Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 2 de 35

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Seguindo a Correnteza

Livro I

 

CAPÍTULO 1

 

I

Warmsley Heath consiste em um campo de golfe, dois hotéis, algumas villas modernas muito caras com vista para o campo de golfe, uma galeria que antes da guerra eram lojas de luxo e uma estação de trem.

Emergindo da estação de trem, uma via expressa abre caminho até Londres pela esquerda. À direita, há uma pequena trilha através de um campo com a placa:

Trilha para Warmsley Vale.

Warmsley Vale, escondida ao longe entre morros com mata, é tão diferente de Warmsley Heath quanto poderia ser. Em essência, é uma antiquada cidade microscópica de comércio agora degenerada em uma aldeia. Tem uma rua principal de casas georgianas, vários pubs, umas poucas lojas desprovidas de estilo e um aspecto geral de estar a 250 em vez de 45 quilômetros de Londres.

Todos os seus habitantes são unânimes no desprezo pelo célere crescimento de Warmsley Heath.

Nos arrabaldes há algumas casas encantadoras com agradáveis jardins do velho mundo. Foi para uma daquelas casas, a White House, que Lynn Marchmont retornou no começo da

primavera de 1946, quando foi desmobilizada do Wrens.[1]

Em sua terceira manhã, ela olhou pela janela do quarto através do gramado desleixado até os olmos na campina mais além e farejou o ar, feliz. Era uma tranquila manhã cinzenta com um aroma de terra macia e úmida. O tipo de aroma do qual ela havia sentido falta nos últimos dois anos e meio.

Que maravilha estar em casa de novo, que maravilha estar ali no seu quartinho, no qual ela havia pensado com tanta frequência e tanta nostalgia enquanto estava no além-mar. Que maravilha estar sem uniforme, poder meter-se em uma saia de tweed e um blusão, ainda que as traças tivessem sido bastante ativas durante os anos da guerra!

Era bom estar fora do Wrens e ser uma mulher livre outra vez, embora ela realmente tivesse gostado muito do serviço no além-mar. O trabalho havia sido razoavelmente interessante, houve festas, muita diversão, mas também um pouco da fadiga da rotina e a sensação de ser levada com seus companheiros como um rebanho, o que às vezes fazia com que se sentisse desesperadamente ansiosa por escapar.

Foi naquela época, durante o longo verão abrasador no Oriente, que ela pensou com tanta saudade em Warmsley Vale, na agradável casa fresca e arruinada e na querida mamãe.

Lynn amava sua mãe assim como se irritava com ela. Bem longe de casa, ela ainda a amava e tinha esquecido a irritação, ou lembrado apenas com uma pontada adicional de saudade. Querida mamãe, tão completamente enlouquecedora! O que ela não teria dado para ouvir mamãe enunciar um clichê em sua doce voz queixosa. Oh, estar em casa de novo e nunca, nunca ter de partir outra vez!

E agora ali estava ela, fora do serviço, livre e de volta à White House. Tinha voltado há três dias, e uma curiosa inquietação insatisfeita já se insinuava nela. Era tudo igual, quase tudo igual demais, a casa e mamãe e Rowley e a fazenda e a família. O que estava diferente e que não deveria estar era ela mesma...

– Querida... – o grito agudo da sra. Marchmont veio escada acima. – Devo levar uma bela bandeja para minha menina na cama?

Lynn berrou de modo brusco:

– Claro que não. Estou descendo.

“E por que”, pensou ela, “mamãe tem de dizer minha menina? É tão bobo!”

Ela correu escada abaixo e entrou na sala de jantar. Não era um café da manhã muito bom. Lynn já estava percebendo a proporção desmedida de tempo e interesse consumidos em busca de alimento. Exceto por uma mulher nada confiável que vinha quatro vezes por semana, a sra. Marchmont estava sozinha na casa, lutando com a cozinha e a limpeza. Ela tinha quase quarenta anos quando Lynn nasceu e sua saúde não era boa. Lynn também percebeu com certo desalento o quanto a situação financeira delas havia mudado. A pequena mas adequada renda fixa que as mantivera confortavelmente antes da guerra agora estava reduzida quase à metade pela tributação. Impostos, despesas, salários, tudo tinha subido.

– Admirável mundo novo... – pensou Lynn, carrancuda. Seus olhos pousaram ligeiramente sobre os classificados do jornal do dia.

“Ex-W.A.A.F. procura emprego que valorize iniciativa e energia.” “Ex-W.R.E.N. procura emprego que requeira capacidade de organização e autoridade.”

Espírito empreendendor, iniciativa, comando, aqueles eram os atributos oferecidos. Mas o que se queria? Gente que soubesse cozinhar e limpar, ou redigir uma taquigrafia decente. Pessoas perseverantes que dominassem uma rotina e pudessem oferecer bons serviços.

Bem, aquilo não a afetava. O caminho diante dela estava claro. Casamento com o primo Rowley Cloade. Haviam noivado há sete anos, pouco antes de a guerra estourar. Há quase tanto tempo quanto podia lembrar, ela pretendia casar-se com Rowley. A opção dele por uma vida na fazenda havia sido prontamente aceita por ela. Uma boa vida, não excitante, talvez, e com um bocado de trabalho duro, mas ambos amavam a vida ao ar livre e o cuidado com animais.

Não que as perspectivas deles fossem bem aquilo que um dia haviam sido. Tio Gordon sempre prometera que...

– Foi o golpe mais medonho para todos nós, querida Lynn, conforme lhe escrevi. Gordon estava na Inglaterra há apenas dois dias. Nós nem o tínhamos visto. Se ele apenas não tivesse ficado em Londres. Se tivesse vindo direto para cá!

II

– Sim, se apenas...

Na época Lynn havia ficado chocada e mortificada pela notícia da morte do tio, mas só agora o verdadeiro significado daquilo estava começando a tocá-la.

Por todo tempo que conseguia lembrar, a vida dela, a vida de todos eles, havia sido dominada por Gordon Cloade. O homem rico e sem filhos tinha colocado todos os parentes sob suas asas.

Até Rowley... Rowley e seu amigo Johnnie Vavasour começaram a trabalhar na fazenda em sociedade. O capital deles era pequeno, mas estavam cheios de esperança e energia. E Gordon Cloade havia aprovado.

Para ela, Gordon tinha dito mais.

– Você não consegue chegar a lugar nenhum na agricultura sem capital. Mas a primeira coisa a se descobrir é se esses rapazes realmente têm vontade e energia para dar certo nisso. Se eu os bancasse agora, não saberia, talvez por anos. Se eles tiverem a coisa certa dentro de si, se eu ficar convencido de que da parte deles está tudo certo, bem, Lynn, então você não terá que se preocupar. Vou financiá-los na medida adequada. Assim, não pense que suas perspectivas são ruins, minha garota. Você é exatamente a esposa de que Rowley precisa. Mas guarde para você o que eu lhe disse.

Bem, ela havia feito isso, mas Rowley sentira o interesse benevolente do tio. Cabia a ele provar ao velho que Rowley e Johnnie eram um bom investimento para o dinheiro.

Sim, todos eles dependiam de Gordon Cloade. Não que qualquer um da família fosse sanguessuga ou preguiçoso. Jeremy Cloade era sócio sênior de uma firma de advogados, e Lionel Cloade exercia medicina.

Mas por trás da vida de trabalho havia ao fundo a garantia reconfortante do dinheiro. Jamais houve qualquer necessidade de ser econômico ou poupar. O futuro estava assegurado. Gordon Cloade, um viúvo sem filhos, trataria disso. Ele havia dito a todos, mais de uma vez, que seria assim.

Sua irmã viúva, Adela Marchmont, permaneceu na White House quando poderia talvez ter se mudado para uma casa menor, que desse menos trabalho. Lynn frequentou escolas de primeira classe. Se não fosse a guerra, poderia ter feito qualquer tipo de curso dispendioso que lhe agradasse. Os cheques de tio Gordon entravam com regularidade confortável para proporcionar pequenos luxos.

Tudo havia sido tão acertado, tão seguro. E então sobreveio o casamento completamente inesperado de Gordon Cloade.

– Claro, querida – prosseguiu Adela –, que ficamos todos estupefatos. Se havia uma coisa que parecia totalmente certa era que Gordon jamais se casaria de novo. Veja bem, não era como se ele não tivesse laços de família suficientes.

“Sim”, pensou Lynn, “família suficiente. Às vezes, talvez, família em excesso.”

– Ele era tão gentil sempre – continuou a sra. Marchmont. – Embora talvez um pouquinho tirânico em certas ocasiões. Jamais gostou do costume de jantar em mesa nua. Sempre insistiu em que eu pusesse toalhas na mesa antiga. De fato, mandou-me as mais lindas toalhas de renda veneziana quando foi à Itália.

– Com certeza compensou aceder aos desejos dele – disse Lynn secamente. E acrescentou com certa curiosidade: – Como ele conheceu essa... segunda esposa? Você nunca me contou em suas cartas.

– Oh, minha querida, em um barco ou avião, ou coisa assim. Indo da América do Sul para Nova York, creio. Depois de todos aqueles anos! E depois de todas aquelas secretárias e datilógrafas e governantas e tudo o mais.

Lynn sorriu. Desde que ela conseguia lembrar, as secretárias, governantas e funcionárias do escritório de Gordon Cloade haviam sido submetidas ao mais rigoroso escrutínio e suspeita.

Ela perguntou, curiosa:

– Ela tem boa aparência?

– Bem, querida – disse Adela –, eu acho que ela tem um rosto deveras tolo.

– Você não é homem, mamãe!

– Claro – prosseguiu a sra. Marchmont – que a pobre garota passou pelo bombardeio e ficou em choque com a explosão e estava real e assustadoramente enferma e tudo mais, e na minha opinião ela jamais recuperou-se de verdade. Ela é um feixe de nervos, se é que você me entende. E às vezes de fato parece bem imbecil. Não creio que ela jamais pudesse ser uma grande companhia para o pobre Gordon.

Lynn sorriu. Ela duvidava de que Gordon Cloade tivesse escolhido casar-se com uma mulher anos mais moça que ele pela companhia intelectual.

– E depois, querida – a sra. Marchmont baixou a voz –, detesto dizer, mas ela não é uma dama!

– Que expressão, mamãe! O que isso importa hoje em dia?

– Ainda importa no interior, querida – disse Adela de modo plácido. – Estou dizendo apenas que ela não é exatamente uma de nós!

– Pobre coitada!

– De fato, Lynn, não sei o que você quer dizer. Todos nós tivemos o maior cuidado para sermos gentis e educados e acolhê-la entre nós em honra a Gordon.

– Ela está em Furrowbank, então? – perguntou Lynn, curiosa.

– Naturalmente que sim. Para onde mais ela iria ao sair do sanatório? Os médicos disseram que ela deve ficar fora de Londres. Está em Furrowbank com o irmão.

– Como é ele? – perguntou Lynn.

– Um rapaz medonho! – a sra. Marchmont fez uma pausa e então acrescentou com grande dose de intensidade: – Rude.

Um lampejo momentâneo de simpatia cruzou pela mente de Lynn. Pensou: “Aposto que eu seria rude no lugar dele!”

Ela perguntou:

– Como é o nome dele?

– Hunter. David Hunter. Irlandês, suponho. Claro que não são pessoas das quais se tenha ouvido falar um dia. Ela era viúva, sra. Underhay. Ninguém deseja ser severo, mas não se pode deixar de indagar que tipo de viúva seria essa para andar viajando desde a América do Sul em tempos de guerra. Sabe, não dá para deixar de achar que ela estivesse procurando um marido rico.

– Nesse caso, ela não procurou em vão – observou Lynn.

A sra. Marchmont suspirou.

– Parece muito extraordinário. Gordon sempre foi um homem tão astuto. E não que as mulheres não tentassem. A penúltima secretária, por exemplo. Deveras espalhafatosa. Era muito eficiente, creio, mas ele teve de se livrar dela.

Lynn disse em tom vago:

– Suponho que sempre haja uma Waterloo.

– Sessenta e dois – disse a sra. Marchmont. – Uma idade muito perigosa. E uma guerra, imagino, é inquietante. Mas não posso explicar o que foi o choque quando recebemos uma carta dele de Nova York.

– O que dizia exatamente?

– Ele escreveu para Frances; realmente não consigo imaginar por quê. Talvez tenha pensado que, devido à sua criação, ela fosse mais solidária. Ele disse que provavelmente ficaríamos surpresos ao saber que estava casado. Tudo havia sido muito repentino, mas ele tinha certeza de que todos nós logo gostaríamos muito de Rosaleen (um nome tão teatral, não acha, minha querida? Quer dizer, deveras fictício.). Ela teve uma vida muito triste, ele disse, e passou por muita coisa apesar de tão jovem. A forma destemida com que ela havia enfrentado a vida era realmente maravilhosa.

– Uma jogada bem conhecida – murmurou Lynn.

– Oh, eu sei. Concordo. Já se ouviu isso tantas vezes. Mas de fato era de se pensar que Gordon, com toda a sua experiência... bem, foi isso aí. Ela tem uns olhões enormes, azul-escuros, e o que chamam de halo esfumaçado ao redor da íris.

– Atraente?

– Oh, sim, ela com certeza é muito bonita. Mas não o tipo de beleza que eu admiro.

– Nunca é – disse Lynn com um sorriso de desagrado.

– Não, querida. Francamente, homens... Mas bem, não há explicações para os homens. Mesmo os mais sensatos fazem as coisas mais incrivelmente tolas! A carta de Gordon seguia dizendo que não devíamos pensar por um instante que isso significaria qualquer afrouxamento dos velhos laços. Ele ainda considerava todos nós como sua responsabilidade especial.

– Mas ele não fez um testamento depois de se casar? – perguntou Lynn.

A sra. Marchmont sacudiu a cabeça.

– O último testamento dele foi feito em 1940. Não sei de nenhum detalhe, mas na época ele deu a entender que todos nós estaríamos amparados caso lhe acontecesse alguma coisa. Aquele testamento foi revogado pelo casamento, claro. Suponho que ele faria um novo testamento quando chegasse em casa, mas não deu tempo. Ele morreu praticamente no dia seguinte ao desembarque no país.

– E então ela, Rosaleen, fica com tudo?

– Sim. O velho testamento foi invalidado pelo casamento.

Lynn ficou calada. Ela não era mais mercenária do que a maioria, mas não seria humano não se ressentir com o novo estado das coisas. Ela sentia que aquilo não era em absoluto o que Gordon Cloade teria pretendido. Ele poderia deixar o grosso de sua fortuna para a jovem esposa, mas com certeza teria feito certas provisões para a família que havia encorajado a depender dele. Muitas e muitas vezes ele havia insistido para que não economizassem, não fizessem reservas para o futuro. Ela ouvira-o dizer a Jeremy: “Você será um homem rico quando eu morrer”. Para sua mãe ele havia dito muitas vezes: “Não se preocupe, Adela. Sempre vou cuidar de Lynn, você sabe disso. E eu odiaria que você deixasse essa casa, é o seu lar. Mande todas as contas dos consertos para mim”. Ele encorajara Rowley a dedicar-se à lavoura. Havia insistido que Antony, filho de Jeremy, deveria entrar para o exército e sempre lhe deu uma bela pensão. Lionel Cloade fora encorajado a embrenhar-se em certas linhas de pesquisa médica que não eram lucrativas de imediato e a deixar sua carreira clínica arruinar-se.

Os pensamentos de Lynn foram interrompidos. De modo dramático e com lábios trêmulos, a sra. Marchmont exibiu um maço de contas.

– E olhe tudo isso – lamentou-se. – O que vou fazer? O que diabos vou fazer, Lynn? Nesta manhã o gerente do banco escreveu dizendo que estou sem fundos. Não sei como posso estar. Tenho sido tão cuidadosa. Mas parece que meus investimentos não estão rendendo o que costumavam render. Aumento de impostos, diz ele. E todas essas coisas amarelas, Seguro de Danos de Guerra ou algo assim, que se tem de pagar querendo ou não.

Lynn pegou as contas e olhou de relance. Não havia registro de extravagâncias entre elas. Troca de telhas no telhado, conserto de cercas, substituição de uma caldeira velha na cozinha, um novo cano de água. Elas somavam uma quantia considerável.

A sra. Marchmont disse em tom de lamento:

– Suponho que deva me mudar daqui. Mas para onde poderia ir? Não há uma casa pequena em lugar nenhum, simplesmente não existe algo assim. Oh, não quero preocupá-la com tudo isso, Lynn. Não quando você acaba de chegar em casa. Mas não sei o que fazer. Realmente não sei.

Lynn olhou para a mãe. Ela estava com mais de sessenta anos. Jamais fora uma mulher muito forte. Durante a guerra, havia acolhido evacuados de Londres, cozinhado e lavado para

eles, trabalhado no W.V.S.[2], feito geleias, ajudado na merenda escolar. Tinha trabalhado catorze horas por dia em contraste com a agradável vida mansa de antes da guerra. Lynn viu que agora ela estava muito perto de um colapso, exausta e com medo do futuro.

Uma raiva branda e silenciosa ergueu-se em Lynn. Ela disse lentamente:

– Essa Rosaleen não poderia... ajudar?

A sra. Marchmont corou.

– Não temos direito a nada. Absolutamente nada.

Lynn objetou.

– Acho que vocês têm um direito moral. Tio Gordon sempre ajudou.

– Não seria muito bonito, querida, pedir favores... não para alguém de quem não se gosta muito. E, de qualquer modo, aquele irmão dela não a deixaria dar um tostão!

E acrescentou, com o heroísmo dando lugar à pura maldade feminina:

– Quer dizer, isso se ele é mesmo irmão dela!

 

[1] Wrens: Women’s Royal Naval Service. (N.T.)

[2] Women’s Voluntary Service. (N.T.)