Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 34 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 16

 

Hercule Poirot trouxe a um ambiente trepidante de perigo o seu ambiente pessoal de anticlímax deliberado.

– A chaleira está fervendo? – ele indagou.

Rowley disse em tom fastidioso e estúpido:

– Sim, está fervendo.

– Então você faria um café, talvez? Ou chá, se for mais fácil.

Hercule Poirot tirou um lenço grande e limpo do bolso, embebeu-o em água fria, torceu-o e foi até Lynn.

– Aqui, mademoiselle, se prender isso em volta da garganta... assim. Sim, tenho um alfinete de segurança. Pronto, isso vai aliviar a dor logo.

Lynn agradeceu com um resmungo rouco. A cozinha de Long Willows, Poirot zanzando por ali... tudo aquilo tinha um ar de pesadelo para ela. Ela se sentia terrivelmente mal, sentia uma dor medonha na garganta. Levantou-se cambaleante, e Poirot conduziu-a gentilmente até uma cadeira e a colocou ali.

– Assim – disse ele, e por cima do ombro inquiriu: – O café?

– Está pronto – disse Rowley.

Ele trouxe. Poirot serviu uma xícara e a levou para Lynn.

– Olhe aqui – disse Rowley –, acho que o senhor não entendeu. Tentei estrangular Lynn.

– Tsc, tsc – disse Poirot com voz aborrecida. Parecia estar deplorando um lapso de mau gosto por parte de Rowley.

– Tenho duas mortes em minha consciência – disse Rowley. – A dela teria sido a terceira... se o senhor não tivesse chegado.

– Vamos tomar nosso café – disse Poirot – e não falar de mortes. Isso não é agradável para mademoiselle Lynn.

– Meu Deus! – disse Rowley, com os olhos arregalados para Poirot.

Lynn bebericou seu café com dificuldade. Estava quente e forte. Logo começou a sentir a garganta menos dolorida, e o estimulante começou a agir.

– Então, assim está melhor, certo? – perguntou Poirot.

Ela assentiu.

– Agora podemos falar – disse Poirot. – Quando digo isso, na verdade me refiro a eu falar.

– Quanto o senhor sabe? – perguntou Rowley em um tom fastidioso. – O senhor sabe que eu matei Charles Trenton?

– Sim – disse Poirot. – Sei disso há algum tempo.

A porta foi escancarada. Era David Hunter.

– Lynn – ele gritou. – Você não me contou...

Parou intrigado, os olhos indo de um para o outro.

– O que aconteceu com a sua garganta?

– Outra xícara – disse Poirot.

Rowley tirou uma do guarda-louça. Poirot pegou, encheu de café e entregou a David. Mais uma vez Poirot dominou a situação.

– Sente-se – disse a David. – Vamos sentar e tomar café, e vocês três vão escutar Hercule Poirot proferir uma palestra sobre crime.

Ele olhou-os e meneou a cabeça.

Lynn pensou: “Isso é algum pesadelo fantástico. Não é real!”

Parecia que os três estavam sob o controle daquele homenzinho ridículo com bigodões. Ficaram ali sentados, obedientes: Rowley, o assassino; ela, a vítima; e David, o homem que a amava. Todos segurando xícaras de café, escutando aquele homenzinho que os dominava de um jeito estranho.

– O que provoca o crime? – inquiriu Hercule Poirot numa pergunta retórica. – Essa é uma questão. Que estímulo é necessário? Qual predisposição inata deve haver? Será que todo mundo é apto para o crime, para algum crime? E o que acontece, isso é o que tenho me perguntado desde o início, o que acontece quando pessoas que estavam protegidas da vida real, de suas agressões e devastações são subitamente destituídas dessa proteção?

“Estou falando, como veem, dos Cloade. Só há um Cloade aqui, por isso posso falar com muita franqueza. Desde o início o problema me fascinou. Eis uma família cujas circunstâncias evitaram que todos se mantivessem por si. Embora cada um da família tivesse uma vida própria, uma profissão, na verdade jamais haviam escapado da sombra de um protetor benéfico. Sempre estiveram livres do medo. Viveram em segurança. Uma segurança que era antinatural, artificial. Gordon Cloade sempre esteve por trás deles.

“O que lhes digo é o seguinte: não há como saber qual é um caráter humano até a hora do teste. Para a maioria de nós, o teste chega numa fase precoce na vida. Muito cedo o homem é confrontado pela necessidade de cuidar de si, encarar perigos e dificuldades e adotar uma linha para lidar com eles. Pode ser uma linha reta, pode ser uma linha torta; qualquer que seja, um homem em geral percebe cedo na vida qual é sua natureza.

“Mas os Cloade não tiveram oportunidades de conhecer suas próprias fraquezas até o momento súbito em que se viram privados de proteção e foram forçados, mesmo que bastante despreparados, a encarar dificuldades. Uma única coisa pairava entre eles e a retomada da proteção: a vida de Rosaleen Cloade. Estou bastante convicto de que cada um dos Cloade pensou em uma ocasião ou outra: ‘Se Rosaleen morresse...’.”

Lynn estremeceu. Poirot fez uma pausa, deixando as palavras serem absorvidas, e então prosseguiu:

– O pensamento da morte, da morte dela, passou por todas as cabeças, disso estou certo. Será que o pensamento mais além, de assassinato, também passou? E será que o pensamento, em algum caso específico, foi além do pensamento e tornou-se ação?

Sem qualquer alteração na voz, ele dirigiu-se a Rowley:

– O senhor pensou em matá-la?

– Sim – disse Rowley. – No dia em que ela esteve na fazenda. Não havia mais ninguém aqui. Então pensei: “Poderia matá-la com facilidade”. Ela parecia patética. E muito bonita. Como os novilhos que envio para o mercado. Dá para ver o quanto são patéticos, mas são levados mesmo assim. Na verdade, me espantei que ela não estivesse com medo... Teria ficado, se soubesse o que se passava em minha mente... Sim, eu tinha isso na cabeça quando peguei o isqueiro dela para acender seu cigarro.

– Ela esqueceu dele, suponho. Foi assim que o senhor ficou com ele.

Rowley concordou.

– Não sei por que não a matei – disse ele, intrigado. – Pensei nisso. Daria para simular um acidente ou coisa assim.

– Não era seu tipo de crime – disse Poirot. – Essa é a resposta. O homem que o senhor matou foi morto num acesso de fúria. E o senhor na verdade não pretendia matá-lo, presumo.

– Por Deus, não. Dei um soco no queixo dele. Ele caiu de costas e bateu com a cabeça naquele guarda-fogo de mármore. Não pude acreditar quando verifiquei que ele tinha morrido.

Então ele lançou um olhar atônito súbito para Poirot:

– Como o senhor sabia disso?

– Penso – disse Poirot – que reconstruí suas ações com muita exatidão. Corrija-me se eu estiver errado. O senhor foi ao Stag, e Beatrice Lippincott contou sobre a conversa que tinha escutado. Em razão disso o senhor foi, como disse, até seu tio Jeremy Cloade, para obter a opinião dele sobre a situação como advogado. Eis que algo aconteceu lá, algo que o fez mudar de ideia a respeito de consultá-lo. Acho que sei o que foi. O senhor viu uma fotografia...

Rowley assentiu.

– Sim, estava em cima da mesa. De repente notei a semelhança. Percebi também por que o rosto do sujeito parecia tão familiar. Me dei conta de que Jeremy e Frances tinham pego algum parente dela para armar um trambique e tirar dinheiro de Rosaleen. Fiquei louco de raiva. Voltei direto para o Stag, fui até o número 5 e acusei o sujeito de ser uma fraude. Ele riu e admitiu. Disse que David Hunter viria direitinho com o dinheiro naquela noite mesmo. Fiquei louco de raiva quando percebi que minha família estava, na minha visão, me passando a perna. Chamei-o de porco e dei um soco nele. Ele caiu, como eu disse.

Houve uma pausa. Poirot perguntou:

– E então?

– Foi o isqueiro – disse Rowley devagar. – Caiu do meu bolso. Eu andava com ele por aí pretendendo devolver a Rosaleen quando a visse. Ele caiu em cima do corpo, e vi as iniciais, D.H. Era de David, não dela.

“Desde aquela festa na tia Kathie percebi... bem, não interessa. Às vezes penso que estou ficando louco... talvez eu seja um pouco louco. Primeiro Johnnie foi embora... e então a guerra... eu... eu não consigo falar sobre as coisas, mas às vezes fico cego de raiva... e agora Lynn... e esse cara. Arrastei o morto para o meio do quarto e virei-o de cara para o chão. Então peguei uma daquelas pinças de lareira pesadas... bem, não vou entrar em detalhes. Apaguei as digitais, limpei o anteparo de mármore... então atrasei os ponteiros do relógio de pulso de propósito para as 21h20 e o quebrei. Levei embora o cartão de racionamento e os documentos dele; achei que sua identidade poderia ser rastreada por meio dessas coisas. Então saí. Pareceu-me que, com a história de Beatrice sobre o que ela tinha ouvido, obviamente David levaria a culpa.

– E então – disse Poirot – o senhor foi a mim. Desempenhou uma bela comediazinha lá, não foi, pedindo que eu achasse algumas testemunhas que conhecessem Underhay? Já estava claro para mim que Jeremy Cloade havia repetido para a família a história que o major Porter contou. Durante quase dois anos toda família nutriu uma esperança secreta de que Underhay pudesse aparecer. Esse desejo influenciou a sra. Lionel Cloade em sua manipulação do tabuleiro ouija; de modo inconsciente, mas foi um acaso muito revelador.

“Eh bien, executei meu ‘truque de magia’. Me gabei por ter impressionado você, e na verdade eu que fui o completo trouxa. Sim, e lá no quarto do major Porter ele disse, após me oferecer um cigarro, ele disse ao senhor: ‘Você não, certo?’

“Como ele sabia que o senhor não fumava? Ele deveria estar conhecendo o senhor naquele momento. Imbecil que fui, deveria ter visto a verdade ali: que o senhor e o major Porter já tinham feito um pequeno acordo! Não é de espantar que ele estivesse nervoso naquela manhã. Sim, eu que fui o trouxa, eu que levei o major Porter para identificar o corpo. Mas não continuei sendo trouxa para sempre... não, não sou o trouxa agora, sou?”

Ele olhou em volta irritado e prosseguiu:

– Mas então o major Porter voltou atrás quanto ao combinado. Ele não estava disposto a ser testemunha sob juramento em um julgamento de assassinato, e a força do caso contra David Hunter dependia em grande parte da identidade do morto. Assim, o major Porter recuou.”

– Ele escreveu dizendo que não levaria aquilo adiante – disse Rowley com voz gutural. – Maldito tolo. Não viu que tínhamos ido muito longe para parar? Fui até lá para tentar meter juízo na cabeça dele. Cheguei tarde demais. Ele disse que preferia meter uma bala na cabeça a cometer perjúrio em se tratando de um caso de assassinato. A porta da frente não estava trancada, subi e o encontrei. Não posso dizer como me senti. Era como se eu fosse um assassino pela segunda vez. Se ele apenas tivesse esperado, se tivesse deixado eu conversar com ele.

– Havia um bilhete lá? – Poirot perguntou. – O senhor o levou embora?

– Sim. Agora eu estava enrolado. Podia muito bem ir até o fim. O bilhete era para o magistrado. Dizia apenas que ele havia cometido perjúrio no testemunho do inquérito. O morto não era Robert Underhay. Levei o bilhete e o destruí.

Rowley deu um murro na mesa.

– Era como um sonho ruim. Um pesadelo horrível! Eu tinha começado aquilo e tinha de ir adiante. Eu queria o dinheiro para ter Lynn. E queria que Hunter fosse enforcado. E então... não pude entender... o caso contra ele veio abaixo. Uma história sobre uma mulher. Uma mulher que esteve com Arden mais tarde. Não pude entender, ainda não consigo entender. Que mulher? Como uma mulher poderia estar lá dentro falando com Arden depois de ele estar morto?

– Não havia mulher nenhuma – disse Poirot.

– Mas, monsieur Poirot... – grasnou Lynn. – Aquela velha senhora. Ela viu a mulher. Ouviu-a.

– A-ha! – disse Poirot. – Mas o que ela viu? E o que ela ouviu? Ela viu alguém de calça comprida, com um casaco leve de tweed. Viu uma cabeça completamente enrolada em um lenço cor de laranja arrumado como um turbante, um rosto coberto de maquiagem e uma boca com batom. Viu isso sob uma luz fraca. E o que ela ouviu? Ela viu a “assanhada” escapulir de volta para o número 5 e de dentro do quarto ouviu uma voz de homem dizendo: “Saia daqui, minha garota”. Eh bien, o que ela viu foi um homem, e foi um homem que ela ouviu! Mas foi uma ideia muito engenhosa, sr. Hunter – acrescentou Poirot, voltando-se placidamente para David.

– O que quer dizer? – perguntou David em tom brusco.

– Agora é para o senhor que vou contar uma história. O senhor chega ao Stag às nove horas da noite ou por volta disso. Não vai lá para matar, mas para pagar. O que encontra? Encontra o homem que estava lhe chantageando caído no chão, assassinado de forma especialmente brutal. Consegue pensar rápido, sr. Hunter, e percebe na mesma hora que está em perigo iminente. Pelo que sabe, não foi visto entrando no Stag, e sua primeira ideia é dar o fora tão rápido quanto possível, pegar o trem das 21h30 de volta para Londres e jurar por tudo que não esteve perto de Warmsley Vale. Para pegar o trem, sua única chance é correr pelo campo. Ao fazer isso, depara inesperadamente com a srta. Marchmont e percebe também que não vai conseguir pegar o trem. Vê a fumaça dele no vale. Embora o senhor não saiba, ela também viu a fumaça, mas não percebeu de modo consciente que isso indica que o senhor não poderia pegar o trem, e quando o senhor diz que são nove e quinze, ela aceita sua afirmação sem qualquer dúvida.

“Para gravar na mente dela que o senhor pegou o trem, o senhor inventa um esquema muito engenhoso. De fato, agora é preciso planejar um esquema inteiramente novo para desviar as suspeitas de si. O senhor volta a Furrowbank, entra de mansinho com sua chave e cata um lenço de sua irmã, pega um dos batons dela, e também trata de maquiar seu rosto de maneira altamente teatral. Volta ao Stag em um horário adequado, tem sua presença gravada pela velha senhora sentada na sala Apenas para hóspedes e cujas peculiaridades são fofoca corrente no Stag. Então sobe para o número 5. Quando a ouve indo para a cama, sai para o corredor, então recua de novo para dentro às pressas, e diz em voz alta: ‘É melhor você sair daqui, minha garota’.”

Poirot fez uma pausa.

– Um desempenho muito engenhoso – observou ele.

– É verdade, David? – gritou Lynn. – É verdade?

David abriu um largo sorriso.

– Acho que sou muito bom me fazendo passar por mulher. Meu Deus, vocês tinham que ver a cara daquela górgona velha!

– Mas como você pôde estar aqui às dez horas e ainda assim telefonar para mim de Londres às onze da noite? – questionou Lynn, perplexa.

David Hunter inclinou a cabeça na direção de Poirot.

– Todas as explicações com Hercule Poirot – comentou. – O homem que sabe tudo. Como eu fiz isso?

– Muito simples – disse Poirot. – O senhor ligou da cabine pública para sua irmã no apartamento e deu certas instruções detalhadas. Às 23h04 em ponto ela fez um interurbano para Warmsley Vale, no 34. Quando a srta. Marchmont atendeu o telefone, a operadora verificou o número, sem dúvida dizendo a seguir: “Uma chamada de Londres”, ou “Vá em frente, Londres”, algo assim?

Lynn assentiu.

– Rosaleen Cloade então desligou. O senhor – Poirot virou-se para David –, observando o horário com cuidado, discou 34, completou a ligação, apertou o botão A e disse: “Londres chamando”, com uma voz levemente disfarçada, e então falou. O lapso de um ou dois minutos não seria nada estranho em um telefonema hoje em dia e seria visto pela srta. Marchmont como uma simples reconexão.

Lynn falou de forma calma:

– Então foi por isso que você ligou para mim, David.

Algo na entonação dela, calma do jeito que estava, fez David olhar para Lynn de modo penetrante.

Ele virou-se para Poirot e fez um gesto de quem se rende.

– Não resta dúvida. O senhor sabe de tudo mesmo! Para falar a verdade, fiquei morto de medo. Tinha de pensar em algo. Depois de ligar para Lynn, andei oito quilômetros até Dasleby e fui para Londres no trem leiteiro do amanhecer. Esgueirei-me para dentro do apartamento a tempo de desarrumar a cama e tomar o café da manhã com Rosaleen. Jamais me passou pela cabeça que a polícia pensaria que ela fez aquilo. E claro que eu não fazia a mais remota ideia de quem tinha assassinado o homem! Simplesmente não consegui imaginar quem poderia querer matá-lo. Tanto quanto eu podia ver, absolutamente ninguém tinha um motivo, exceto eu e Rosaleen.

– Essa – disse Poirot – foi a grande dificuldade. Motivo. Você e sua irmã tinham um motivo para matar Arden. Cada um dos membros da família Cloade tinha um motivo para matar Rosaleen.

David falou em tom ríspido:

– Ela foi morta, então? Não foi suicídio?

– Não. Foi um crime cuidadosamente premeditado e bem pensado. O brometo do pó para dormir foi substituído por morfina em uma das doses, uma mais do fundo da caixinha.

– O pó? – David franziu o cenho. – O senhor não se refere... não pode estar se referindo a Lionel Cloade?

– Oh, não – disse Poirot. – Veja bem, praticamente qualquer um dos Cloade poderia ter substituído o pó por morfina. Tia Kathie poderia ter adulterado os pós antes de eles deixarem o consultório. Rowley aqui foi a Furrowbank com ovos e manteiga para Rosaleen. A sra. Marchmont esteve lá. A sra. Jeremy Cloade também. Até Lynn Marchmont foi. E cada um tinha um motivo.

– Lynn não tinha motivo – exclamou David.

– Todos nós tínhamos motivos – disse Lynn. – É isso que o senhor quer dizer?

– Sim – disse Poirot. – É isso que tornou o caso difícil. David Hunter e Rosaleen Cloade tinham um motivo para matar Arden. Mas não o mataram. Todos vocês Cloade tinham um motivo para matar Rosaleen Cloade, e, contudo, nenhum de vocês a matou. Esse caso está e sempre esteve ao contrário. Rosaleen Cloade foi morta pela pessoa que mais tinha a perder com sua morte. – Ele virou a cabeça de leve. – O senhor a matou, sr. Hunter...

– Eu? – gritou David. – Por que nesse mundo eu mataria minha irmã?

– O senhor a matou porque não era sua irmã. Rosaleen Cloade morreu na ação inimiga em Londres há quase dois anos. A mulher que o senhor matou era uma jovem empregada doméstica, Eileen Corrigan, cuja fotografia recebi hoje da Irlanda.

Ele tirou a foto do bolso enquanto falava. Com a velocidade de um raio David arrancou-a dele, pulou até a porta, saltou por ela e, fechando-a com estrondo, foi-se. Com um rugido de fúria Rowley disparou atrás dele.

Poirot e Lynn foram deixados a sós.

Lynn gritou:

– Não é verdade. Não pode ser verdade.

– Oh, sim, é verdade. A senhorita viu parte da verdade certa vez quando imaginou que David Hunter não fosse irmão dela. Coloque a coisa ao contrário e tudo se encaixa. Essa Rosaleen era católica (a esposa de Underhay não era católica), atormentada pela consciência, loucamente devotada a David. Imagine o que ele sentiu naquela noite do bombardeio, a irmã morta, Gordon Cloade morrendo, toda aquela nova vida de facilidade e dinheiro arrancada dele, e então vê essa moça, da mesmíssima idade, a única sobrevivente exceto ele, atordoada e inconsciente. Sem dúvida ele já tinha um caso com ela e não tinha dúvida de que podia fazê-la agir como quisesse. Ele leva jeito com as mulheres – Poirot acrescentou secamente sem olhar para Lynn, que ficou vermelha.

“Ele é um oportunista e agarra sua chance de fazer fortuna. Identifica-a como sua irmã. Ela recobra a consciência e o encontra à cabeceira da cama. Ele a persuade e induz para que assuma o papel. Mas imagine a consternação deles quando chega a primeira carta da chantagem. O tempo todo eu me perguntava: “Hunter é realmente um homem do tipo que se deixa chantagear com tanta facilidade?”. Parecia também que ele de fato não sabia ao certo se o homem que o chantageava era ou não Underhay. Mas como poderia não saber ao certo? Rosaleen Cloade poderia dizer na mesma hora se aquele homem era seu marido ou não. Por que mandá-la para Londres às pressas antes de que tivesse chance de pôr os olhos no homem? Porque... só poderia haver uma razão: porque ele não podia se arriscar a que o homem pusesse os olhos nela. Se o homem fosse Underhay, não deveria descobrir que Rosaleen Cloade não era Rosaleen Cloade coisa nenhuma. Não, só havia uma coisa a fazer. Pagar o suficiente para manter o chantagista quieto e então dar no pé... ir para a América.

“E então o inesperado: o chantagista desconhecido é assassinado, e o major Porter o identifica como Underhay. Nunca na vida David Hunter esteve mais entalado! Pior ainda, a garota está começando a desmoronar. Sua consciência está cada vez mais ativa. Ela mostra sinais de colapso mental. Mais cedo ou mais tarde ela vai confessar, revelar a coisa toda, torná-lo passível de processo criminal. Além disso, ele considera as exigências dela em relação a ele cada vez mais maçantes. Ele se apaixonou pela senhorita. Então decide reduzir as perdas. Eileen deve morrer. Ele substitui por morfina uma das doses do pó prescrito a ela pelo dr. Cloade, insiste para que ela tome uma dose toda noite, sugere-lhe temores sobre a família Cloade. David Hunter não será suspeito, visto que a morte da irmã significa que o dinheiro volta para os Cloade. Esse era seu trunfo: falta de motivo. Como eu disse, esse caso sempre esteve ao avesso.”

A porta abriu-se, e o superintendente Spence entrou.

– Eh bien? – perguntou Poirot em tom brusco.

Spence respondeu:

– Tudo certo. Nós o pegamos.

Lynn perguntou em voz baixa:

– Ele... disse alguma coisa?

– Disse que tinha aproveitado muito... Engraçado – acrescentou o superintendente – como eles sempre falam na hora errada... Nós o avisamos, claro. Mas ele disse: “Deixe disso, homem. Sou um jogador... mas sei quando perdi a última cartada”.

Poirot murmurou:

– Há uma maré nos assuntos dos homens que, quando pega na cheia, conduz à fortuna... Sim, a maré enche... mas também vaza... e pode levá-lo embora para o mar.