Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 29 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 11

 

Na manhã seguinte, o superintendente Spence usou quase as mesmas palavras de Frances:

– Estamos de volta ao ponto de partida – disse ele com um suspiro. – Temos de descobrir quem de fato era esse camarada Enoch Arden.

– Isso eu posso lhe contar, superintendente – disse Poirot. – O nome dele era Charles Trenton.

– Charles Trenton! – o superintendente assoviou. – Hum! Um dos Trenton... suponho que ela o meteu nisso... a sra. Jeremy, quero dizer... Contudo, não devemos ser capazes de provar a conexão dela com isso. Charles Trenton? Parece que lembro...

Poirot assentiu.

– Sim. Ele tem ficha.

– Foi o que pensei. Se bem me lembro, aplicava golpes em hotéis. Chegava no Ritz, comprava um Rolls, com direito a testá-lo por uma manhã, rodava no Rolls por todas as lojas mais caras e comprava coisas... e posso garantir que um homem que tem um Rolls à espera na porta para levar suas compras para o Ritz não tem os cheques questionados! Além do mais, ele tinha atitude e educação. Ficava por cerca de uma semana e então, quando começavam a surgir suspeitas, desaparecia de mansinho, vendendo de barbada para uns conhecidos os vários artigos que havia comprado. Charles Trenton... hum... – Ele olhou para Poirot. – O senhor descobre coisas, não?

– Como vai seu caso contra David Hunter?

– Teremos de soltá-lo. Havia uma mulher com Arden naquela noite. Não dependemos apenas da palavra daquela megera velha. Jimmy Pierce estava indo para casa, tinha sido expulso do Load of Hay, ele fica brigão depois de uns canecos. Viu uma mulher sair do Stag e entrar na cabine telefônica na frente do correio; isso foi logo depois das dez da noite. Disse que não era ninguém que ele conhecesse, pensou que fosse alguém que estivesse no Stag. “Uma vadia de Londres”, foi como ele a definiu.

– Ele não estava muito próximo dela?

– Não, do outro lado da rua. Quem diabos era ela, monsieur Poirot?

– Ele disse como ela estava vestida?

– Casaco de tweed, disse ele, lenço cor de laranja em torno da cabeça. Calças compridas e um monte de maquiagem. Combina com a descrição da velha senhora.

– Sim, combina – Poirot franziu o cenho.

Spence perguntou:

– Bem, quem era ela, de onde veio, para onde foi? O senhor sabe como é nosso serviço de trens. O último trem para Londres é o das 21h30, e o das 22h03 que vem de lá. Será que essa mulher ficou por aí a noite toda e pegou o das 6h28 da manhã? Será que tinha um carro? Pediu carona? Andamos atrás por tudo... mas sem resultados.

– E o das 6h28?

– Está sempre lotado, na maioria por homens, contudo. Penso que teriam reparado em uma mulher... quer dizer, nesse tipo de mulher. Suponho que ela pudesse ter vindo e ido de carro, mas um carro é notado em Warmsley Vale hoje em dia. Estamos fora da estrada principal, como você sabe.

– Nenhum carro foi visto na rua naquela noite?

– Só o do dr. Cloade. Ele tinha saído a trabalho, lá para os lados de Middlingham. É de se pensar que alguém teria reparado em uma mulher estranha num carro.

– Não precisa ser uma estranha – disse Poirot com lentidão. – Um homem levemente bêbado e a uns cem metros de distância poderia não reconhecer uma pessoa que não conheça muito bem. Alguém quem sai vestido de um jeito diferente da sua forma habitual.

Spence olhou para ele com um ar interrogativo.

– Esse jovem Pierce reconheceria, por exemplo, Lynn Marchmont? Ela esteve fora por alguns anos.

– Lynn Marchmont estava na White House com a mãe naquela hora – disse Spence.

– O senhor tem certeza?

– A sra. Lionel Cloade, aquela doidivanas, a esposa do médico, disse que telefonou para ela às 22h20. Rosaleen Cloade estava em Londres. A sra. Jeremy... bem, jamais a vi de calças e ela não usa muita maquiagem. De todo modo, não é jovem.

– Oh, mon cher – Poirot inclinou-se à frente. – Em uma noite sombria, com iluminação pública fraca, dá para ver juventude ou idade debaixo de uma máscara de maquiagem?

– Olhe aqui, Poirot – disse Spence –, onde o senhor está querendo chegar?

Poirot recostou-se e semicerrou os olhos.

– Calças compridas, casaco de tweed, um lenço cor de laranja envolvendo a cabeça, uma grande quantidade de maquiagem, um batom caído no chão. É sugestivo.

– Acho que o senhor é o oráculo de Delfos – resmungou o superintendente. – Não que eu saiba o que seja o oráculo de Delfos... daquelas coisas que o jovem Graves dá ares de conhecer... não ajuda em nada no seu trabalho policial. Mais algum pronunciamento enigmático, monsieur Poirot?

– Eu falei – disse Poirot – que esse caso tem o formato errado. Com um exemplo, disse que o homem morto estava equivocado. E estava mesmo, como Underhay. Underhay era sem dúvida um indivíduo excêntrico, cavalheiresco, antiquado e reacionário. O homem no Stag era um chantagista; não era nem cavalheiresco, antiquado, nem reacionário, tampouco era particularmente excêntrico; portanto, não era Underhay. Não poderia ser Underhay, porque as pessoas não mudam. O interessante foi Porter ter dito que era Underhay.

– Levando-o à sra. Jeremy?

– A semelhança me levou à sra. Jeremy. Um ar fisionômico muito característico, o perfil dos Trenton. Permitindo-me um pequeno jogo de palavras, como Charles Trenton, o morto tem o formato certo. Mas ainda há perguntas que exigem respostas. Por que David Hunter deixou-se chantagear tão prontamente? Ele é o tipo de homem que se deixa chantagear? Poderia se dizer com muita convicção que não. Assim, ele também agiu de modo estranho a seu temperamento. E aí temos Rosaleen Cloade. O comportamento dela é incompreensível no todo, mas tem uma coisa que eu gostaria muito de saber. Por que ela tem medo? Por que ela acha que algo irá lhe acontecer agora que o irmão não está mais ali para protegê-la? Alguém... ou alguma coisa deve ter lhe causado esse medo. E não é que ela tema perder sua fortuna. Não, é mais que isso. Ela teme por sua vida...

– Meu Deus, monsieur Poirot, o senhor não pensa que...

– Vamos lembrar, Spence, que, como o senhor acaba de dizer, estamos de volta ao ponto de partida. Isto é, a família Cloade está de volta ao ponto de partida. Robert Underhay morreu na África. E a vida de Rosaleen Cloade paira entre eles e o desfrute do dinheiro de Gordon Cloade...

– O senhor acha sinceramente que um deles faria isso?

– Penso o seguinte. Rosaleen Cloade tem 26 anos e, embora mentalmente um tanto instável, fisicamente é forte e saudável. Pode viver até os setenta anos, pode viver ainda mais. Quarenta e quatro anos, digamos. O senhor não acha, superintendente, que 44 anos é tempo demais para alguém esperar?