Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 7 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 6

 

– O que a Marchmont estava fazendo aqui? – inquiriu David assim que entrou.

– Oh, David. Ela precisava muito de dinheiro. Jamais pensei...

– E você deu, suponho...

Ele olhou-a em desespero parcialmente jocoso.

– Não dá para deixar você sozinha, Rosaleen.

– Oh, David, eu não pude recusar. Afinal...

– Afinal o quê? Quanto?

Rosaleen murmurou numa vozinha baixa:

– Quinhentas libras.

Para seu alívio, David riu.

– Uma bagatela!

– Oh, David, é um bocado de dinheiro.

– Não para nós hoje em dia, Rosaleen. Parece que você nunca entende realmente que é uma mulher muito rica. Do mesmo modo que, se ela pediu quinhentas, teria ido embora bem satisfeita com 250. Você precisa aprender a linguagem dos empréstimos!

– Sinto muito, David – ela murmurou.

– Minha querida! Afinal, é o seu dinheiro.

– Não é. Não realmente.

– Não comece com tudo aquilo de novo. Gordon Cloade morreu antes de ter tempo de fazer um testamento. É isso que se chama de sorte no jogo. Ganhamos, você e eu. Os outros... perderam.

– Não parece... certo.

– Ora, minha adorável irmã Rosaleen, você não está desfrutando disso tudo? Uma casa grande, criados... joias? Não é um sonho realizado? Deus seja louvado! Às vezes penso que vou acordar e descobrir que é um sonho.

Ela riu com ele, e, observando-a de perto, ele ficou satisfeito. Ele sabia como lidar com sua Rosaleen. Era um inconveniente, pensou David, que ela tivesse uma consciência, mas era isso aí.

– É verdade mesmo, David, parece um sonho... ou coisa de filme. Estou gostando de tudo. Estou mesmo.

– Mas vamos guardar o que é nosso – ele advertiu. – Chega de presentes para os Cloade, Rosaleen. Cada um deles tem mais dinheiro do que você ou eu jamais tivemos.

– Sim, suponho que seja verdade.

– Onde Lynn estava hoje de manhã? – ele perguntou.

– Acho que ela foi a Long Willows.

A Long Willows. Ver Rowley, o idiota, o caipira! O bom humor dele evaporou-se. Decidida a se casar com o sujeito, não é?

Saiu da casa de mau humor, subindo em meio a um aglomerado de azaleias até sair pelo portãozinho no topo do morro. Dali, a trilha mergulhava morro abaixo passando pela fazenda de Rowley.

Parado ali, David viu Lynn Marchmont subir, vindo da fazenda. Ele hesitou por um momento, então cerrou o maxilar de modo belicoso e seguiu morro abaixo na direção dela. Encontraram-se em uma cancela no meio do morro.

– Bom dia – disse David. – Quando é o casamento?

– Você já perguntou isso antes – ela retorquiu. – E sabe muito bem. Em junho.

– Você vai levar isso até o fim?

– Não sei o que quer dizer, David.

– Oh, sim, você sabe – ele deu uma risada desdenhosa. – Rowley. O que é Rowley?

– Um homem melhor do que você. Mexa com ele se tiver coragem – disse ela em tom casual.

– Não tenho dúvida de que ele seja um homem melhor que eu. Mas tenho coragem. Por você, tenho coragem para qualquer coisa, Lynn.

Ela ficou em silêncio por um instante. Enfim disse:

– O que você não entende é que eu amo Rowley.

– Imagino.

Ela disse com veemência:

– Amo, estou dizendo. Amo.

David olhou-a de forma penetrante.

– Todos nós temos imagens de nós mesmos, de como queremos ser. Você se vê apaixonada por Rowley, acomodando-se com Rowley, vivendo contente aqui com Rowley, sem jamais querer ir embora. Mas esse não é seu verdadeiro eu, é, Lynn?

– Ah, o que é meu verdadeiro eu? Sendo assim, o que é o seu verdadeiro eu? O que você quer?

– Eu disse que queria segurança, paz depois da tormenta, calmaria após mares revoltos. Mas não sei. Às vezes, Lynn, suspeito que você e eu queremos... dificuldades.

E acrescentou de forma mal-humorada:

– Gostaria que você jamais tivesse aparecido por aqui. Eu era notavelmente feliz até você chegar.

– Você não é feliz agora?

Ele olhou para ela. Lynn sentiu o alvoroço crescer dentro de si. Sua respiração acelerou-se. Ela jamais havia sentido a estranha atração soturna de David com tanta intensidade. Ele estendeu a mão, agarrou-a pelo ombro, girou-a...

E de repente ela sentiu a pressão da mão dele afrouxar. Seu olhar estava cravado no alto do morro por cima do ombro dela. Lynn virou a cabeça para ver o que havia capturado a atenção dele.

Uma mulher cruzava o portãozinho acima de Furrowbank. David falou em tom ríspido:

– Quem é?

Lynn respondeu:

– Parece Frances.

– Frances? – ele ficou carrancudo.

– O que Frances quer?

– Minha querida Lynn! Só quem quer alguma coisa visita Rosaleen. Sua mãe já passou por lá nesta manhã.

– Minha mãe? – Lynn recuou. Fechou o rosto. – O que ela queria?

– Você não sabe? Dinheiro!

– Dinheiro? – Lynn enrijeceu.

– E já conseguiu – disse David.

Ele agora sorria com o sorriso frio e cruel que combinava muito bem com seu rosto.

Eles estiveram próximos há um instante, agora estavam a quilômetros de distância, separados por um antagonismo agudo.

Lynn gritou:

– Não, não, não!

David arremedou-a.

– Sim, sim, sim!

– Não acredito! Quanto?

– Quinhentas libras.

Ela ofegou de modo brusco.

David disse em tom divertido:

– Fico imaginando quanto Frances vai pedir. Realmente é pouco seguro deixar Rosaleen sozinha por cinco minutos! A pobre garota não sabe dizer não.

– Quem mais... esteve lá?

David sorriu, zombeteiro.

– Tia Kathie contraiu certas dívidas. Oh, não muito, apenas 250 cobriam, mas ela temia que isso chegasse aos ouvidos do doutor! Visto que foram causadas por pagamentos a médiuns, ele poderia não ser compreensivo. Ela não sabia, claro – acrescentou David –, que o doutor havia pedido um empréstimo.

Lynn falou em voz baixa:

– O que você não há de pensar de nós... o que você não há de pensar de nós!

Então, pegando-o de surpresa, Lynn deu meia-volta e correu desenfreadamente morro abaixo rumo à fazenda.

Ele observou-a ir, carrancudo. Ela tinha ido até Rowley, voado para lá como um pombo a voltar para casa, e o fato perturbou-o mais do que ele gostaria de admitir.

Olhou para o alto do morro e franziu o cenho.

– Não, Frances – sussurrou. – Acho que não. Você escolheu um mau dia.

E marchou, determinado, morro acima.

Passou pelo portão e pelas azaleias, atravessou o gramado e cruzou de mansinho pela porta envidraçada da sala de visitas no momento em que Frances Cloade dizia:

– Gostaria de poder explicar tudo melhor. Mas veja, Rosaleen, de fato é terrivelmente difícil de explicar...

Uma voz por trás dela disse:

– É?

Frances Cloade virou-se com vivacidade. Ao contrário de Adela Marchmont, ela não tinha tentado deliberadamente encontrar Rosaleen sozinha. A quantia era alta o bastante para tornar improvável que Rosaleen a cedesse sem consultar o irmão. Na verdade, Frances preferiria ter discutido o assunto com David e Rosaleen juntos a fazer com que David achasse que ela havia tentado arrancar dinheiro de Rosaleen em sua ausência.

Ela não o ouviu cruzar pela porta, absorta que estava na apresentação de um caso plausível. A interrupção sobressaltou-a, e ela percebeu também que por algum motivo David Hunter estava com um humor particularmente mau.

– Oh, David – disse ela com desenvoltura –, fico feliz que tenha chegado. Estava falando com Rosaleen. A morte de Gordon deixou Jeremy em um buraco sem fim, e queria saber se ela poderia ajudar. É o seguinte...

Seu palavreado fluiu sem hesitação. A enorme quantia envolvida. O apoio de Gordon... prometido verbalmente. Restrições do governo. Hipotecas...

Uma certa admiração instigou a mente sombria de David. Aquela mulher era uma mentirosa das boas! Plausível, a história toda. Mas não era verdade. Não, ele jurava que não. Não era verdade! Qual seria, indagou ele, a verdade? Jeremy estava na rua da amargura? Devia ser algo bastante desesperador para ele permitir que Frances viesse tentar aquela proeza. Ela também era uma mulher orgulhosa...

Ele disse:

– Dez mil?

Rosaleen murmurou numa voz assombrada:

– É um bocado de dinheiro.

Frances falou depressa:

– Oh, sei que é. Não teria vindo a você se não fosse uma quantia tão difícil de levantar. Mas Jeremy jamais teria entrado em tal negócio se não fosse o suporte de Gordon. É tão terrivelmente lamentável que Gordon tenha morrido de forma tão repentina...

– Deixando todos vocês ao relento? – A voz de David era desagradável. – Depois de uma vida ao abrigo de suas asas.

Houve um débil fulgor nos olhos de Frances quando ela disse:

– Você coloca as coisas de um modo tão pitoresco!

– Rosaleen não pode tocar no capital, você sabe. Apenas na renda. E ela paga cerca de 19,6% de imposto de renda.

– Oh, eu sei. A taxação é medonha hoje em dia. Mas se poderia dar um jeito nisso, não? Nós ressarciríamos...

– Poderia se dar um jeito. Mas não será dado!

Frances voltou-se vivamente para Rosaleen.

– Rosaleen, você é tão generosa...

A voz de David cortou a fala dela.

– O que vocês, Cloade, pensam que Rosaleen é? Uma vaca leiteira? Todos em cima dela... insinuando, pedindo, suplicando. E por suas costas? Escarnecendo, fazendo pouco-caso, odiando, desejando que morra...

– Não é verdade – gritou Frances.

– Não é? Vou lhe dizer: estou farto de todos vocês! Ela está farta de todos vocês! Não vão tirar dinheiro de nós! Assim, podem parar de vir choramingar atrás disso. Entendido?

O rosto dele estava negro de fúria.

Frances levantou-se. Seu rosto estava pétreo e inexpressivo. Ela vestiu uma luva de camurça de modo distraído, e ainda assim atenta, como se fosse um ato significativo.

– Você foi bastante claro, David – disse ela.

Rosaleen murmurou:

– Lamento. Realmente lamento...

Frances não prestou atenção nela. Rosaleen poderia nem estar na sala. Ela deu um passo na direção da porta de vidro e parou, encarando David.

– Você disse que tenho ressentimento contra Rosaleen. Isso não é verdade. Não tenho ressentimento contra Rosaleen... mas me ressinto... de você!

– O que quer dizer? – ele olhou-a, carrancudo.

– As mulheres têm de viver. Rosaleen casou-se com um homem muito rico, anos mais velho que ela. Por que não? Mas você! Você vive às custas de sua irmã, vive no bem-bom, vive na moleza... às custas dela.

– Fico entre ela e os gaviões.

Ficaram parados se olhando. Ele estava ciente da raiva dela e pensou subitamente que Frances Cloade era uma inimiga perigosa, que poderia ser inescrupulosa e imprudente.

Quando ela abriu a boca para falar, ele até sentiu apreensão por um momento. Mas o que ela disse foi singularmente evasivo.

– Hei de lembrar o que você falou, David.

Passando por ele, ela saiu pela porta.

David ficou se perguntando por que havia sentido tão intensamente que as palavras eram uma ameaça.

Rosaleen estava chorando.

– Oh, David, David... você não devia ter dito aquelas coisas para ela. Ela foi a mais gentil comigo dentre eles.

Ele disse, furioso:

– Cale a boca, sua tolinha! Quer que pisoteiem você e lhe sangrem até o último centavo?

– Mas o dinheiro... se... se não é meu de modo legítimo...

Ela acovardou-se diante do olhar dele.

– Eu... eu não quis dizer isso, David.

– Espero que não.

“Consciência”, pensou ele, “era um inferno!”

Ele não havia contado com a questão da consciência de Rosaleen. Ela tornaria as coisas embaraçosas no futuro.

Futuro? Ele franziu o cenho ao olhar para ela e deixar os pensamentos correrem à solta. O futuro de Rosaleen... O dele... Ele sempre soube o que queria... Ele sabia agora... Mas e Rosaleen? Que futuro haveria para Rosaleen?

Enquanto o rosto dele fechava-se, ela gritou, estremecendo de repente:

– Oh! Há alguém caminhando sobre a minha sepultura!

Olhando com curiosidade para ela, David perguntou:

– Então você percebe que pode chegar a isso?

– O que você quer dizer, David?

– Quero dizer que cinco, seis, sete pessoas têm toda intenção de mandá-la depressa para a sepultura antes que você tenha seus direitos aqui!

– Você não se refere a... assassinato! – a voz dela estava horrorizada. – Você acha que essas pessoas matariam?... Não gente de bem como os Cloade.

– Não tenho certeza de que gente de bem como os Cloade não cometa assassinato. Mas não vão ter sucesso em assassiná-la enquanto eu estiver aqui para tomar conta de você. Primeiro vão ter de me tirar do caminho. Mas, se me tirarem do caminho... bem, cuide-se!

– David... não diga coisas tão horríveis.

– Escute – ele agarrou-a pelo braço. – Se um dia eu não estiver aqui, cuide-se, Rosaleen. A vida não é segura, lembre-se disso. É perigosa, tremendamente perigosa. E tenho o palpite de que seja especialmente perigosa para você.