Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 18 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 17

 

O superintendente Spence olhou o Shepherd’s Court, Mayfair, antes de transpor seu agradável portal. Situado modestamente na vizinhança de Shepherd Market, era discreto, dispendioso e circunspecto.

Lá dentro, os pés de Spence afundaram no tapete fofo e grosso. Havia um canapé forrado de veludo e uma jardineira cheia de plantas floridas. Diante dele, um pequeno elevador automático, com um lance de escadas ao lado. À direita do saguão havia uma porta com a placa Escritório. Spence abriu-a e entrou. Viu-se em uma saleta com um balcão atrás do qual havia uma mesa, uma máquina de escrever e duas cadeiras. Uma estava próxima à mesa; a outra, mais decorativa, fora colocada em ângulo com a janela. Não havia ninguém à vista.

Ao ver uma campainha embutida no balcão de mogno, Spence apertou-a. Como nada aconteceu, apertou-a de novo. Cerca de um minuto depois, abriram uma porta na parede mais afastada e uma pessoa resplandecente de uniforme surgiu. A aparência era de um general estrangeiro ou possivelmente marechal de campo, mas o linguajar era de Londres, e da Londres iletrada ainda por cima.

– Pois não, senhor?

– A sra. Gordon Cloade.

– Terceiro andar, senhor. Devo interfonar primeiro?

– Ela está aqui, não? – perguntou Spence. – Pensei que pudesse estar no interior.

– Não, senhor, ela está aqui desde o último sábado.

– E o sr. David Hunter?

– O sr. Hunter está aqui também.

– Não esteve fora?

– Não, senhor.

– Ele estava aqui na noite passada?

– Muito bem – disse o marechal de campo, tornando-se subitamente agressivo. – Para que tudo isso? Quer saber a história da vida de todo mundo?

Sem dizer nada, Spence mostrou seu distintivo. Na mesma hora o marechal de campo murchou e tornou-se cooperativo.

– Sinto muito mesmo – ele disse. – Não podia saber, podia?

– E então, o sr. Hunter estava aqui ontem à noite?

– Sim, senhor, estava. Pelo menos creio que estivesse. Isto é, ele não disse que ia sair.

– Você saberia se ele saísse?

– Bem, de modo geral, não. Não creio que soubesse. Cavalheiros e damas em geral avisam se não vão estar aqui. Dão instruções sobre cartas ou o que querem que se diga caso alguém telefone.

– As ligações telefônicas passam por este escritório?

– Não, a maioria dos apartamentos tem linhas próprias. Um ou dois preferem não ter telefone, então avisamos pelo interfone, e as pessoas descem e falam da cabine no saguão.

– Mas o apartamento da sra. Cloade tem telefone?

– Sim, senhor.

– E pelo que você sabe os dois estavam aqui ontem à noite?

– Isso mesmo.

– E quanto às refeições?

– Há um restaurante, mas a sra. Cloade e o sr. Hunter não o utilizam com frequência. Em geral saem para jantar.

– Café da manhã?

– É servido nos apartamentos.

– Você pode verificar se foi servido café da manhã para eles hoje?

– Sim, senhor. Posso verificar com o serviço de quarto.

Spence assentiu com a cabeça.

– Vou subir agora. Me informe quando eu descer.

– Muito bem, senhor.

Spence entrou no elevador e apertou o botão para o terceiro andar. Havia apenas dois apartamentos por andar. Spence tocou a campainha do número 9.

David Hunter abriu. Ele não conhecia o superintendente e falou em tom brusco.

– Bem, o que é isso?

– Sr. Hunter?

– Sim.

– Superintendente Spence, da Polícia do Condado de Oastshire. Posso dar uma palavrinha com o senhor?

– Desculpe, superintendente – ele sorriu. – Pensei que fosse um vendedor. Entre.

Ele o conduziu para uma sala moderna e encantadora. Rosaleen Cloade estava junto à janela e se virou quando eles entraram.

– Superintendente Spence, Rosaleen – disse Hunter. – Sente-se, superintendente. Aceita uma bebida?

– Não, obrigado, sr. Hunter.

Rosaleen havia inclinado a cabeça de leve. Então sentou-se de costas para a janela, as mãos unidas com força sobre o colo.

– Fuma? – David ofereceu cigarros.

– Obrigado – Spence pegou um cigarro, esperou... Observou David enfiar a mão num bolso, tirá-la, franzir o cenho, olhar em volta e pegar uma caixa de fósforos. Riscou um e acendeu o cigarro do superintendente.

– Obrigado, senhor.

– Bem – disse David à vontade, enquanto acendia o seu cigarro. – O que há de errado em Warmsley Vale? Nossa cozinheira andou lidando com o mercado negro? Ela nos serve uma comida maravilhosa, e sempre me indaguei se haveria alguma história sinistra por trás.

– É bem mais grave do que isso – disse o superintendente. – Um homem morreu no Stag na noite passada. Talvez você tenha visto nos jornais.

David sacudiu a cabeça.

– Não, não reparei. O que houve com ele?

– Ele não morreu apenas. Foi morto. Sua cabeça foi esmagada, na verdade.

Uma exclamação semissufocada partiu de Rosaleen. David disse depressa:

– Por favor, superintendente, não se estenda em nenhum detalhe. Minha irmã é frágil. Ela não consegue evitar; se o senhor mencionar sangue e outros horrores, ela provavelmente vai desmaiar.

– Sinto muito – disse o superintendente. – Mas não há nada a se falar sobre sangue. Contudo, por certo foi assassinato.

Ele fez uma pausa. As sobrancelhas de David arquearam-se. Ele disse de modo suave:

– O senhor despertou meu interesse. Onde entramos nisso?

– Esperamos que o senhor seja capaz de nos dizer algo sobre esse homem, sr. Hunter.

– Eu?

– O senhor foi visitá-lo na noite de sábado passado. Seu nome, ou o nome sob o qual ele se registrou, era Enoch Arden.

– Sim, claro. Agora estou lembrado.

David fumou lentamente, sem se constranger.

– E então, sr. Hunter?

– Bem, superintendente, temo não poder ajudá-lo. Não sei quase nada sobre o homem.

– O nome dele era realmente Enoch Arden?

– Duvido muito.

– Por que você foi vê-lo?

– Apenas uma daquelas histórias de má sorte de sempre. Ele mencionou certos lugares, experiências de guerra, pessoas – David deu de ombros. – Apenas conversa para conseguir dinheiro, temo eu. A coisa toda era bastante espúria.

– O senhor deu algum dinheiro a ele?

Houve uma pequena pausa, e então David disse:

– Apenas cinco libras, para dar sorte. Ele com certeza esteve na guerra.

– Ele mencionou certos nomes que o senhor... conhecesse?

– Sim.

– Um desses nomes era capitão Robert Underhay?

Finalmente ele tinha causado efeito. David enrijeceu-se. Por trás dele, Rosaleen deu um pequeno grito abafado de medo.

– O que o faz pensar nisso, superintendente? – David enfim perguntou. Seus olhos eram cautelosos, perscrutadores.

– Informação recebida – disse o superintendente, impassível.

Houve um breve silêncio. O superintendente sentia os olhos de David estudando-o, avaliando-o, esforçando-se para saber... Ele esperou calmamente.

– Alguma ideia de quem seja Robert Underhay, superintendente? – perguntou David.

– Suponho que o senhor vá me dizer.

– Robert Underhay foi o primeiro marido de minha irmã. Ele morreu na África há alguns anos.

– Tem certeza disso, sr. Hunter? – Spence logo perguntou.

– Certeza. É isso, não, Rosaleen? – ele virou-se para ela.

– Oh, sim – ela falou rapidamente e sem respirar – Robert morreu de febre, malária severa. Foi muito triste.

– Às vezes circulam histórias que não são bem verdade, sra. Cloade.

Ela não disse nada. Não estava olhando para ele, mas para o irmão. Então, depois de um momento, falou:

– Robert está morto.

– Pelas informações de que disponho – disse o superintendente –, entendo que esse homem, Enoch Arden, alegava ser amigo do falecido Robert Underhay e ao mesmo tempo informou-lhe, sr. Hunter, que Robert Underhay estava vivo.

David sacudiu a cabeça.

– Bobagem – disse ele. – A mais completa bobagem.

– O senhor afirma categoricamente que o nome de Robert Underhay não foi mencionado?

– Ah – David sorriu com encanto –, foi mencionado. O pobre sujeito disse que havia conhecido Underhay.

– Não houve nenhuma tentativa de... extorsão, sr. Hunter?

– Extorsão? Não entendo, superintendente.

– Não mesmo, sr. Hunter? A propósito, apenas como questão de formalidade, onde o senhor estava na noite passada, entre, digamos, sete e onze horas?

– Apenas como questão de formalidade, superintendente, suponha que me recuse a responder.

– Não está se comportando de modo um tanto infantil, sr. Hunter?

– Não penso que esteja. Não gosto, nunca gostei de ser intimidado.

O superintendente pensou que aquilo provavelmente era verdade.

Ele havia encontrado testemunhas do tipo de David Hunter antes. Testemunhas que obstruíam as investigações apenas por obstruir, e nem de leve porque tivessem algo a esconder. O simples fato de serem solicitadas a relatar suas idas e vindas parecia despertar nelas um orgulho negro e teimosia. Fariam questão de causar à lei toda dificuldade que pudessem.

O superintendente Spence, embora se orgulhasse de ser um homem imparcial, tinha chegado a Shepherd’s Court com uma firme convicção de que David Hunter era um assassino.

Agora, pela primeira vez, não estava tão certo. A puerilidade do desafio de David despertou dúvidas nele.

Spence olhou para Rosaleen Cloade. Ela reagiu na mesma hora.

– David, por que não conta a ele?

– Está certa, sra. Cloade. Queremos apenas esclarecer as coisas...

David interrompeu de modo selvagem:

– Pare de intimidar a minha irmã, está ouvindo? O que lhe interessa onde estive, aqui, ou em Warmsley Vale ou em Timbuctu?

Spence disse em tom de advertência:

– O senhor será intimado no inquérito, sr. Hunter, e lá terá de responder as perguntas.

– Pois vou esperar pelo inquérito! E agora, superintendente, dê o fora daqui, sim?

– Muito bem, senhor – o superintendente ergueu-se, imperturbável. – Mas tenho algo a pedir à sra. Cloade primeiro.

– Não quero minha irmã preocupada.

– Que seja. Mas quero que ela olhe o corpo e me diga se pode identificá-lo. Estou nos meus direitos quanto a isso. Precisará ser feito mais cedo ou mais tarde. Por que não deixá-la vir comigo agora e acabar com isso? Uma testemunha ouviu o finado sr. Arden dizer que conhecia Robert Underhay. Portanto, ele pode ter conhecido a sra. Underhay. E, por conseguinte, a sra. Underhay pode conhecê-lo. Se o nome dele não é Enoch Arden, poderíamos com isso saber qual é, na verdade.

Rosaleen levantou-se de forma um tanto inesperada.

– Eu irei, é claro – disse ela.

Spence esperou um novo ataque de David, mas para sua surpresa o outro riu.

– Muito bem, Rosaleen – disse ele. – Confesso, eu mesmo estou curioso. Afinal de contas, você pode ser capaz de dar nome ao sujeito.

Spence disse a ela:

– A senhora não o viu em Warmsley Vale?

Ela sacudiu a cabeça.

– Estou em Londres desde o último domingo.

– E Arden chegou na sexta de noite, sim.

Rosaleen perguntou:

– O senhor quer que eu vá agora?

Ela fez a pergunta com algo da submissão de uma garotinha. A despeito de si mesmo, o superintendente ficou favoravelmente impressionado. Havia uma docilidade, uma boa vontade nela que ele não esperava.

– Seria muita gentileza de sua parte, sra. Cloade – disse ele. – Quanto antes pudermos estabelecer certos fatos, melhor. Lamento não ter um carro da polícia aqui.

David foi para o telefone.

– Vou ligar para a locadora Daimler. Está fora do limite legal, mas espero que o senhor possa ajeitar isso, superintendente.

– Creio que possa ser arranjado, sr. Hunter.

Ele levantou-se.

– Estarei esperando vocês lá embaixo.

Desceu de elevador e abriu a porta do escritório mais uma vez.

O marechal de campo estava à espera.

– Bem?

– Ambas as camas foram usadas na noite passada, senhor. Chuveiros e toalhas usados. O café da manhã foi servido a eles no apartamento às nove e meia.

– E você não sabe a que horas o sr. Hunter chegou ontem à noite?

– Temo não poder lhe dizer nada além disso, senhor.

“Bem, era isso aí”, pensou Spence. Indagou-se se haveria alguma coisa por trás da recusa de David em falar exceto puro desafio infantil. Ele deve perceber que uma acusação de assassinato paira sobre ele. Com certeza deve ver que quanto mais cedo contar sua história, melhor. Nunca é bom antagonizar com a polícia. “Mas antagonizar com a polícia”, pensou ele com pesar, “era justo o que David Hunter gostaria de fazer.”

Conversaram muito pouco no caminho. Quando chegaram ao necrotério, Rosaleen Cloade estava muito pálida. Suas mãos tremiam. David olhou para ela preocupado. Falou com Rosaleen como se fosse uma criancinha:

– Vai ser apenas um minuto ou dois, minha querida. Não é nada de mais, absolutamente nada. Não fique nervosa. Você vai entrar com o superintendente e eu vou esperá-la. E não há nada com o que se preocupar. Ele vai parecer pacífico e como se estivesse apenas adormecido.

Ela fez um pequeno sinal afirmativo com a cabeça e estendeu a mão. Ele a apertou de leve.

– Seja uma garota corajosa agora.

Enquanto seguia o superintendente, ela disse com sua voz suave:

– O senhor deve pensar que sou uma terrível covarde, superintendente. Mas quando todos são mortos numa casa... todos mortos menos você... naquela noite medonha em Londres...

Ele disse de modo gentil:

– Entendo, sra. Cloade. Sei que a senhora passou por uma experiência ruim durante o bombardeio, quando seu marido foi morto. Realmente vai levar apenas um minuto ou dois.

A um sinal de Spence, o lençol foi virado. Rosaleen Cloade ficou olhando o homem que se chamava de Enoch Arden. Spence, parado discretamente de um lado, na verdade estava observando-a nos mínimos detalhes.

Ela olhou o morto com curiosidade e como se especulasse. Não se sobressaltou, não manifestou nenhum sinal de emoção ou reconhecimento, apenas olhou longa e especulativamente para ele. Então, muito calmamente, de uma forma quase prosaica, fez o sinal da cruz.

– Deus conceda descanso à sua alma – disse ela. – Jamais vi esse homem na minha vida. Não sei quem é ele.

Spence pensou consigo mesmo: “Ou você é uma das melhores atrizes que já conheci, ou então está falando a verdade”.

Mais tarde, Spence ligou para Rowley Cloade.

– Estive com a viúva há pouco – disse ele. – Ela diz que aquele definitivamente não é Robert Underhay e que nunca o viu antes. De modo que isso estabelece isso!

Houve uma pausa. Então Rowley perguntou lentamente:

– Isso estabelece isso?

– Creio que um júri acreditaria nela. Na ausência de prova em contrário, claro.

– Si-sim – disse Rowley, e desligou.

Então, franzindo o cenho, ele pegou a lista telefônica, não a local, mas a de Londres. Seu dedo indicador percorreu a letra P metodicamente. Ele logo achou o que queria.