Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 19 de 35

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Seguindo a Correnteza

Livro II

 

CAPÍTULO 1

 

I

Hercule Poirot dobrou cuidadosamente o último dos jornais que havia mandado George comprar. As informações que ofereciam eram de certo modo pobres. A evidência médica havia determinado que o crânio do homem fora fraturado por uma série de golpes pesados. O inquérito havia sido suspenso por duas semanas. Solicitava-se que qualquer um que pudesse dar informações sobre um homem chamado Enoch Arden, que se acreditava ter vindo da Cidade do Cabo recentemente, contatasse o Chefe de Polícia de Oastshire.

Poirot depositou os jornais em uma pilha bem feita e entregou-se à meditação. Ele estava interessado. Poderia quem sabe ter passado pelo primeiro parágrafo sem se interessar, não fosse a recente visita da sra. Lionel Cloade. Porém, aquela visita fez com que recordasse com muita clareza os incidentes daquele dia, no clube, durante o bombardeio aéreo. Ele lembrou muito nitidamente da voz do major Porter dizendo: “Talvez um sr. Enoch Arden apareça em algum lugar a mil milhas de distância ou algo assim e comece uma vida nova”. Ele agora queria muito saber mais sobre o homem chamado Enoch Arden que havia morrido de forma violenta em Warmsley Vale.

Lembrou que conhecia vagamente o superintendente Spence, da polícia de Oastshire, e que o jovem Mellon vivia não muito longe de Warmsley Heath e conhecia Jeremy Cloade.

Enquanto pensava em telefonar para o jovem Mellon, George veio anunciar que um sr. Rowland Cloade gostaria de vê-lo.

– A-ha! – disse Hercule Poirot com satisfação. – Faça-o entrar.

Um rapaz de boa aparência e ar preocupado entrou e pareceu bastante desnorteado sobre como começar.

– Bem, sr. Cloade – disse Poirot solícito –, o que posso fazer pelo senhor?

Rowley Cloade fitava Poirot bastante em dúvida. Os bigodes vistosos, a elegância de alfaiataria, as polainas brancas e os sapatos bicudos de verniz enchiam aquele rapaz provinciano de receios evidentes.

Poirot percebeu isso perfeitamente bem, e de certo modo achou divertido.

Rowley Cloade começou de maneira um tanto lerda:

– Temo que terei de explicar quem sou e tudo isso. O senhor não conhece meu nome...

Poirot interrompeu-o:

– Pois sim, conheço seu nome perfeitamente. Veja só, sua tia veio me ver na semana passada.

– Minha tia?

O queixo de Rowley caiu. Ele olhou Poirot com o mais completo espanto. Aquilo era tão claramente uma novidade para ele que Poirot deixou de lado sua primeira suposição, de que as duas visitas estivessem conectadas. Por um momento, pareceu-lhe uma notável coincidência que dois membros da família Cloade decidissem consultá-lo dentro de um período de tempo tão curto, mas um segundo depois percebeu que não era coincidência, apenas uma sequência natural oriunda de uma causa inicial única.

Ele disse em voz alta:

– Presumo que a sra. Lionel Cloade seja sua tia.

Rowley pareceu ainda mais espantado que antes. Ele disse, com a mais completa incredulidade:

– Tia Kathie? Com certeza... o senhor não quis dizer... sra. Jeremy Cloade?

Poirot sacudiu a cabeça.

– Mas o que nesse mundo tia Kathie...

Poirot murmurou em tom discreto:

– Ela veio a mim, creio, por orientação espiritual.

– Oh, Deus! – disse Rowley.

Ele pareceu aliviado e divertido. Disse, como que para tranquilizar Poirot:

– Ela é totalmente inofensiva.

– Fico pensando... – disse Poirot.

– Como assim?

– Será que alguém é... em algum momento... totalmente inofensivo?

Rowley arregalou os olhos. Poirot suspirou.

– O senhor veio me solicitar algo? Pois não? – Poirot instigou com gentileza.

O olhar preocupado voltou ao rosto de Rowley.

– Temo que seja uma longa história...

Poirot também temia. Ele tinha a impressão muito perspicaz de que Rowley Cloade não era o tipo de pessoa que vai ao ponto depressa. Recostou-se e semicerrou os olhos quando Rowley começou:

– Meu tio, veja bem, era Gordon Cloade...

– Sei tudo sobre Gordon Cloade – disse Poirot, solícito.

– Bom. Então não preciso explicar. Ele casou-se poucas semanas antes de morrer... uma jovem viúva chamada Underhay. Desde a morte dele, ela vive em Warmsley Vale... ela e um irmão. Todos acreditávamos que o primeiro marido dela tinha morrido de febre na África. Mas agora parece que pode não ter sido assim.

– Ah... – Poirot sentou-se. – E o que o levou a essa suposição?

Rowley descreveu a chegada do sr. Enoch Arden em Warmsley Vale.

– Talvez o senhor tenha visto nos jornais…

– Sim, vi – Poirot foi solícito outra vez.

Rowley prosseguiu. Descreveu sua primeira impressão de Arden, sua visita ao Stag, a carta que recebeu de Beatrice Lippincott e por fim a conversa que Beatrice ouviu.

– Claro – disse Rowley – que não se pode ter certeza do que ela ouviu. Ela pode ter exagerado um pouco. Ou mesmo ter entendido errado.

– Ela contou a história à polícia?

Rowley confirmou com a cabeça.

– Falei para ela que seria melhor.

– Não vejo bem... me desculpe... por que o senhor veio a mim, sr. Cloade. Quer que eu investigue esse... assassinato? Pois é um assassinato, presumo.

– Por Deus, não – disse Rowley. – Não quero nada desse tipo. Isso é trabalho da polícia. Ele foi eliminado com certeza. Não, estou atrás do seguinte: quero que o senhor descubra quem era o sujeito.

Os olhos de Poirot estreitaram-se.

– Quem o senhor acha que ele era, sr. Cloade?

– Bem, quer dizer... Enoch Arden não é um nome. É uma citação, ora. Tennyson. Fui estudar isso. O cara volta e descobre que sua esposa casou-se com outro homem.

– Então o senhor acha – disse Poirot calmamente – que Enoch Arden era Robert Underhay?

Rowley disse devagar:

– Bem, poderia ser. Quer dizer, pela idade certa e aparência e tudo mais. Claro que repassei tudo com Beatrice várias vezes. Ela naturalmente não consegue lembrar com exatidão o que ambos disseram. O camarada disse que Robert Underhay estava mal de vida e com a saúde ruim e precisava de dinheiro. Bem, ele poderia estar falando de si mesmo, não? Parece ter dito algo sobre não convir a David Hunter que Underhay aparecesse em Warmsley Vale, soando um pouco como se ele estivesse lá sob um nome fictício.

– Qual evidência de identificação houve no inquérito?

– Nada definido. Apenas as pessoas do Stag dizendo que ele era o homem que havia chegado lá e se registrado como Enoch Arden.

– E os documentos dele?

– Não tinha nenhum.

– O quê? – Poirot sentou-se surpreso. – Nenhum documento de espécie alguma?

– Absolutamente nada. Algumas meias extras, uma camisa, uma escova de dentes etc. Mas nada de documentos.

– Nenhum passaporte? Nem cartas? Nem mesmo um cartão de racionamento?

– Absolutamente nada.

– Isso – disse Poirot – é muito interessante. Sim, muito interessante.

Rowley prosseguiu:

– David Hunter, o irmão de Rosaleen, foi vê-lo na noite após sua chegada. A história dele para a polícia é que recebeu uma carta do sujeito dizendo que era amigo de Robert Underhay e estava em má situação. A pedido da irmã, foi ao Stag, viu o sujeito e deu cinco libras a ele. Essa é a história dele, e pode apostar que ele pretende sustentá-la! Claro que a polícia está mantendo sigilo sobre o que Beatrice ouviu.

– David Hunter disse que não tinha prévio conhecimento do homem?

– Isso é o que ele diz. De qualquer modo, deduzo que Hunter jamais encontrou-se com Underhay.

– E quanto a Rosaleen Cloade?

– A polícia pediu-lhe para olhar o corpo, para o caso de ela conhecer o homem. Ela disse que se tratava de um completo estranho.

– Eh bien – disse Poirot. – Então isso responde sua pergunta!

– Responde? – disse Rowley de forma rude. – Penso que não. Se o morto é Underhay, então Rosaleen jamais foi esposa de meu tio e não tem direito a um tostão do dinheiro dele. O senhor acha que ela iria reconhecê-lo sob tais circunstâncias?

– Não confia nela?

– Não confio em nenhum deles.

– Sem dúvida existe bastante gente que poderia dizer com certeza se o morto é ou não é Underhay.

– Não parece tão fácil assim. É isso que quero que o senhor faça. Descubra alguém que conheça Underhay. Aparentemente ele não possui parentes vivos no país. E sempre foi um cara do tipo solitário e reservado. Suponho que deva haver velhos criados, amigos, alguém... mas a guerra arrebentou com tudo e deslocou as pessoas. Eu não saberia por onde começar a tratar dessa missão... de todo modo, não tenho tempo. Sou fazendeiro e tenho poucos empregados.

– Por que eu? – perguntou Hercule Poirot.

Rowley pareceu embaraçado.

Um leve lampejo surgiu no olhar de Poirot.

– Orientação espiritual? – murmurou.

– Por Deus, não – disse Rowley horrorizado. – Na verdade – ele hesitou – ouvi um cara que conheço falar do senhor, disse que é um gênio nesse tipo de coisa. Não sei sobre seus honorários... caros, presumo... Somos um grupo falido, mas arrisco dizer que poderíamos nos cotizar. Isto é, se o senhor aceitar.

Hercule Poirot disse lentamente:

– Sim, acho que talvez possa ajudá-lo.

Sua memória, uma memória muito precisa e exata, retrocedeu. O chato do clube, os jornais farfalhantes, a voz monótona.

O nome... ele tinha ouvido o nome... voltaria em pouco tempo à lembrança dele. Se não, poderia perguntar a Mellon... Não, conseguiu. Porter. Major Porter.

Hercule Poirot levantou-se.

– Voltará para lá hoje à tarde, sr. Cloade?

– Bem... não sei. Sim, suponho que volte. Mas por certo o senhor não pode fazer nada em tão pouco tempo.

Ele olhava Poirot com pasmo e incredulidade. Poirot não seria humano se tivesse resistido à tentação de se exibir. Tendo em mente a recordação de um brilhante predecessor, disse em tom solene:

– Tenho meus métodos, sr. Cloade.

Era sem dúvida a coisa certa a dizer. A expressão de Rowley tornou-se respeitosa ao extremo.

– Sim. Claro. Realmente... Não sei como vocês fazem essas coisas.

Poirot não esclareceu a ele. Quando Rowley se foi, ele sentou-se e escreveu um bilhetinho. Entregou-o a George, instruindo-o para levá-lo ao Coronation Club e esperar uma resposta.

A resposta foi altamente satisfatória. O major Porter apresentava seus cumprimentos a monsieur Poirot e ficaria feliz em encontrar-se com ele e seu amigo na Edgeway Street, 79, Campden Hill, às cinco horas daquela tarde.

 

II

Rowley reapareceu às quatro e meia.

– Teve sorte, monsieur Poirot?

– Mas claro, sr. Cloade, iremos nos encontrar agora com um velho amigo do capitão Robert Underhay.

– O quê?

Rowley ficou de boca aberta. Arregalou os olhos para Poirot com o assombro que um garotinho demonstra quando um mágico tira coelhos da cartola.

– Mas isso é incrível! Não entendo como consegue fazer essas coisas... nossa, em apenas algumas horas.

Poirot fez um gesto depreciativo e tentou parecer modesto. Não tinha a intenção de revelar a simplicidade com que seu truque de magia havia sido feito. Impressionar aquele Rowley ingênuo satisfazia sua vaidade.

Os dois homens saíram juntos, chamaram um táxi e foram a Campden Hill.

 

III

O major Porter ocupava o primeiro andar de uma casinha em mau estado. Foram recebidos por uma mulher jovial de aspecto desarrumado que os conduziu para cima. Era uma sala quadrada com prateleiras ao redor e algumas gravuras desportivas bastante ruins. Havia dois tapetes no chão; bons tapetes de adorável coloração pálida, mas muito surrados. Poirot reparou que o centro do piso estava coberto com verniz novo e espesso, ao passo que o verniz perto dos cantos estava velho e desgastado. Ele notou que até bem pouco tempo havia outros tapetes melhores; tapetes que valiam um bom dinheiro hoje em dia. Olhou o homem parado ereto junto à lareira em seu traje puído e bem-talhado. Poirot imaginou que para o major Porter, oficial aposentado do exército, a vida estivesse restrita quase ao essencial. Os impostos e o aumento do custo de vida atingiam com mais força os velhos soldados. Ele intuiu que o major Porter se agarraria a algumas coisas até o fim. Ser membro do clube, por exemplo.

O major Porter estava falando aos trancos:

– Temo não estar lembrado de tê-lo encontrado, monsieur Poirot. No clube, o senhor disse? Há uns dois anos? Conheço-o de nome, é claro.

– Este – disse Poirot – é o sr. Rowland Cloade.

O major Porter deu um solavanco com a cabeça em honra à apresentação.

– Como vai? – disse. – Temo não poder oferecer-lhes uma taça de xerez. Acontece que meu vendedor de vinhos perdeu o estoque no bombardeio. Tenho um gim. Coisa asquerosa, sempre penso. Ou que tal uma cerveja?

Aceitaram cerveja. O major Porter veio com uma cigarreira.

– Fuma?

Poirot aceitou um cigarro. O major riscou um fósforo e acendeu o cigarro de Poirot.

– Você não, eu sei – disse o major para Rowley. – Importa-se se eu acender meu cachimbo?

Porter acendeu o cachimbo com uma boa quantidade de tragadas e baforadas.

– E então? – perguntou o major quando todas essas preliminares estavam concluídas. – De que se trata?

Ele olhou de um para o outro.

Poirot disse:

– Talvez o senhor tenha lido nos jornais sobre a morte de um homem em Warmsley Vale.

Porter sacudiu a cabeça.

– Posso ter lido. Não creio.

– O nome dele era Arden. Enoch Arden.

Porter sacudiu a cabeça de novo.

– Foi encontrado no Stag Inn com a parte de trás da cabeça esmagada.

Porter franziu o cenho.

– Deixe-me ver... sim, li algo a respeito, creio. Uns dias atrás.

– Sim. Tenho uma fotografia aqui. É uma foto de jornal e não está muito nítida, creio eu. O que gostaríamos de saber, major Porter, é se o senhor alguma vez já viu esse homem.

Ele alcançou a melhor reprodução que conseguiu encontrar do rosto do homem.

O major Porter pegou-a e franziu o cenho.

– Espere um pouco.

O major pegou seus óculos, ajustou-os no nariz e estudou a fotografia mais de perto. Então teve um sobressalto repentino.

– Valha-me Deus! – disse ele. – Com todos os diabos!

– Conhece o homem, major?

– Claro que conheço! É Underhay. Robert Underhay.

– Tem certeza disso? – havia triunfo na voz de Rowley.

– Claro que tenho certeza. Robert Underhay! Juro por qualquer coisa.