Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 1 de 35

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Seguindo a Correnteza

Prólogo

 

I

Todo clube tem um chato. O Coronation Club não era exceção, e o fato de um ataque aéreo estar em andamento não alterava a rotina.

O major Porter, outrora do exército da Índia, farfalhou seu jornal e pigarreou. Todo mundo evitou seu olhar, mas não adiantou.

– Vi que publicaram o anúncio da morte de Gordon Cloade no Times – disse ele. – Discretamente colocado, é claro. “No dia 5 de outubro, em resultado de ação do inimigo.” Não deram o endereço. De fato foi bem perto de minha humilde morada. Um daqueles casarões no

topo de Campden Hill. Posso dizer que me abalou um pouco. Como sabem, sou um warden.[1] Cloade acabara de voltar dos Estados Unidos. Estivera lá naquele negócio de compras do governo. Casou-se enquanto estava lá. Uma jovem viúva... jovem o bastante para ser filha dele. Sra. Underhay. Aliás, conheci o primeiro marido dela na Nigéria.

O major Porter fez uma pausa. Ninguém demonstrou qualquer interesse, nem lhe pediu que continuasse. Os jornais foram mantidos com persistência diante dos rostos, mas era preciso mais do que isso para desencorajar o major Porter. Ele sempre tinha longas histórias para contar, na maioria das vezes sobre gente que ninguém conhecia.

– Interessante – disse o major Porter com firmeza, os olhos fixos distraidamente em um par de sapatos de verniz bastante bicudos, um tipo de calçado que ele desaprovava por inteiro. – Como disse, sou um warden. Coisa engraçada essa explosão. Nunca se sabe o que vai causar. Implodiu o porão e arrancou o telhado. O primeiro piso ficou praticamente intacto. Seis pessoas na casa. Três criados – um casal e uma empregada –, Gordon Cloade, sua esposa e o irmão da esposa. Todos estavam no porão, exceto o irmão da esposa, um ex-comando. Ele preferiu sua cama confortável no primeiro piso e, por Deus, escapou com poucos ferimentos. Os três criados foram mortos pela explosão. Gordon Cloade deveria valer bem mais que um milhão.

O major Porter fez outra pausa. Seus olhos haviam subido dos sapatos de verniz para as calças listradas, o casaco preto, a cabeça em formato de ovo e bigodes colossais. Estrangeiro, é claro! Isso explicava os sapatos. “Francamente”, pensou o major Porter, “o que o clube está virando? Não dá para fugir de estrangeiros nem mesmo aqui.” Essa linha isolada de pensamento correu paralelamente à sua narrativa.

O fato de o estrangeiro em questão parecer dar-lhe plena atenção não aplacou nem de leve o preconceito do major Porter.

– Ela não deve ter mais do que 25 anos – prosseguiu. – É viúva pela segunda vez. Ou, de qualquer modo, é isso que ela pensa...

Ele fez uma pausa, esperando alguma curiosidade, algum comentário. Mesmo sem obtê-los, seguiu tenazmente:

– Aliás, tenho minhas próprias ideias a respeito. Negócio duvidoso. Como eu disse, conheci o primeiro marido dela, Underhay. Bom sujeito, comissário distrital na Nigéria em certa época. Absolutamente eficiente no trabalho, sujeito de primeira. Casou-se com essa garota na Cidade do Cabo. Ela estava lá com uma companhia itinerante. Em muito má situação, bonita, desamparada e tudo mais. Ouviu o pobre Underhay desmanchar-se em elogios sobre a sua região natal e os enormes espaços abertos, e disse entre suspiros “Que maravilha”, e falou sobre como queria “escapar de tudo”. Bem, ela casou-se com ele e escapou. Ele estava muito apaixonado, pobre homem. Mas de saída a coisa não engrenou. Ela detestou o sertão, ficou aterrorizada com os nativos e morta de tédio. Sua ideia de vida era dar voltas pela cidade, encontrar-se com o pessoal do teatro e falar dos assuntos daquele meio. Solidão à deux na selva não era em absoluto de seu agrado. Vejam bem, jamais me encontrei com ela, ouvi tudo isso do pobre Underhay. Foi um duro golpe para ele. Fez o que era certo, mandou-a para casa e concordou em dar o divórcio. Foi logo depois disso que o conheci. Ele estava todo tenso e no estado de ânimo em que um homem precisa conversar. Era um sujeito engraçado, à moda antiga em certos sentidos. E, católico, não apreciava o divórcio. Ele me disse: “Existem outras maneiras de se conceder liberdade a uma mulher”. “Ei, olhe aqui, meu velho”, eu falei, “não vá fazer nada tolo. Nenhuma mulher no mundo merece que você meta uma bala na cabeça.”

“Ele disse que aquela não era absolutamente sua ideia. ‘Mas sou um homem solitário’, disse ele. ‘Não tenho parentes que se preocupem comigo. Se houver um relato de minha morte, isso fará de Rosaleen uma viúva, que é o que ela quer.’ ‘E quanto a você?’, perguntei. ‘Bem’, disse ele, ‘talvez um sr. Enoch Arden apareça em algum lugar a mil milhas de distância ou algo assim e comece uma vida nova.’ ‘Poderia ser inconveniente para ela algum dia’, adverti. ‘Oh, não’, disse ele, ‘eu faria o jogo. Robert Underhay estaria mortinho.’

“Bem, não pensei mais naquilo, mas seis meses depois ouvi dizer que Underhay havia morrido de febre em algum cafundó. Seus nativos eram uma turma de confiança e voltaram com uma bela fábula circunstancial e umas últimas palavras rabiscadas por Underhay dizendo que eles haviam feito tudo que podiam por ele, que ele temia estar batendo as botas, e elogiando seu líder nativo. Aquele homem era devotado a Underhay, assim como todos os outros. O que quer que ele os fizesse jurar, eles jurariam. Então é isso... Talvez Underhay esteja sepultado no interior da África Equatorial, mas talvez não esteja. E, se não estiver, a sra. Gordon Cloade pode ter um choque um dia. E digo que será bem feito para ela. Jamais a encontrei, mas sei reconhecer uma mulherzinha interesseira! Ela sem dúvida destroçou o pobre Underhay. É uma história interessante.”

O major Porter olhou em volta bastante ansioso em busca de uma confirmação para sua asserção. Encontrou dois olhares entediados e mortiços, o olhar semiesquivo do jovem sr. Mellon e a atenção educada de monsieur Hercule Poirot.

Então um jornal farfalhou, e um homem grisalho de rosto singularmente impassível ergueu-se em silêncio de sua poltrona junto à lareira e saiu.

O queixo do major Porter caiu, e o jovem sr. Mellon assoviou baixinho.

– Dessa vez o senhor conseguiu! – ele observou. – Sabe quem era?

– Que Deus abençoe minha alma – disse o major Porter em certa agitação. – Claro. Não temos intimidade, mas somos conhecidos... Jeremy Cloade, não é, irmão de Gordon Cloade? Palavra de honra, que coisa extremamente lamentável! Se eu fizesse ideia...

– Ele é advogado – disse o jovem sr. Mellon. – Imagine se ele o processar por calúnia ou difamação de caráter ou algo assim.

O jovem sr. Mellon gostava de causar alarme e abatimento em lugares como aquele, visto que isso não era proibido pela Lei de Defesa do Reino.

O major Porter continuou a repetir de modo agitado:

– Muito lamentável. Muito lamentável!

– Vai ser o assunto em Warmsley Heath no final do dia – disse o sr. Mellon. – É o lugar que todos os Cloade frequentam. Vão ficar até tarde discutindo que ação tomar.

Mas naquele momento soou a sirene indicando o final do ataque aéreo, e o jovem sr. Mellon deixou de ser malicioso e delicadamente guiou seu amigo Hercule Poirot para a rua.

– Atmosfera terrível, esses clubes – disse ele. – A mais estrondosa coleção de velhos chatos. Todavia, Porter é disparado o pior. Sua descrição do truque indiano da corda leva 45 minutos, e ele conhece todo mundo cuja mãe um dia tenha passado por Poona!

Isso aconteceu no outono de 1944. No final da primavera de 1946, Hercule Poirot recebeu uma visita.

 

II

Hercule Poirot estava sentado à sua elegante escrivaninha numa agradável manhã de maio quando seu criado George aproximou-se e murmurou em tom respeitoso:

– Há uma dama, senhor, pedindo para vê-lo.

– Que espécie de dama? – perguntou Poirot, cauteloso.

Ele sempre apreciava a meticulosa exatidão das descrições de George.

– Eu diria que deve ter entre quarenta e cinquenta anos, senhor. Desalinhada e com um quê de artístico na aparência. Bons sapatos de caminhar, botinas. Casaco e saia de tweed... mas uma blusa de renda. Um colar questionável de contas egípcias e um lenço de chiffon azul.

Poirot estremeceu de leve.

– Não creio – disse ele – que eu deseje vê-la.

– Devo dizer a ela que o senhor está indisposto?

Poirot olhou-o, pensativo.

– Você já disse, suponho, que estou envolvido em um trabalho importante e não posso ser perturbado?

George tossiu de novo.

– Senhor, ela disse que veio especialmente do interior e não se importa com o quanto tiver que esperar.

Poirot suspirou.

– Jamais se deve lutar contra o inevitável – disse ele. – Se uma dama de meia-idade usando imitações de contas egípcias decidiu ver o famoso Hercule Poirot e veio do interior para fazê-lo, nada irá abatê-la. Ficará sentada no saguão até consegui-lo. Mande-a entrar, George.

George retirou-se, voltando logo depois para anunciar formalmente:

– Sra. Cloade.

A silhueta de tweed surrado e lenço esvoaçante entrou com um rosto radiante. Avançou para Poirot de mão estendida, com todos seus colares de contas sacudindo e tilintando.

– Monsieur Poirot – disse ela –, vim até o senhor guiada por espíritos.

Poirot pestanejou ligeiramente.

– De fato, madame. Talvez queira sentar-se e me contar...

Ele não conseguiu ir adiante.

– De ambas as formas, monsieur Poirot. Com a escrita automática e o tabuleiro ouija. Foi na noite retrasada. Madame Elvary (uma mulher maravilhosa) e eu estávamos usando o tabuleiro. Obtivemos as mesmas iniciais repetidamente. H.P. H.P. H.P. Claro que não captei o verdadeiro significado na mesma hora. Leva um pouquinho de tempo, sabe como é. Não se consegue ver com clareza nesse plano terreno. Quebrei a cabeça pensando em alguém com essas iniciais. Sabia que tinha de estar conectado com a última sessão. Realmente, uma sessão muito impactante, mas passou-se um tempo antes de eu atinar. E aí comprei um exemplar do Picture Post (orientação dos espíritos de novo, veja bem, porque geralmente compro o New Statesman) e lá estava o senhor. Uma foto sua e um relato do que o senhor havia feito. É maravilhoso, não acha, monsieur Poirot, como tudo tem um propósito? Sem dúvida o senhor é a pessoa apontada pelos Guias para elucidar essa questão.

Poirot inspecionou-a, pensativo. O mais estranho, e que realmente havia capturado sua atenção, é que ela tinha olhos azul-claros notavelmente perspicazes. Eles validavam, por assim dizer, seu método errático de abordagem.

– E o que, sra... Cloade, é esse o nome? – ele franziu o cenho. – Parece que ouvi o mesmo nome há algum tempo...

Ela assentiu com veemência.

– Meu pobre cunhado, Gordon. Tremendamente rico e mencionado pela imprensa com frequência. Foi morto no bombardeio aéreo há mais de um ano; um grande choque para todos nós. Meu marido é seu irmão mais novo. Ele é médico. Dr. Lionel Cloade... Claro – ela acrescentou – que ele não tem ideia de que estou lhe consultando. Ele não aprovaria. Médicos, tenho verificado, têm uma visão muito materialista. O espiritual parece estranhamente escondido para eles. Botam fé na ciência, mas o que eu digo é... o que é a ciência, o que ela pode fazer?

Para Hercule Poirot, parecia não haver resposta à questão a não ser uma meticulosa e esmerada descrição abrangendo Pasteur, Lister, a lâmpada de segurança de Humphry Davy, o conforto da eletricidade em casa e várias centenas de outros itens congêneres. Mas essa, naturalmente, não era a resposta que a sra. Cloade queria. De fato, sua pergunta, como tantas outras, não era realmente uma pergunta, de modo algum. Era apenas uma figura de retórica.

Hercule Poirot contentou-se em indagar de maneira prática:

– De que maneira acredita que eu possa ajudá-la, sra. Cloade?

– O senhor acredita na realidade do mundo dos espíritos, monsieur Poirot?

– Sou um bom católico – disse Poirot, cauteloso.

A sra. Cloade descartou a fé católica com um aceno e um sorriso de pena.

– Cega! A Igreja é cega... preconceituosa, tola... em não acolher a realidade e a beleza do mundo que jaz por trás deste aqui.

– Às doze horas – disse Hercule Poirot – tenho um compromisso importante.

Foi um comentário em boa hora. A sra. Cloade inclinou-se para frente.

– Devo chegar ao ponto de uma vez. Monsieur Poirot, seria possível o senhor encontrar uma pessoa desaparecida?

As sobrancelhas de Poirot ergueram-se.

– Seria possível. Sim – respondeu cautelosamente. – Mas a polícia, minha cara sra. Cloade, poderia fazê-lo com muito mais facilidade que eu. Eles têm todos os instrumentos necessários.

A sra. Cloade descartou a polícia com um aceno, assim como tinha feito com a Igreja Católica.

– Não, monsieur Poirot. É ao senhor que fui guiada... por aqueles que estão além do véu. Escute. Algumas semanas antes de morrer, meu cunhado Gordon casou-se com uma jovem viúva, uma tal sra. Underhay. Seu primeiro marido (pobre moça, que desgosto para ela) foi dado como morto na África. Um país misterioso, a África.

– Um continente misterioso – corrigiu Poirot. – Possivelmente. Qual parte...

Ela prosseguiu, impetuosa.

– África Central. A terra do vodu, dos zumbis...

– Os zumbis são das Índias Ocidentais.

A sra. Cloade continuou, ainda impetuosa.

– ...da magia negra... de práticas estranhas e secretas. Um país onde um homem pode desaparecer e nunca mais se ouvir falar dele de novo.

– É possível, é possível – disse Poirot. – Mas o mesmo é válido para Piccadilly Circus.

A sra. Cloade descartou Piccadilly Circus com um aceno.

– Em duas ocasiões recentes, monsieur Poirot, chegou a comunicação de um espírito que diz que seu nome é Robert. A mensagem foi a mesma em cada ocasião. Não está morto... Ficamos intrigados, não conhecemos nenhum Robert. Ao pedir orientação adicional, obtivemos isso: “R.U. R.U. R.U”. E depois: “Diga a R. Diga a R.” “Diga a Robert?”, perguntamos. “Não, da parte de Robert. R.U.” “O que o U. quer dizer?” Então, monsieur Poirot, veio a resposta mais significativa. “Little Boy Blue. Little Boy Blue. Ha ha ha!” Está vendo?

– Não – disse Poirot. – Não estou.

Ela olhou-o com pena.

– A canção de ninar Little Boy Blue. “Under the Haycock fast asleep.” Underhay, está vendo?

Poirot assentiu. Ele absteve-se de perguntar por que, se o nome Robert podia ser pronunciado, o nome Underhay não pôde ser tratado da mesma forma, e por que havia sido necessário recorrer a uma espécie de jargão barato de espião do serviço secreto.

– E o nome de minha cunhada é Rosaleen – concluiu a sra. Cloade de modo triunfal. – Está vendo? Confusos todos esses Rs. Mas o sentido é muito simples. “Diga a Rosaleen que Robert Underhay não está morto.”

– Arrã... e a senhora contou a ela?

A sra. Cloade pareceu ligeiramente surpresa.

– Err... bem... não. Veja bem, quero dizer... bem, as pessoas são tão céticas. Rosaleen, estou certa, também seria. E então, pobre moça, isso poderia aborrecê-la... O senhor entende, indagar-se onde ele estava e o que estava fazendo.

– Além de projetar sua voz através do éter? Certamente. Um método curioso, sem dúvida, de anunciar que se está a salvo.

– Ah, monsieur Poirot, o senhor não é um iniciado. E como vamos saber quais são as circunstâncias? O pobre capitão Underhay (ou é major Underhay?) pode ser prisioneiro em algum lugar no interior sombrio da África. Mas e se ele pudesse ser encontrado, monsieur Poirot? Se ele pudesse ser devolvido à sua querida e jovem Rosaleen? Pense na felicidade dela! Oh, monsieur Poirot, fui enviada ao senhor. Certamente, certamente o senhor não recusará o mandado do mundo espiritual.

Poirot olhou-a, ponderando.

– Meus honorários – disse ele mansamente – são muito dispendiosos. Diria que tremendamente dispendiosos! E a tarefa que a senhora sugere não seria fácil.

– Oh, claro... mas com certeza. Isso é muito lamentável. Eu e meu marido estamos em péssima situação, péssima de fato. Na verdade, meu aperto é pior do que meu marido sabe. Comprei algumas ações, por orientação espiritual, e até agora isso mostrou-se muito decepcionante. De fato, deveras alarmante. Elas despencaram e agora estão, suponho, praticamente desprovidas de liquidez.

Ela olhou-o com olhos azuis desanimados.

– Não ousei contar a meu marido. Simplesmente contei ao senhor a fim de explicar como me encontro. Mas com certeza, monsieur Poirot, reunir um marido e esposa jovens... é uma missão tão nobre...

– Nobreza, chère madame, não pagará passagens de navio, trem e avião. Nem cobrirá os custos de longos telegramas e cabogramas e de interrogatórios de testemunhas.

– Mas se ele for encontrado, se o capitão Underhay for encontrado vivo e bem, então... bem, penso poder dizer com segurança que, uma vez que isso ocorra, não haverá dificuldade em... reembolsar o senhor.

– Ah, então ele é rico, esse capitão Underhay?

– Não. Bem, não... Mas posso assegurá-lo, posso dar-lhe minha palavra... de que... de que a situação financeira não apresentará dificuldades.

Poirot sacudiu a cabeça lentamente.

– Sinto muito, madame. A resposta é não.

Ele teve pouca dificuldade em fazê-la aceitar aquela resposta.

Quando ela finalmente foi embora, ele ficou perdido em pensamentos, carrancudo. Agora lembrava por que o nome Cloade era-lhe familiar. A conversa no clube no dia do ataque aéreo voltou-lhe à mente. A enfadonha voz ribombante do major Porter seguindo adiante sem parar, contando uma história que ninguém queria escutar.

Ele lembrou do farfalhar de um jornal e do queixo subitamente caído e da expressão consternada do major Porter.

Mas o que o preocupava era tentar formar uma opinião sobre a agitada dama de meia-idade que acabara de partir. O padrão espiritualista loquaz, a imprecisão, o lenço esvoaçante, as correntes e amuletos retinindo em torno do pescoço. E, por fim, ligeiramente em discrepância com tudo isso, aquele súbito lampejo perspicaz num par de olhos azul-pastel.

– Por que exatamente ela veio me ver? – perguntou ele a si mesmo. – E o que, fico pensando, anda acontecendo em – ele olhou o cartão sobre a mesa – Warmsley Vale?

 

III

Exatamente cinco dias depois, ele viu um pequeno parágrafo num jornal matutino. Referia-se à morte de um homem chamado Enoch Arden em Warmsley Vale, uma pequena e antiga aldeia a uns cinco quilômetros do conhecido campo de golfe Warmsley Heath.

Hercule Poirot disse a si mesmo outra vez:

– Fico pensando o que anda acontecendo em Warmsley Vale...

 

[1]Warden: na Inglaterra, civil com funções especiais durante os avisos de ataque aéreo, tais como conduzir as pessoas para os abrigos. (N.T.)