Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 23 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 5

 

– Temia que fizessem isso – disse o magistrado em tom de desculpas. – Preconceito local! Emoção em vez de lógica.

O magistrado, o chefe de polícia, o superintendente Spence e Hercule Poirot estavam reunidos em conferência após o inquérito.

– O senhor fez o máximo – disse o chefe de polícia.

– É prematuro, para dizer o mínimo – falou Spence, franzindo o cenho. – E nos tolhe. O senhor conhece monsieur Hercule Poirot? Ele foi decisivo na apresentação de Porter.

O magistrado disse em tom afável:

– Ouvi falar do senhor, monsieur Poirot.

Poirot fez uma tentativa fracassada de parecer modesto.

– Monsieur Poirot está interessado no caso – disse Spence com um sorriso largo.

– É verdade, é isso mesmo – afirmou Poirot. – Eu estava nele, pode-se dizer, antes que houvesse um caso.

E em resposta aos olhares interessados, ele contou sobre a pequena cena bizarra no clube quando ouviu pela primeira vez uma menção ao nome de Robert Underhay.

– Esse será um fator adicional ao testemunho de Porter quando o caso for a julgamento – disse o chefe de polícia, pensativo. – Underhay de fato planejou uma morte fingida. E falou em usar o nome Enoch Arden.

O chefe de polícia murmurou:

– Ah, mas isso será admitido como evidência? Palavras de um homem que agora está morto?

– Pode não ser admissível como evidência – disse Poirot, ponderando. – Mas levanta uma linha de raciocínio muito interessante e sugestiva.

– O que nós queremos – falou Spence – não são sugestões, mas uns poucos fatos concretos. Alguém que realmente tenha visto David Hunter no Stag ou perto dali na noite de terça-feira.

– Deve ser fácil – disse o chefe de polícia, com a testa franzida.

– Se fosse no meu país seria bem fácil – afirmou Poirot. – Haveria um pequeno café onde alguém toma o café da noite... mas na Inglaterra provincial! – ele jogou as mãos para o alto.

O superintendente concordou.

– Algumas pessoas vão aos pubs e ficam lá até a hora do fechamento, e o resto da população fica dentro de casa escutando o noticiário das nove horas. Se você anda pela rua principal daqui entre nove e meia e dez da noite, está completamente deserta. Nenhuma viva alma.

– Ele contava com isso? – sugeriu o chefe de polícia.

– Talvez – disse Spence. Sua expressão não estava feliz.

Em seguida, o chefe de polícia e o magistrado foram embora. Spence e Poirot ficaram a sós.

– O senhor não gosta do caso, não é? – perguntou Poirot, solidário.

– Aquele rapaz me preocupa – disse Spence. – Ele é do tipo com o qual nunca dá para saber em que pé se está. Quando é o mais inocente em algum negócio, age como se fosse culpado. E, quando é culpado, ora, você juraria que é um anjo celestial!

– O senhor acha que ele é culpado? – perguntou Poirot.

– O senhor não acha? – contrapôs Spence.

Poirot estendeu as mãos.

– Estou interessado em saber – disse ele – quanto exatamente o senhor tem contra ele.

– Não em termos legais? Em termos de probabilidade?

Poirot assentiu.

– Temos o isqueiro – disse Spence.

– Onde o encontraram?

– Embaixo do corpo.

– Digitais nele?

– Nenhuma.

– Ah – disse Poirot.

– Sim – disse Spence. – Também não gosto muito disso. E o relógio do homem morto parou às 21h20. Isso se encaixa bastante bem com a evidência médica. E com a evidência de Rowley Cloade de que Underhay esperava seu cliente a qualquer momento. Presume-se que o cliente estivesse quase chegando.

Poirot assentiu.

– Sim, tudo muito arrumadinho.

– E a coisa que não sai de minha cabeça, monsieur Poirot, é que ele é a única pessoa (ele e sua irmã, quero dizer) com um vislumbre ou sombra de motivo. Ou David Hunter matou Underhay, ou então Underhay foi morto por alguém de fora que o seguiu até aqui por alguma razão que desconhecemos. E isso parece uma loucura improvável.

– Oh, concordo, concordo.

– Veja, não há ninguém em Warmsley Vale que possivelmente tivesse um motivo. A menos que por coincidência alguém (além dos Hunter) que esteja morando aqui tivesse uma conexão com Underhay no passado. Jamais excluo coincidências, mas não houve um indício ou sugestão de nada desse tipo. O homem era um estranho para todo mundo, exceto para o irmão e a irmã.

Poirot assentiu.

– Para a família Cloade, Robert Underhay seria a menina dos olhos a ser mantida viva com a máxima precaução possível. Robert Underhay vivinho significava a certeza de uma enorme fortuna dividida entre eles.

– Outra vez, mon ami, concordo entusiasticamente com o senhor. Robert Underhay vivinho é do que a família Cloade precisa.

– Assim, lá voltamos nós: Rosaleen e David Hunter são as duas únicas pessoas que têm um motivo. Rosaleen Cloade estava em Londres. Mas David, sabemos, estava em Warmsley Vale naquele dia. Ele chegou às cinco e meia da tarde.

– Então agora temos o motivo bem claro, e temos o fato de que das cinco e meia em diante até alguma hora não determinada, ele estava no local.

– Exatamente. Agora vamos pegar a história de Beatrice Lippincott. Acredito naquela história. Ela ouviu o que disse que ouviu, embora possa ter exagerado um pouco, o que é simplesmente humano.

– Simplesmente humano, como o senhor diz.

– Além de conhecer a moça, acredito nela porque não poderia ter inventado algumas coisas. Ela jamais tinha ouvido falar de Robert Underhay antes, por exemplo. Por isso, acredito na história dela sobre o que se passou entre os dois homens, e não na de David Hunter.

– Eu também – disse Poirot. – Ela me impressiona como uma testemunha singularmente confiável.

– Temos confirmação de que a história dela é verdadeira. Para que o senhor supõe que o irmão e a irmã foram a Londres?

– Essa é uma das coisas que mais me interessa.

– Bem, a situação do dinheiro é a seguinte: Rosaleen Cloade dispõe apenas de usufruto vitalício dos bens de Gordon Cloade. Ela não pode tocar no capital, exceto, creio, umas mil libras. Mas joias etc. são dela. A primeira coisa que ela fez ao ir para a cidade foi levar algumas das peças mais valiosas para Bond Street e vendê-las. Ela queria uma grande soma em dinheiro depressa. Em outras palavras, precisava pagar um chantagista.

– O senhor chama isso de evidência contra David Hunter?

– O senhor não?

Poirot sacudiu a cabeça.

– Evidência de que havia chantagem, sim. Evidência de intenção de cometer assassinato, não. Não se pode ter as duas coisas, mon cher. Ou aquele rapaz ia pagar, ou então estava planejando matar. O senhor obteve evidência de que ele planejava pagar.

– Sim. Sim, talvez seja assim. Mas ele pode ter mudado de ideia.

Poirot deu de ombros.

– Conheço o tipo dele – disse o superintendente, pensativo. – É um tipo que se saiu bem na guerra. Coragem física além de qualquer medida. Audácia e um descaso imprudente em relação à segurança pessoal. O tipo que encara qualquer adversidade. É o tipo com possibilidades de ganhar a Cruz da Vitória; embora, veja bem, com frequência seja póstuma. Sim, em tempos de guerra, um homem assim é um herói. Mas na paz, bem, na paz esses homens em geral acabam na prisão. Gostam de excitação, não conseguem andar na linha e não dão a mínima para a sociedade. E, por fim, não têm consideração pela vida humana.

Poirot assentiu.

– Estou dizendo – repetiu o superintendente –, eu conheço o tipo.

Houve alguns minutos de silêncio.

– Eh bien – enfim disse Poirot. – Concordamos que temos aqui o tipo de um assassino. Mas isso é tudo. Não nos leva adiante.

Spence olhou para ele, curioso.

– O senhor está realmente interessado neste assunto, monsieur Poirot?

– Sim.

– Por quê? Posso perguntar?

– Francamente – Poirot estendeu as mãos –, não sei bem. Talvez seja porque quando, há dois anos, eu estava sentado muito mal do estômago (pois não gosto de ataques aéreos e não sou muito bravo, embora me esforce para fazer uma cara boa), quando, como disse, eu estava sentado com uma sensação ruim aqui – Poirot agarrou o estômago de um jeito expressivo –, no salão de fumar do clube do meu amigo, lá estava o chato do clube, o bom major Porter, falando de forma cansativa, recontando uma história comprida que ninguém escutava, exceto eu; eu escutava porque desejava me distrair das bombas e porque os fatos que ele relatava me pareciam interessantes e sugestivos. E pensei comigo mesmo que um dia algo poderia resultar da situação que ele relatava.

– O inesperado aconteceu, hein?

– Pelo contrário – corrigiu Poirot. – Foi o esperado que aconteceu. O que em si é notável o bastante.

– O senhor esperava um assassinato? – perguntou Spence, cético.

– Não, não, não! Mas uma esposa casou-se de novo. Possibilidade de que o primeiro marido ainda estivesse vivo? Ele estava vivo. Ele poderia aparecer? Ele apareceu! Poderia haver chantagem. Houve chantagem! Possibilidade, portanto, de que o chantagista fosse silenciado? Ma foi, ele foi silenciado!

– Bem – disse Spence, fitando Poirot com bastante dúvida. – Suponho que essas coisas estejam bem próximas do modelo. É um tipo comum de crime, chantagem que resulta em assassinato.

– Nada de interessante, o senhor diria? Em geral não. Mas esse caso é interessante porque, veja – disse Poirot placidamente –, está tudo errado.

– Tudo errado? O que quer dizer com tudo errado?

– Nada disso está, como direi, no feitio correto.

Spence arregalou os olhos.

– O inspetor-chefe Japp – comentou ele – sempre disse que o senhor tinha uma mente tortuosa. Me dê um exemplo do que chama de errado.

– Bem, o morto, por exemplo; ele está todo errado.

Spence sacudiu a cabeça.

– O senhor não sente isso? – perguntou Poirot. – Oh, bem, talvez eu seja fantasista. Então pegue esta parte. Underhay chega ao Stag. Escreve para David Hunter. Hunter recebe a carta na manhã seguinte. Na hora do café da manhã?

– Sim, isso. Admitiu ter recebido a carta de Arden nessa hora.

– Essa foi a primeira insinuação da chegada de Underhay em Warmsley Vale, não foi? Qual a primeira coisa que Hunter faz? Despacha a irmã para Londres!

– Isso é bem compreensível – disse Spence. – Ele queria liberdade total para tratar das coisas do seu jeito. Pode temer que a mulher fraquejasse. Ele é o espírito de liderança, lembre-se. A sra. Cloade está inteiramente sob seu domínio.

– Oh, sim, isso se revela de modo evidente. Assim, ele a manda para Londres e visita o tal Enoch Arden. Temos um relato bastante claro da conversa por meio de Beatrice Lippincott, e o que salta aos olhos, como se diz, é que David Hunter não tinha certeza de que o homem com quem estava falando era Robert Underhay. Ele suspeitava disso, mas não sabia.

– Mas não há nada de estranho nisso, monsieur Poirot. Rosaleen Hunter casou-se com Underhay na Cidade do Cabo e foi com ele direto para a Nigéria. Hunter e Underhay nunca se encontraram. Portanto, como o senhor diz, embora Hunter suspeitasse que Arden fosse Underhay, ele não podia saber ao certo, pois nunca encontrou-se com o homem.

Poirot olhou para o superintendente, pensativo.

– Então não há nada que o impressione como... peculiar? – perguntou.

– Sei onde o senhor quer chegar. Por que Underhay não disse logo que era Underhay? Bem, penso que isso também seja compreensível. Pessoas respeitáveis que fazem alguma vigarice gostam de manter as aparências. Gostam de colocar as coisas de tal forma que se mantenham limpas, se é que me entende. Não, não acho que isso seja muito notável. O senhor tem de levar em conta a natureza humana.

– Sim – disse Poirot. – Natureza humana. Essa, penso, é talvez a verdadeira resposta de por que estou interessado nesse caso. Estava olhando ao redor na corte de inquérito, olhando todas as pessoas, olhando em especial os Cloade, tantos deles, todos ligados por um interesse comum, todos de personalidades, pensamentos e sentimentos tão diferentes. Todos dependentes por muitos anos do homem forte, do poderoso da família, de Gordon Cloade! Não quero dizer diretamente dependentes, quem sabe. Todos tinham meios independentes de sustento. Mas todos acabaram, devem ter acabado, de forma consciente ou inconsciente, se apoiando nele. E vou lhe perguntar o seguinte, superintendente: o que acontece à hera quando o carvalho em que se agarra é abatido?

– Essa não é uma questão que me interesse muito – disse Spence.

– Acha que não? Pois eu acho que é. Caráter, mon cher, não se mantém inalterado. Pode adquirir vigor. Também pode se deteriorar. Aquilo que uma pessoa realmente é só fica aparente quando vem o teste, ou seja, no momento em se fica firme sobre os próprios pés ou se tomba.

– Realmente não entendo onde o senhor está querendo chegar, monsieur Poirot – Spence parecia atônito. – De qualquer modo, os Cloade estão bem agora. Ou vão estar, tão logo as formalidades legais sejam cumpridas.

Poirot lembrou-o de que isso poderia levar algum tempo.

– Ainda há o testemunho da sra. Gordon Cloade a ser descartado. Afinal de contas, uma mulher deve reconhecer seu marido quando o vê.

Ele virou a cabeça um pouco de lado e fitou o superintendente de modo inquiridor.

– Não valeria a pena para uma mulher não reconhecer seu marido se a renda de alguns milhões de libras depender disso? – perguntou o superintendente, sendo cínico. – Além disso, se não era Robert Underhay, por que ele foi morto?

– Essa – murmurou Poirot – é de fato a questão.