Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 33 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 15

 

Lynn saiu de casa e deu uma olhada para o céu.

O sol estava se pondo, o céu não estava avermelhado, mas em vez disso havia uma luminescência anormal. Um entardecer pesado, com uma sensação de falta de ar. “Vai cair um temporal mais tarde”, ela pensou.

Bem, havia chegado a hora. Ela não podia adiar as coisas por mais tempo. Tinha de ir a Long Willows e contar a Rowley. Devia pelo menos isso a ele: contar em pessoa, e não optar pelo jeito mais fácil e escrever uma carta.

Sua decisão estava tomada, completamente tomada, ela dizia a si mesma, e não obstante sentia uma curiosa relutância. Olhou em volta e pensou: “É o adeus a tudo isso, a meu mundo, a meu estilo de vida”.

Pois ela não tinha ilusões. A vida com David era uma aposta, uma aventura que poderia tanto terminar bem quanto acabar mal. Ele mesmo a havia avisado...

Na noite do assassinato, pelo telefone.

E agora, há poucas horas, ele tinha dito:

– Eu pretendia sair da sua vida. Fui um tolo... pensar que poderia deixar você para trás. Vamos para Londres casar com licença especial. Oh, sim, não vou lhe dar chance de vacilar. Você tem raízes aqui, raízes que a seguram. Preciso arrancá-la pela raiz.

E havia acrescentado:

– Vamos comunicar a Rowley quando você já for a sra. David Hunter. Pobre diabo, é a melhor forma de contar para ele.

Mas ela não concordou com aquilo, embora não tenha dito nada na ocasião. Não, ela tinha de contar para Rowley pessoalmente.

Ela iria até Rowley agora!

A tempestade estava começando quando Lynn bateu na porta de Long Willows. Rowley abriu e ficou atônito ao vê-la.

– Olá, Lynn, por que não ligou e disse que estava a caminho? Eu poderia ter saído.

– Queria falar com você, Rowley.

Ele deu o lado para deixá-la passar e a seguiu até a cozinha espaçosa. Os restos do jantar estavam em cima da mesa.

– Estou planejando instalar um fogão aqui – disse ele. – Mais fácil para você. E uma nova pia... de aço...

Ela interrompeu.

– Não faça planos, Rowley.

– Você se refere ao fato de a pobre garota ainda não estar sepultada? Suponho que isso pareça bastante insensível. Mas ela jamais me impressionou como uma pessoa especialmente feliz. Doente, suponho. Nunca se recuperou daquele maldito ataque aéreo. De qualquer forma, é isso aí. Ela está morta e enterrada e, ah, que diferença para mim... ou melhor, para nós...

Lynn tomou fôlego.

– Não, Rowley. Não existe nenhum “nós”. É isso que vim lhe falar.

Ele fitou-a. Ela disse baixinho, odiando-se, mas firme em seu propósito:

– Vou me casar com David Hunter, Rowley.

Ela não sabia bem o que esperar: protestos, talvez um ataque de raiva, mas com certeza não esperava que Rowley ficasse como ficou.

Ele olhou fixo para ela por alguns instantes, então foi até o fogão e deu um murro. Finalmente virou-se de um jeito quase distraído.

– Bem – disse ele – vamos esclarecer isso. Você vai se casar com David Hunter. Por quê?

– Porque o amo.

– Você me ama.

– Não. Eu amava você... quando fui embora. Mas faz quatro anos, e eu... eu mudei. Nós dois mudamos.

– Você está errada... – disse ele baixinho. – Eu não mudei.

– Bem, talvez você não tenha mudado tanto.

– Não mudei nada. Não tive muita chance de mudar. Apenas fiquei labutando por aqui. Eu não saltei de paraquedas, nem rastejei por penhascos à noite, nem passei o braço em volta de um homem e o esfaqueei na escuridão...

– Rowley...

– Eu não fui à guerra. Eu não lutei. Eu não sei o que é guerra! Levei uma bela vida a salvo aqui na fazenda. Rowley sortudo! Mas você teria vergonha de mim como marido!

– Não, Rowley... oh, não! Não é nada disso.

– Mas garanto que é!

Ele chegou mais perto dela. O sangue subia para o pescoço dele, as veias da fronte começavam a saltar. Aquele olhar dele... ela tinha visto uma vez ao passar por um touro no campo. Sacudindo a cabeça, pisoteando, baixando lentamente a cabeça com os grandes chifres. Espicaçado por uma fúria surda, uma raiva cega...

– Fique quieta, Lynn; desta vez você vai me ouvir. Eu perdi o que deveria ter tido. Perdi a chance de lutar por meu país. Vi meu melhor amigo ir e ser morto. Vi minha garota... minha garota... de uniforme atravessar os mares. Fui apenas o homem que ela deixou para trás. Minha vida foi um inferno... você não entende, Lynn? Foi um inferno. E então você voltou. E desde então foi um inferno ainda pior. Desde aquela noite na tia Kathie, quando vi você olhando para David Hunter do outro lado da mesa. Mas ele não terá você, está me ouvindo? Se você não for minha, então não será de ninguém. O que você pensa que eu sou?

– Rowley...

Ela tinha se levantado e estava recuando passo a passo, aterrorizada. Aquele homem não era mais um homem, era uma besta feroz.

– Matei duas pessoas – disse Rowley Cloade. – Você acha que vou hesitar em matar uma terceira?

– Rowley...

Ele estava em cima dela agora, as mãos em volta do pescoço...

– Não aguento mais, Lynn...

As mãos apertaram-se em torno do pescoço dela, a sala girou, escuridão, escuridão rodopiante, sufocamento... tudo ficando escuro...

E então, de repente, uma tosse. Uma tosse afetada, levemente artificial.

Rowley parou, suas mãos afrouxaram, caíram ao lado do corpo. Solta, Lynn tombou no chão como um saco amarrotado.

Hercule Poirot estava parado bem na entrada, tossindo em tom de escusas.

– Espero – disse ele – não estar interrompendo nada. Bati na porta. Sim, de fato, bati, mas ninguém atendeu... Suponho que estivessem ocupados.

Por um momento o ar ficou tenso, eletrizado. Rowley de olhos esbugalhados. Por um momento pareceu que ele poderia se atirar em cima de Hercule Poirot, mas finalmente deu as costas. E disse em uma voz monótona e indiferente:

– O senhor apareceu... na hora exata.