Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 25 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 7

 

Poirot entrou no Stag com um humor pensativo e tremendo de leve, pois havia um vento cortante de leste. O saguão estava deserto. Ele abriu a porta da sala de descanso à direita. Cheirava a fumaça rançosa, e a lareira estava quase apagada. Poirot seguiu de mansinho até a porta na extremidade do corredor que indicava Apenas para hóspedes. Ali havia um belo fogo, mas em uma poltrona grande, tostando os dedos dos pés confortavelmente, estava uma velha senhora monumental que fuzilou Poirot com tamanha ferocidade que ele bateu em retirada constrangida.

Ficou parado por um momento no saguão olhando do escritório envidraçado vazio para a porta rotulada em sólido estilo à moda antiga como SALÃO DE CAFÉ. Pela experiência em hotéis do interior, Poirot sabia muito bem que a única ocasião em que o café era servido ali era no café da manhã, um tanto de má vontade, e mesmo então o principal componente era uma boa quantidade de leite quente aguado. Pequenas xícaras de um líquido melequento e barrento chamado café preto eram servidas não no salão de café, mas na Sala de Estar. A sopa windsor, o bife à Viena com batatas e o pudim cozido a vapor que constituíam o jantar seriam obtidos no salão de café às sete da noite em ponto. Até então, uma paz profunda pairava sobre a área residencial do Stag.

Poirot subiu a escada pensativo. Em vez de virar à esquerda, onde ficava seu quarto, o número 11, virou à direita e parou defronte à porta do número 5. Olhou ao redor. Silêncio e vazio. Abriu a porta e entrou.

A polícia havia concluído o trabalho no quarto. Estava claro que ele havia sido limpo e esfregado há pouco. Não havia tapete no chão. Possivelmente o “velho Axminster” tinha ido para a lavanderia. As cobertas estavam dobradas sobre a cama em uma pilha bem-feita.

Fechando a porta atrás de si, Poirot vagou pelo quarto. Estava limpo e estranhamente desprovido de interesse humano. Poirot observou a mobília: uma escrivaninha, uma cômoda de bom e velho mogno, um guarda-roupa da mesma madeira (aquele que presumivelmente escondia a porta para o número 4), uma grande cama de casal de latão, uma pia com água quente e fria (tributo à modernidade e à falta de empregados), uma poltrona grande mas bastante desconfortável, duas cadeiras pequenas, uma antiga lareira vitoriana com um atiçador e uma pá perfurada do mesmo conjunto das pinças, um consolo pesado de mármore e um sólido corta-fogo de mármore com cantos retos.

Poirot inclinou-se sobre este último e olhou. Umedeceu o dedo, passou ao longo do canto direito e inspecionou o resultado. O dedo ficou ligeiramente preto. Repetiu a ação com outro dedo no canto esquerdo do rebordo. Dessa vez o dedo continuou bem limpo.

– Sim – disse Poirot para si mesmo, pensativo. – Sim.

Olhou o lavatório adaptado. Então foi até a janela. Dava para um telhado de zinco, o teto de uma garagem, imaginou ele, e para uma ruela mais adiante. Um jeito fácil de ir ao quarto número 5 e sair sem ser visto. Mas também era igualmente fácil subir as escadas até o número 5 sem ser visto. Ele mesmo tinha acabado de fazer isso.

Poirot retirou-se de mansinho, fechando a porta sem fazer ruído. Foi até seu quarto. Estava decididamente frio. Desceu de novo, hesitou e então, movido pela friagem do entardecer, entrou audaciosamente na sala Apenas para hóspedes, arrastou uma segunda poltrona até a lareira e sentou-se.

A monumental senhora de idade era ainda mais formidável vista bem de pertinho. Tinha cabelo cinza-escuro, um bigode viçoso e, tão logo falou, uma voz grave e aterradora.

– Essa sala – disse ela – é reservada a pessoas hospedadas no hotel.

– Estou hospedado no hotel – replicou Hercule Poirot.

A velha senhora meditou por uns momentos antes de voltar ao ataque. Então disse em tom acusador:

– O senhor é estrangeiro.

– Sim – replicou Hercule Poirot.

– Na minha opinião – disse a idosa –, vocês todos deveriam voltar.

– Voltar para onde? – inquiriu Poirot.

– Para o lugar de onde vieram – disse a velha com firmeza. – E acrescentou como uma entrelinha, a sotto voce: – Estrangeiros! – e bufou.

– Isso – disse Poirot – seria difícil.

– Bobagem – disse a senhora. – Foi para isso que lutamos na guerra, não foi? A fim de que as pessoas pudessem voltar para seus locais apropriados e lá permanecer.

Poirot não entrou na controvérsia. Ele já havia aprendido que cada indivíduo possuía uma diferente versão para o tema “Para que lutamos na guerra?”

Reinou um silêncio um tanto hostil.

– Não sei onde as coisas vão parar – disse a velha senhora. – Realmente não sei. Venho para cá e me hospedo nesse lugar todos os anos. Meu marido morreu aqui há dezesseis anos. Está enterrado aqui. Fico um mês aqui todo ano.

– Uma romaria por devoção – disse Poirot, bem-educado.

– E a cada ano as coisas estão piores. Nenhum serviço. Comida intragável! Bifes à Viena, pois sim! Um bife de alcatra ou filé, não de carne de cavalo!

Poirot sacudiu a cabeça, entristecido.

– Uma boa coisa: fecharam o aeródromo – disse a velha senhora. – Que desgraça era aquilo, todos aqueles jovens aviadores vindo aqui com aquelas moças horríveis. Moças, pois sim! Não sei o que as mães delas estão pensando hoje em dia. Deixando que andem por aí vadiando como fazem. Acho que a culpa é do governo. Mandar as mães trabalhar nas fábricas. Só as deixavam de fora se tivessem filhos pequenos. Filhos pequenos, quanta bobagem! Qualquer um pode cuidar de um bebê! Um bebê não sai correndo atrás de soldados. Garotas de catorze a dezoito anos, essas são as que precisam ser cuidadas! Precisam de suas mães. Só a mãe para saber o que uma garota está querendo. Soldados! Aviadores! Elas só pensam nisso. Americanos! Negros! Ralé polonesa!

Àquela altura a indignação fez a velha tossir. Quando se recobrou, foi adiante, entregando-se a um prazeroso frenesi e usando Poirot como alvo para sua irritação.

– Por que colocam arame farpado em volta das bases deles? Para impedir que os soldados cheguem até as moças? Não, para impedir que as moças cheguem aos soldados! Loucas por homem, é isso que elas são! Olhe o modo como se vestem. Calças compridas! Algumas pobres tolas usam shorts. Não o fariam se soubessem como ficam vistas por trás!

– Concordo com a senhora, madame, de fato concordo com a senhora.

– O que elas usam na cabeça? Chapéus adequados? Não, uma coisa de pano torcida para cima, e rostos cobertos de pintura e pó. Uma coisa repulsiva por toda a boca. Não apenas unhas vermelhas... mas unhas dos pés vermelhas!

A velha senhora fez uma pausa explosiva e olhou Poirot com expectativa. Ele suspirou e balançou a cabeça.

– Até na igreja – disse a senhora. – Nada de chapéus. Às vezes nem mesmo aqueles lenços idiotas. Apenas aquele cabelo feio, ondulado, permanentemente cacheado. Cabelo? Ninguém sabe o que é cabelo hoje em dia. Quando era jovem, eu sabia arrumar meu cabelo.

Poirot deu uma olhadinha furtiva nos feixes cinza-escuro. Parecia impossível que aquela velha feroz pudesse ter sido jovem um dia!

– Meteu-se aqui uma noite dessas, uma delas – prosseguiu a velha senhora. – Com um lenço cor de laranja amarrado, pintada e empoada. Olhei para ela. Só olhei para ela! Foi embora logo!

A velha senhora seguiu em frente:

– Ela não era uma hóspede. Nenhuma do tipo dela fica aqui, me alegro em dizer! Então o que estava fazendo, saindo do quarto de um homem? Repulsivo, é o que acho. Falei a respeito com a moça Lippincott, mas ela é tão safada quanto qualquer uma... Vai longe atrás de qualquer coisa que use calças.

Um leve interesse atiçou a mente de Poirot.

– Saindo do quarto de um homem? – ele indagou.

A velha atirou-se no assunto com gosto.

– Foi o que eu disse. Vi com os meus olhos. Número 5.

– Em que dia foi isso, madame?

– Um dia antes de todo aquele alvoroço pelo assassinato de um homem. Que desgraça uma coisa dessas acontecer aqui! Esse era um lugar muito decente e antiquado. Mas agora...

– E a que hora do dia foi isso?

– Dia? Não era dia coisa nenhuma. Noite. Tarde da noite, aliás. Uma completa pouca vergonha. Passava das dez horas. Subi para o quarto às dez e quinze. Ela saiu do número 5 no maior descaramento, me lançou um olhar, então se esquivou para dentro de novo, rindo e falando com o homem lá dentro.

– Você ouviu ele falar?

– Não é o que estou dizendo? Ela se esquivou para dentro de novo e ele gritou: “Ah, vamos, saia daqui. Estou farto.” Bela maneira de um homem falar com uma moça. Mas elas pedem! Assanhadas!

Poirot disse:

– A senhora não relatou isso à polícia?

Ela crivou-o com um olhar de basilisco e se ergueu da cadeira cambaleando. Parada acima dele e fuzilando-o do alto, disse:

– Jamais tive nada que ver com a polícia. A polícia, pois sim! Eu, num tribunal da polícia?

Tremendo de raiva e com um último olhar dardejante malévolo para Poirot, ela deixou a sala.

Poirot ficou sentado e pensativo por alguns minutos, alisando o bigode, então foi atrás de Beatrice Lippincott.

– Oh, sim, monsieur Poirot, o senhor se refere à velha sra. Leadbetter? Viúva de Canon Leadbetter. Vem aqui todos os anos, mas, cá entre nós, claro, ela é realmente uma provação. Na verdade, às vezes é espantosamente rude com as pessoas e não parece entender que as coisas são diferentes hoje em dia. Ela tem quase oitenta anos, claro.

– Mas está com a mente lúcida? Ela sabe o que está dizendo?

– Oh, sim. Ela é uma senhora idosa bastante esperta; até demais, às vezes.

– Você sabe quem é a moça que visitou o homem assassinado na noite de terça-feira?

Beatrice pareceu atônita.

– Não lembro de uma moça vir visitá-lo a hora nenhuma. Como era ela?

– Usava um lenço cor de laranja na cabeça e imagino que uma boa quantidade de maquiagem. Estava no número 5 falando com Arden às dez e quinze da noite de terça-feira.

– Francamente, monsieur Poirot, não faço a mínima ideia.

Poirot saiu pensativo em busca do superintendente Spence.

Spence ouviu a história de Poirot em silêncio. Depois recostou-se na cadeira e assentiu com a cabeça lentamente.

– Engraçado, não é? – disse ele. – Com que frequência se chega à mesma velha fórmula. Cherchez la femme.

A pronúncia em francês do superintendente não era tão boa quanto a do sargento Graves, mas Spence orgulhava-se dela. Ele levantou-se e atravessou a sala. Voltou com algo na mão. Era um batom em um estojo de papelão dourado.

– Desde o começo tivemos um indício de que poderia haver uma mulher metida nisso – disse ele.

Poirot pegou o batom e espalhou um pouquinho, delicadamente, no dorso da mão.

– De boa qualidade – disse ele. – Vermelho-cereja escuro. Usado provavelmente por uma morena.

– Sim. Foi encontrado no chão do número 5. Tinha rolado para baixo da cômoda, e claro que poderia estar ali há algum tempo. Não há digitais. Hoje em dia não existe a variedade de batons de antes, claro, apenas alguns produtos básicos.

– E o senhor sem dúvida fez investigações?

Spence sorriu.

– Sim – disse –; como o senhor diz, fizemos nossas investigações. Rosaleen Cloade usa esse tipo de batom. Lynn Marchmont também. Frances Cloade usa uma cor mais clara. A sra. Lionel Cloade não usa batom algum. A sra. Marchmont usa um tom de malva claro. Beatrice Lippincott não parece usar nada tão caro quanto isso; nem sua camareira, Gladys.

Ele fez uma pausa.

– O senhor foi meticuloso.

– Não meticuloso o bastante. Agora parece que alguém de fora está metido nisso. Quem sabe alguma mulher que Underhay conhecesse em Warmsley Vale.

– E que estava com ele às dez e quinze na noite de terça-feira?

– Sim – disse Spence.

E acrescentou com um suspiro:

– Isso deixa David Hunter de fora.

– Deixa?

– Sim. Sua senhoria enfim aquiesceu em dar uma declaração. Depois de o advogado dele entrar em cena para chamá-lo à razão. Cá está o relato de suas atividades.

Poirot leu um memorando datilografado com capricho.

Deixou Londres no trem das 16h26 para Warmsley Heath. Chegou às 17h30. Foi a pé para Furrowbank pela trilha.

– Seu motivo para vir – interrompeu o superintendente –, segundo ele, foi buscar certas coisas que havia esquecido, cartas e papéis, um talão de cheques, e ver se algumas camisas tinham voltado da lavanderia... claro que não tinham! Vou lhe dizer uma coisa, lavanderia é um problema hoje em dia. Quatro malditas semanas desde que estiveram lá em casa. Não sobrou uma toalha limpa, e agora minha esposa lava todas as minhas coisas.

Depois desse aparte muito humano, o superintendente voltou ao itinerário das movimentações de David.

Deixou Furrowbank às 19h35 e afirma ter ido dar uma caminhada, pois tinha perdido o trem das 19h30 e não haveria trem até as 21h30.

– Em que direção ele foi dar a caminhada? – perguntou Poirot.

O superintendente consultou as anotações.

– Disse que por Downe Copse, Bats Hill e Long Ridge.

– De fato, um círculo completo em volta da White House!

– Minha nossa, o senhor inteirou-se rapidamente da geografia local, monsieur Poirot!

Poirot sorriu e sacudiu a cabeça.

– Não, não conheço os lugares que o senhor citou. Estava dando um palpite.

– Estava, é?

O superintendente inclinou a cabeça para o lado e seguiu:

– Pois bem: segundo ele, quando estava em Long Ridge, percebeu que estava em cima da hora e saiu voando para a estação de Warmsley Heath, atravessando o campo. Pegou o trem no último instante, chegou em Victoria às 22h45, foi a pé até Shepherd’s Court, chegando lá às onze horas da noite, o que foi confirmado pela sra. Gordon Cloade.

– E que confirmação o senhor tem do restante?

– Pouquíssimas. Mas existem algumas. Rowley Cloade e outros o viram chegar em Warmsley Heath. As empregadas de Furrowbank estavam fora (ele tem uma chave, é claro), por isso não o viram, mas encontraram um toco de cigarro na biblioteca, o que presumo que as intrigou, e também havia uma grande confusão no armário de roupa de cama e mesa. Um dos jardineiros que estava trabalhando até mais tarde, fechando as estufas ou coisa assim, avistou-o. A srta. Marchmont encontrou-o perto de Mardon Wood, quando ele corria para pegar o trem.

– Alguém o viu pegar o trem?

– Não. Mas ele telefonou de Londres para a srta. Marchmont tão logo chegou. Às 23h05.

– Isso foi verificado?

– Sim, já concluímos uma investigação sobre as chamadas feitas daquele número. Houve um interurbano às 23h04 para Warmsley Vale, no 34. É o telefone das Marchmont.

– Muito, muito interessante – murmurou Poirot.

Mas Spence seguiu meticulosa e metodicamente:

– Rowley Cloade deixou Arden às 20h55. Ele está bem convicto de que não foi antes disso. Por volta de 21h20, Lynn Marchmont viu Hunter em Mardon Wood. Admitindo-se que ele tenha corrido todo o trajeto desde o Stag, teria tido tempo de encontrar-se com Arden, discutir com ele, matá-lo e chegar a Mardon Wood? Vamos verificar isso, mas não acho que possa ser feito. Contudo, agora estamos recomeçando. Longe de ter sido morto às nove horas da noite, Arden estava vivo às 22h20, isto é, a menos que nossa velha senhora esteja sonhando. Ou ele foi morto pela mulher que deixou cair o batom, a mulher de lenço cor de laranja, ou por alguém que entrou depois que essa mulher saiu. E, quem quer que tenha sido, esse alguém atrasou deliberadamente os ponteiros do relógio para 21h20.

– Assim, se David Hunter não tivesse encontrado Lynn Marchmont em um lugar muito improvável, seria notavelmente embaraçoso para ele – disse Poirot.

– Sim, seria. O trem das 21h30 é o último de Warmsley Heath. Estava ficando escuro. Sempre há jogadores de golfe voltando nele. Ninguém teria reparado em Hunter; de fato, as pessoas da estação não o conhecem de vista. E ele não pegou táxi na chegada. De modo que teríamos apenas a palavra da irmã de que ele voltou a Shepherd’s Court quando disse que o fez.

Poirot ficou calado e Spence perguntou:

– Em que está pensando, monsieur Poirot?

Poirot disse:

– Uma longa caminhada em volta da White House. Um encontro em Mardon Woods. Um telefonema mais tarde... E Lynn Marchmont está noiva de Rowley Cloade... Gostaria muito de saber o que foi dito naquele telefonema.

– É o interesse humano que está lhe atiçando?

– Sim – disse Poirot. – É sempre o interesse humano.