Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 6 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 5

 

– David, quando voltaremos para Londres? Quando iremos para a América?

David Hunter lançou um rápido olhar surpreso para Rosaleen através da mesa do café da manhã.

– Não há pressa, não é? O que há de errado com esse lugar?

Ele passou os olhos pela sala onde tomavam café, apreciando-a. Furrowbank havia sido construída na encosta de um morro, e das janelas tinha-se uma vista ininterrupta da sonolenta zona rural inglesa. No declive do gramado haviam sido plantados milhares de narcisos. Eles estavam quase acabando, mas ainda restava um lençol de flores douradas.

Esfarelando a torrada no prato, Rosaleen murmurou:

– Você disse que iríamos para a América. Logo. Assim que pudesse ser arranjado.

– Sim, mas na realidade não dá para se arranjar isso com tanta facilidade. Existem prioridades. Nem você nem eu temos qualquer motivo profissional para apresentar. As coisas são sempre difíceis depois de uma guerra.

Ele sentiu-se levemente irritado consigo mesmo enquanto falava. Os motivos que expôs, embora bem genuínos, soavam como desculpa. Indagou-se se soavam dessa maneira para a garota sentada diante dele. E por que de repente ela estava tão interessada em ir para a América?

Rosaleen murmurou:

– Você disse que ficaríamos aqui por pouco tempo. Não disse que iríamos morar aqui.

– O que há de errado com Warmsley Vale? E Furrowbank? O que foi?

– Nada. São eles. Todos eles!

– Os Cloade?

– Sim.

– É com isso que me divirto – disse David. – Gosto de ver as caras presunçosas deles consumidas pela inveja e despeito. Não fique ressentida com minha diversão, Rosaleen.

Ela disse com voz embargada:

– Gostaria que você não sentisse isso. Não gosto disso.

– Tenha um pouco de coragem, garota. Fomos maltratados o bastante, você e eu. Os Cloade tiveram uma vida mansa. Mansa. Viveram às custas do grande irmão Gordon. Pulgas pequenas em uma pulga maior. Odeio esses tipos. Sempre odiei.

Ela disse, chocada:

– Não gosto de odiar pessoas. É perverso.

– Você não acha que eles odeiam você? Foram gentis com você? Amigáveis?

Ela falou sem certeza:

– Não foram grosseiros. Não me fizeram nenhum mal.

– Mas gostariam de fazer, lindinha. Gostariam – ele riu de modo despreocupado. – Se eles não tomassem tanto cuidado com a própria pele, você seria encontrada com uma faca nas costas em uma manhã dessas.

Ela tremeu.

– Não diga essas coisas pavorosas.

– Bem, talvez não uma faca. Estricnina na sopa.

Ela fitou-o com os olhos arregalados, a boca trêmula.

– Você está brincando...

Ele ficou sério de novo.

– Não se preocupe, Rosaleen. Vou cuidar de você. Eles vão ter de se ver comigo.

Tropeçando nas palavras, ela disse:

– Se o que você diz é verdade... sobre eles nos odiarem... me odiarem... por que não vamos para Londres? Estaríamos a salvo lá, longe de todos eles.

– O interior é bom para você, garota. Você sabe que estar em Londres lhe deixa doente.

– Isso foi quando as bombas estavam lá... as bombas – ela tremeu, fechou os olhos. – Nunca vou esquecer. Nunca...

– Sim, vai – ele pegou-a com gentileza pelos ombros, sacudiu-a de leve. – Saia disso, Rosaleen. Você sofreu um choque terrível, mas já passou. Não há mais bombas. Não pense nisso. Não lembre. O médico prescreveu ar do campo e vida no campo por um bom tempo. É por isso que tento mantê-la afastada de Londres.

– É por causa disso mesmo, David? Pensei que... talvez...

– Pensou o quê?

Rosaleen disse devagar:

– Pensei que talvez fosse por causa dela que você quisesse ficar aqui...

– Dela?

– Você sabe a quem me refiro. A garota da outra noite. A que estava no Wrens.

O rosto dele ficou subitamente sombrio e severo.

– Lynn? Lynn Marchmont.

– Ela significa alguma coisa para você, David.

– Lynn Marchmont? Ela é a garota de Rowley. O bom e velho Rowley-que-fica-em-casa. Aquele bovino obtuso bem apessoado.

– Observei você conversando com ela naquela noite.

– Oh, Rosaleen, pelo amor de Deus.

– E você a viu desde então, não viu?

– Encontrei-a perto da fazenda numa manhã dessas quando saí para cavalgar.

– E vai encontrá-la de novo.

– Claro que vou estar sempre encontrando com ela! Esse lugar é minúsculo. Você não consegue dar dois passos sem tropeçar em um Cloade. Mas você está enganada se acha que tenho uma queda por Lynn. É uma garota desagradável, orgulhosa, convencida e de língua afiada. Desejo que o velho Rowley seja feliz com ela. Não, Rosaleen, minha menina, ela não faz meu tipo.

Ela perguntou:

– Tem certeza, David?

– Claro que tenho certeza.

Ela disse meio timidamente:

– Sei que você não gosta que eu coloque cartas... Mas as coisas acontecem, acontecem mesmo. Apareceu uma garota que traria problemas e tristeza, uma garota vinda do além-mar. Apareceu um moreno estranho, também, entrando em nossas vidas e trazendo perigo com ele. Apareceu a carta da morte e...

– Você e seus morenos estranhos! – David riu. – Mas que poço de superstição que você é! Não se meta em tratativas com nenhum moreno estranho, esse é meu conselho.

David saiu de casa rindo, mas, quando estava longe, seu rosto anuviou-se e ele ficou carrancudo, murmurando para si mesmo:

– Azar o seu, Lynn. Chega em casa do exterior e causa transtornos.

E naquele exato instante ele percebeu que estava tomando de propósito um rumo no qual esperava encontrar a garota que acabara de criticar brutalmente.

Rosaleen observou-o afastar-se caminhando pelo jardim e sair pelo portãozinho que dava para uma trilha pública através dos campos. Então subiu para o quarto e olhou as roupas no armário. Ela sempre apreciava tocar e sentir seu novo casaco de vison. E pensar que ela seria dona de um casaco daqueles... ela nunca superou de vez o espanto por causa disso. Estava no quarto quando a copeira veio dizer que a sra. Marchmont havia chegado.

Adela estava sentada na sala de visitas com os lábios muito apertados e o coração batendo no dobro da velocidade normal. Vinha se enchendo de coragem há dias para fazer um pedido a Rosaleen, mas havia adiado, como era de sua natureza. Também tinha ficado atônita ao verificar que a atitude de Lynn havia mudado de forma inexplicável e que agora ela era rigidamente contrária à ideia de a mãe buscar alívio para suas ansiedades pedindo um empréstimo à viúva de Gordon.

Entretanto, outra carta do gerente do banco naquela manhã levou a sra. Marchmont à ação. Ela não podia demorar mais. Lynn saiu cedo, e a sra. Marchmont avistou David Hunter caminhando pela trilha, de modo que a área estava livre. Ela desejava encontrar Rosaleen a sós, sem David, julgando com acerto que Rosaleen sozinha seria uma missão muito mais fácil.

Embora estivesse terrivelmente nervosa enquanto esperava na sala de visitas ensolarada, sentiu-se um pouquinho melhor quando Rosaleen chegou com o que a sra. Marchmont sempre considerou seu “ar de burra” mais pronunciado que de costume.

“Fico me perguntando”, pensou Adela consigo mesma, “se a explosão fez isso ou se ela sempre foi assim.”

Rosaleen gaguejou.

– Oh, b-bo-bom dia. Aconteceu alguma coisa? Sente-se.

– Que manhã adorável – disse a sra. Marchmont, radiante. – Todas as minhas tulipas temporãs se abriram. E as suas?

A garota fitou-a com olhar vago.

– Não sei.

“O que se faz”, pensou Adela, “com alguém que não fala sobre jardinagem ou cães, os temas infalíveis em conversas rurais?”

Em voz alta ela disse, incapaz de evitar a pontada de acidez que se infiltrou na entonação:

– Claro, você tem muitos jardineiros; eles tratam disso tudo.

– Creio que estamos com pouca gente. O velho Mullard quer mais dois homens, diz ele. Mas ainda parece haver uma terrível escassez de mão de obra.

As palavras saíram como uma espécie de papagaiada, muito parecida com a fala de uma criança que repete o que ouviu um adulto dizer.

Sim, ela era como uma criança. Seria esse o seu charme? – indagou-se Adela. Era isso que havia atraído o prático e sagaz empresário Gordon Cloade e o deixado cego para a estupidez e falta de estirpe dela? Afinal de contas, não podia ser apenas pela aparência. Muitas mulheres bonitas tinham usado seus truques para atraí-lo sem sucesso.

Mas infantilidade, para um homem de 62 anos, poderia ser um atrativo. Aquilo era, podia ser, real? Ou era uma fachada, uma fachada que tinha dado certo e assim se tornado uma segunda natureza?

Rosaleen estava dizendo:

– David saiu, temo que...

E as palavras fizeram a sra. Marchmont voltar a si. David poderia voltar. Sua chance era agora, e ela não devia deixar passar. As palavras empacaram na garganta, mas ela botou-as para fora.

– Queria saber... se você me ajudaria.

– Ajudá-la?

Rosaleen pareceu surpresa, sem compreender.

– Eu... as coisas estão muito difíceis... veja bem, a morte de Gordon fez uma grande diferença para todos nós.

E pensou: “Sua tola idiota. Você vai continuar com essa cara de embasbacada para mim? Você sabe a que me refiro! Você deve saber a que me refiro. Afinal de contas, você mesma foi pobre...”

Ela odiou Rosaleen naquele momento. Odiou-a porque ela, Adela Marchmont, estava ali sentada pedindo dinheiro. Pensou: “Não posso fazer isso... no fim das contas, não posso fazer”.

Em um único breve instante todas as longas horas de pensamentos e preocupação e planejamentos vagos passaram de novo por sua mente de relance.

Vender a casa. (Mas se mudar para onde? Não havia casas pequenas no mercado; com certeza não casas baratas.) Aceitar hóspedes. (Mas não se consegue ter empregados. E ela simplesmente não conseguiria, ela não conseguiria lidar com a cozinha e todo o trabalho doméstico envolvido. Se Lynn ajudasse... mas Lynn ia se casar com Rowley.) Morar com Lynn e Rowley? (Não, ela jamais faria isso!) Conseguir um emprego. Que emprego? Quem queria uma mulher idosa sem capacitação e esgotada?

Ela ouviu sua própria voz, beligerante por desprezar a si mesma.

– Refiro-me a dinheiro – disse ela.

– Dinheiro? – disse Rosaleen.

Ela soou ingenuamente surpresa, como se dinheiro fosse a última coisa que ela esperasse ser mencionada.

Adela prosseguiu, obstinada, as palavras saindo aos tropeções:

– Estou no negativo no banco e com contas atrasadas... consertos na casa... e os impostos ainda não foram pagos. Veja bem, tudo foi reduzido à metade... minha renda, quero dizer. Suponho que sejam os impostos. Gordon costumava ajudar, sabe. Com a casa, quero dizer. Fazia todos os consertos e o telhado e a pintura e coisas desse tipo. E dava uma pensão também. Depositava no banco a cada trimestre. Sempre disse para eu não me preocupar, e é claro que não me preocupei. Quer dizer, estava tudo bem enquanto ele era vivo, mas agora...

Ela parou. Estava envergonhada, mas ao mesmo tempo aliviada. Afinal, o pior havia passado. Se a garota recusasse, teria recusado e era isso.

Rosaleen parecia muito desconfortável.

– Oh, querida – disse ela. – Eu não sabia. Nunca pensei que... eu... bem, claro, perguntarei a David...

Agarrando ferozmente os braços da cadeira, Adela disse em desespero:

– Você não poderia dar um cheque... agora?...

– Sim... sim, creio que poderia.

Parecendo sobressaltada, Rosaleen levantou-se, foi até a mesa. Procurou em vários escaninhos e enfim achou um talão de cheques.

– Seria... quanto?

– Seriam... seriam quinhentas libras – interrompeu Adela.

– Quinhentas libras – escreveu Rosaleen, obediente.

Adela teve um peso retirado das costas. No fim das contas, tinha sido fácil! Ela ficou consternada ao constatar que sua gratidão era menor do que o leve desdém pela facilidade de sua vitória. Rosaleen com certeza era estranhamente simplória.

A moça ergueu-se da escrivaninha e veio até ela. Estendeu o cheque de modo desajeitado. O embaraço agora parecia inteiramente da parte dela.

– Espero que assim esteja bem. Realmente sinto muito...

Adela pegou o cheque. A letra infantil e disforme espalhava-se de forma irregular pelo papel cor-de-rosa. Sra. Marchmont. Quinhentas libras. £500. Rosaleen Cloade.

– É muita bondade sua, Rosaleen. Obrigada.

– Oh, por favor... quer dizer... eu deveria ter imaginado...

– Muita bondade sua, minha cara.

Com o cheque na bolsa, Adela Marchmont sentiu-se uma mulher diferente. A moça tinha sido realmente um doce. Seria embaraçoso prolongar a entrevista. Deu adeus e partiu. No caminho passou por David, deu bom-dia de maneira agradável e seguiu adiante, apressada.