Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 27 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 9

 

Munido das necessárias credenciais de Jeremy Cloade, Poirot obteve respostas para suas perguntas. Elas foram muito precisas. A casa estava uma completa ruína. O local havia sido desobstruído apenas há bem pouco tempo nos preparativos para a reconstrução. Não houve sobreviventes com exceção de David Hunter e da sra. Cloade. Havia três criados na casa: Frederick Game, Elizabeth Game e Eileen Corrigan. Os três haviam morrido na hora. Gordon Cloade fora retirado com vida, mas havia morrido a caminho do hospital sem recobrar a consciência. Poirot pegou os nomes e endereços dos parentes mais próximos dos três criados.

– É possível – disse ele – que tenham falado aos amigos algo em tom de fofoca ou comentário que me dê uma dica para as informações de que tanto necessito.

O oficial com quem ele falava pareceu cético.

Os Game tinham vindo de Dorset; Eileen Corrigan, de County Cork.

A seguir Poirot norteou seus passos para a residência do major Porter. Ele lembrava da afirmação de Porter de que era um warden e queria saber se ele por acaso estivera de serviço naquela noite específica e se havia visto qualquer coisa do incidente em Sheffield Terrace.

Ele tinha, além disso, outros motivos para querer dar uma palavra com o major Porter.

Ao dobrar a esquina em Edgeway Street, ficou alarmado ao ver um policial de uniforme parado defronte à casa particular para onde ele rumava. Havia um círculo de meninos e outras pessoas paradas olhando para a casa. O coração de Poirot apertou-se enquanto ele interpretava os indícios.

O policial interceptou o avanço de Poirot.

– Não pode entrar aí, senhor – disse ele.

– O que aconteceu?

– Não mora na casa, não é, senhor?

Poirot sacudiu a cabeça.

– Quem o senhor desejava ver?

– Desejava ver o major Porter.

– É amigo dele, senhor?

– Não, eu não me descreveria como amigo. O que aconteceu?

– O cavalheiro deu um tiro em si mesmo, pelo que sei. Ah, cá está o inspetor.

A porta abriu-se e duas pessoas saíram. Uma era o inspetor local, a outra Poirot reconheceu: era o inspetor Graves, de Warmsley Vale. Este o reconheceu e de imediato apresentou-o para o inspetor.

– Melhor entrar – disse o inspetor.

Os três homens entraram na casa.

– Telefonaram para Warmsley Vale – explicou Graves. – E o superintendente Spence me mandou.

– Suicídio?

O inspetor respondeu:

– Sim. Parece um caso óbvio. Não sei se ter prestado testemunho no inquérito afetou sua mente. Às vezes as pessoas são estranhas a respeito disso, mas presumo que ele estivesse deprimido nos últimos tempos. Dificuldades financeiras e uma coisa e outra. Atirou com o próprio revólver.

Poirot perguntou:

– Seria permitido eu subir?

– Se quiser, monsieur Poirot. Leve monsieur Poirot lá em cima, sargento.

– Sim, senhor.

Graves foi na frente até o quarto no primeiro andar. Estava bem como Poirot se lembrava: as cores desbotadas dos tapetes velhos, os livros. O major Porter estava na poltrona grande. Sua postura era quase natural, apenas com a cabeça caída para a frente. O braço direito pendia ao lado do corpo; embaixo, no tapete, jazia o revólver. Ainda havia um leve odor pungente de pólvora no ar.

– Acham que foi há umas duas horas – disse Graves. – Ninguém ouviu o tiro. A mulher da casa estava na rua fazendo compras.

Com o cenho franzido, Poirot olhou o corpo imóvel com o pequeno ferimento chamuscado na têmpora direita.

– Alguma ideia sobre por que ele faria isso, monsieur Poirot? – perguntou Graves.

Ele era respeitoso com Poirot porque tinha visto o superintendente ser respeitoso, embora na sua opinião particular Poirot fosse um daqueles horrorosos fuçadores.

Poirot replicou em termos vagos:

– Sim. Sim, havia um motivo muito bom. Não é essa a dificuldade.

Seu olhar voltou-se para a mesinha à esquerda do major Porter. Havia um grande cinzeiro de vidro maciço sobre ela, com um cachimbo e uma caixa de fósforos. Nada ali. Seus olhos deram uma volta pela sala. Então ele foi até uma escrivaninha com tampo corrediço.

Estava bem arrumada. Os papéis guardados com capricho nos escaninhos. Um pequeno mata-borrão de couro ao centro, um porta-canetas com uma caneta e dois lápis, uma caixa de clipes para papel e um livro de selos. Tudo muito arrumado e em ordem. Uma vida ordinária e uma morte ordeira... claro, era isso... era isso que estava faltando! Poirot perguntou a Graves:

– Ele não deixou nenhum bilhete, nenhuma carta para o magistrado?

Graves sacudiu a cabeça.

– Não, não deixou... coisa que se esperaria de um ex-soldado.

– Sim, é muito curioso.

Meticuloso em vida, o major Porter não havia sido meticuloso na morte. Era completamente errado, pensou Poirot, que Porter não tivesse deixado um bilhete.

– Um golpe para os Cloade, isso – disse Graves. – Vai atrapalhá-los. Terão de ir à caça de outra pessoa que conheça Underhay intimamente.

Ele agitou-se de leve.

– Algo mais que queira ver, monsieur Poirot?

Poirot sacudiu a cabeça e seguiu Graves para fora do quarto.

Encontraram a dona da casa na escada. Ela estava nitidamente desfrutando de seu estado de agitação e no mesmo instante começou um verboso discurso. Graves afastou-se com destreza e deixou Poirot receber a enxurrada em cheio.

– Não consigo recobrar o fôlego direito. Coração, é isso. Angina do peito, minha mãe morreu disso, caiu morta enquanto cruzava Caledonian Market. Quase que eu caí dura ao encontrá-lo... oh, me deu um troço! Jamais suspeitei de nada assim, embora ele andasse desanimado há muito tempo. Preocupado com dinheiro, penso, e não comia o bastante para se manter vivo. Não que ele jamais aceitasse alguma coisinha de nós. E então ontem teve de ir até um lugar em Oastshire, Warmsley Vale, prestar testemunho em um inquérito. Aquilo afetou sua mente. Ele voltou parecendo péssimo. Zanzou por aí a noite inteira. Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Um cavalheiro assassinado e que era amigo dele, afinal de contas. Pobre coitado, isso o transtornou. Para cima e para baixo, para cima e para baixo. E enquanto eu estava fora fazendo minhas comprinhas e tendo que esperar tanto na fila do peixe... subi para ver se ele queria uma bela xícara de chá... e cá estava ele, pobre cavalheiro, o revólver caído da mão, recostado em sua cadeira. Foi um choque medonho para mim isso tudo. Tive de chamar a polícia e tudo. Onde vai parar esse mundo, é isso que pergunto.

Poirot disse lentamente:

– O mundo está se tornando um lugar difícil de se viver. Exceto para os fortes.