser contada. Estávamos desesperados por dinheiro... é aí que começa. Meu marido... meu marido estava numa séria dificuldade... o pior tipo de dificuldade. Desonra e talvez prisão pairavam diante dele. Ainda pairam, aliás. Pois bem, entenda o seguinte, monsieur Poirot: o plano que arquitetei e executei foi meu plano; meu marido não teve nada a ver com isso. De qualquer modo não era o tipo de plano dele; seria por demais arriscado. Mas eu jamais me importei em correr riscos. E sempre fui, suponho, bastante inescrupulosa. Antes de mais nada, deixe lhe dizer, solicitei um empréstimo a Rosaleen Cloade. Não sei se, por si, Rosaleen teria concedido ou não. Mas seu irmão entrou em cena. Ele estava de péssimo humor e foi, ou assim pensei eu, desnecessariamente ofensivo. Quando concebi essa trama não tive escrúpulo algum quanto a colocá-la em andamento. Para explicar as coisas, devo dizer que no ano passado meu marido havia relatado uma informação deveras interessante que ouviu no clube. Creio que o senhor estava lá, de modo que não preciso repeti-la em detalhes. Mas ela abria a possibilidade de que o primeiro marido de Rosaleen pudesse não estar morto, e nesse caso é claro que ela não teria direito nenhum a nada do dinheiro de Gordon. Era, é claro, apenas uma vaga possibilidade, mas ficou lá no fundo de nossa mente, uma espécie de chance remota que poderia se tornar verdade. E em minha mente vislumbrei que se poderia fazer algo usando essa possibilidade. Charles, meu primo, estava no país, em má situação. Temo que ele tenha estado na prisão, e não era uma pessoa escrupulosa, mas saiu-se bem na guerra. Apresentei a proposta a ele. Era chantagem, claro, nada mais, nada menos. Mas pensamos ter uma boa chance de sermos bem-sucedidos. Na pior das hipóteses, pensei, David Hunter se recusaria a pagar. Não pensei que ele fosse à polícia; gente como ele não é chegada em polícia.

A voz dela ficou mais dura.

– Nosso plano foi muito bem. David caiu melhor do que esperávamos. Charles não se passou explicitamente por “Robert Underhay”, é claro. Rosaleen denunciaria tal coisa na mesma hora. Mas por sorte ela foi para Londres e isso deu a Charles ao menos a chance de sugerir que pudesse ser Robert Underhay. Bem, como eu disse, David pareceu ter caído no plano. Ficou de trazer o dinheiro na noite de terça-feira, às nove horas. Em vez disso...

A voz dela falseou.

– Deveríamos saber que David era... uma pessoa perigosa. Charles está morto... assassinado. E, se não fosse por mim, estaria vivo. Mandei-o para a morte.

Um instante depois, ela seguiu em voz seca:

– O senhor pode imaginar como me sinto desde então.

– Não obstante – disse Poirot –, a senhora foi rápida o bastante para ver um desenvolvimento adicional na trama. Foi a senhora que induziu o major Porter a identificar seu primo como “Robert Underhay”?

Mas na mesma hora ela interrompeu com veemência:

– Não, juro ao senhor, não. Isso não! Ninguém ficou mais espantada... Espantada? Ficamos estarrecidos quando esse major Porter veio prestar testemunho de que Charles... Charles!... era Robert Underhay. Não pude entender... ainda não consigo entender!

– Mas alguém foi ao major Porter. Alguém persuadiu-o ou o subornou... para identificar o morto como Underhay.

Frances disse, resoluta:

– Não fui eu. E não foi Jeremy. Nenhum de nós faria uma coisa dessas. Oh, imagino que isso soe absurdo para o senhor! Acha que, por estar pronta para chantagem, eu me rebaixaria muito facilmente a fraude. Mas na minha cabeça as duas coisas são mundos distintos. O senhor deve entender que eu sentia, de fato ainda sinto, que temos direito a uma parte do dinheiro de Gordon. O que fracassei em conseguir por meios honestos estava pronta a obter com trapaça. Mas deliberadamente tirar tudo de Rosaleen por falcatrua, fabricando a evidência de que ela não era esposa de Gordon... oh, não, de fato, monsieur Poirot, eu não faria uma coisa dessas. Por favor, por favor, acredite em mim.

– Vou ao menos admitir – disse Poirot lentamente – que cada um tem seus pecados particulares. Sim, vou acreditar nisso.

Então olhou para ela de modo penetrante.

– A senhora sabe, sra. Cloade, que o major Porter matou-se com um tiro nesta tarde?

Ela retraiu-se, os olhos arregalados e horrorizados.

– Oh, não, monsieur Poirot... não!

– Sim, madame. O major Porter, veja bem, au fond era um homem honesto. Estava numa situação financeira muito precária e, quando veio a tentação, ele, como muitos outros homens, falhou em resistir. Pode ter lhe parecido, ele pode ter gerado em si a sensação de que sua mentira era quase justificável em termos morais. Em sua mente ele já nutria profundo preconceito contra aquela mulher com quem seu amigo Underhay havia se casado. Ele julgava que ela havia tratado seu amigo de forma desonrosa. E agora aquela pequena interesseira sem coração havia se casado com um milionário e se safado com a fortuna do segundo marido em detrimento dos parentes de sangue dele. Deve ter lhe parecido tentador arruinar os planos dela... nada mais merecido. E apenas por identificar um homem morto ele mesmo estaria com o futuro assegurado. Quando os Cloade obtivessem seus direitos, ele teria sua cota... Sim, posso ver a tentação... Mas, como muitos homens de seu tipo, ele carecia de imaginação. Estava infeliz, muito infeliz, no inquérito. Dava para ver. No futuro próximo, ele precisaria repetir a mentira sob juramento. Não só isso: agora um homem estava preso, acusado de assassinato, e a identidade do morto fornecia um motivo muito poderoso para essa acusação. Ele voltou para casa e encarou as coisas de frente. Tomou a saída que lhe pareceu a melhor.

– Ele se matou?

– Sim.

Frances murmurou:

– Ele não disse quem... quem...

Poirot sacudiu a cabeça lentamente.

– Ele tinha seu código. Não houve qualquer referência a quem o instigou a cometer perjúrio.

Ele a observou com atenção. Houve um lampejo súbito de alívio, ou de relaxamento da tensão? Sim, mas de todo modo seria algo natural...

Ela levantou-se e caminhou até a janela. Disse:

– Assim, estamos de volta onde estávamos.

Poirot ficou imaginando o que se passava na mente dela.