Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 8 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 7

 

I

– Rowley, pode me dar quinhentas libras?

Rowley fitou Lynn. Estava parada ali, sem fôlego por causa da corrida, o rosto pálido, a boca contraída.

Ele manteve um tom apaziguador e semelhante ao que usaria com um cavalo:

– Ei, ei, calma, garota. Do que se trata tudo isso?

– Quero quinhentas libras.

– Eu poderia dizer o mesmo quanto a isso.

– Mas Rowley, é sério. Pode me emprestar quinhentas libras?

– De qualquer forma, estou sem fundos. Aquele novo trator...

– Sim, sim – ela deixou de lado os detalhes da fazenda. – Mas você poderia conseguir dinheiro de algum modo? Se precisasse, você poderia?

– Para que você quer isso, Lynn? Está em algum tipo de aperto?

– Quero para ele – ela jogou a cabeça para trás, na direção da grande casa quadrada no morro.

– Hunter? Mas que diabos...

– Minha mãe. Ela pegou emprestado dele. Ela... ela está em uma enrascada por causa de dinheiro.

– Sim, suponho que esteja – Rowley pareceu solidário. – Muitas adversidades sobre ela. Quisera eu poder ajudar um pouco, mas não posso.

– Não suporto que ela pegue dinheiro emprestado com David!

– Aguente firme, garota. Na verdade, é Rosaleen que tem de dar o dinheiro. E, afinal de contas, por que não?

– Por que não? Você pergunta “por que não”, Rowley?

– Não vejo por que Rosaleen não viria em auxílio de vez em quando. O velho Gordon deixou todos nós em apuros ao morrer sem um testamento. Se a situação for colocada com clareza para Rosaleen, ela deve entender que o indicado seria dar uma ajuda geral.

– Você não pediu um empréstimo a ela?

– Não... bem, é diferente. Não posso simplesmente pedir dinheiro a uma mulher. É o tipo de coisa que não se gosta de fazer.

– Você não vê que eu não gosto de estar... estar devendo para David Hunter?

– Mas você não está. O dinheiro não é dele.

– É assim que é na realidade. Rosaleen está completamente sob controle dele.

– Oh, temo que sim. Mas o dinheiro não é dele legalmente.

– E você não vai, não pode... me emprestar algum dinheiro?

– Veja bem, Lynn: se você estivesse em uma verdadeira encrenca, como chantagem ou dívidas, eu poderia vender terras ou animais. Mas seria um procedimento bastante desesperado. Do jeito que está, estou apenas conseguindo evitar a falência. Ainda mais sem saber o que esse maldito governo vai fazer a seguir; tolhido em cada movimento, soterrado por formulários, às vezes de pé até a meia-noite tentando preenchê-los... é coisa demais para um só homem.

Lynn disse com amargura:

– Eu sei! Se ao menos Johnnie não tivesse sido morto...

Ele gritou:

– Deixe Johnnie fora disso! Não fale dele!

Ela cravou o olhar nele, perplexa. O rosto dele estava vermelho e congestionado. Parecia fora de si de tanta raiva.

Lynn deu as costas e voltou devagar para a White House.

 

II

– Você não pode devolver, mãe?

– Francamente, querida Lynn! Fui direto ao banco. E depois paguei Arthurs e Bodgham e Knebworth. Knebworth estava ficando deveras abusado. Oh, minha querida, que alívio! Não pude dormir por noites e noites. De fato, Rosaleen foi muitíssimo compreensiva e bondosa.

Lynn disse em tom amargo:

– E suponho que agora você irá até ela sempre.

– Espero que não seja necessário, querida. Tentarei ser muito econômica, você sabe disso. Mas claro que hoje em dia tudo está muito caro. E fica cada vez pior.

– Sim, e nós ficaremos cada vez piores. Pedindo esmolas.

Adela ficou vermelha.

– Não penso que seja uma boa forma de colocar as coisas, Lynn. Conforme expliquei a Rosaleen, sempre dependemos de Gordon.

– Não deveríamos ter dependido. É isso que está errado, não deveríamos. – Lynn acrescentou – Ele está certo em nos desprezar.

– Quem nos despreza?

– Aquele odioso David Hunter.

– Francamente – disse a sra. Marchmont com dignidade –, não vejo em que possa importar por pouco que seja o que David Hunter pense. Por sorte ele não estava em Furrowbank hoje de manhã; do contrário, temo dizer que ele teria influenciado aquela moça. Ela está completamente sob domínio dele, é claro.

Lynn trocou de posição.

– Mãe, a que você se referiu quando disse, na primeira manhã depois que cheguei, “se ele é irmão dela”?

– Oh, isso – a sra. Marchmont pareceu ligeiramente embaraçada. – Bem, há algumas fofocas, você sabe.

Lynn apenas aguardou com ar inquiridor. A sra. Marchmont tossiu.

– Esse tipo de moça... o tipo aventureiro (o pobre Gordon foi completamente iludido, claro)... elas em geral têm... bem, um rapaz por trás delas. Suponha-se que ela tenha dito a Gordon que tinha um irmão. Telegrafou para ele no Canadá ou onde quer que estivesse. O homem aparece. Como Gordon vai saber se ele é irmão ou não? Pobre Gordon, absolutamente enfeitiçado, sem dúvida, e acreditando em tudo que ela diz. E assim o “irmão” vem com eles para a Inglaterra... e o pobre Gordon sem desconfiar de nada.

Lynn disse em tom arrebatado:

– Não acredito. Não acredito!

A sra. Marchmont ergueu as sobrancelhas.

– Francamente, minha querida...

– Ele não é assim. E ela... ela tampouco. Talvez ela seja uma tola, mas é um doce. Sim, ela é realmente um doce. Isso é apenas a mente suja das pessoas. Estou dizendo, não acredito.

A sra. Marchmont disse com dignidade:

– De fato não é necessário gritar.