Seguindo a Correnteza

Agatha Christie · Capítulo 4 de 35

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Seguindo a Correnteza

Capítulo 3

 

– Dinheiro! – disse Lynn.

Rowley Cloade assentiu. Era um rapaz grande e anguloso com pele vermelha como tijolo, olhos azuis pensativos e cabelo muito loiro. Possuía uma lentidão que parecia mais proposital que arraigada. Ele usava a ponderação como outros utilizam a rapidez de resposta.

– Sim – disse ele –, parece que tudo se resume a dinheiro hoje em dia.

– Mas pensei que os agricultores tivessem se saído muito bem durante a guerra.

– Oh, sim, mas isso não significa nenhum bem permanente. Em um ano estaremos de volta onde nos encontrávamos: salários altos, trabalhadores de má vontade, todo mundo insatisfeito e sem saber onde está. A menos, claro, que se possa administrar a fazenda de modo realmente grandioso. O velho Gordon sabia disso. E era nisso que ele se preparava para entrar.

– E agora... – perguntou Lynn.

Rowley arreganhou os dentes.

– E agora a sra. Gordon vai a Londres e gasta alguns milhares em um belo casaco de vison.

– Isso é... perverso!

– Oh, não – ele fez uma pausa e disse: – Eu preferiria dar um casaco de vison para você, Lynn...

– Que tal é ela, Rowley? – Lynn queria um julgamento atual.

– Você vai vê-la hoje à noite. Na festa de tio Lionel e tia Kathie.

– Sim, eu sei. Mas quero que você me fale. Mamãe diz que ela é meio burra.

Rowley ponderou.

– Bem, eu não diria que o intelecto seja seu ponto forte. Mas na verdade penso que ela apenas parece meio burra por estar sendo tão horrivelmente cuidadosa.

– Cuidadosa? Cuidadosa com o quê?

– Apenas cuidadosa. Basicamente, imagino, quanto ao sotaque. Ela tem um sotaque bem irlandês, você sabe, ou então quanto ao garfo certo, e quaisquer alusões literárias que possam estar em pauta.

– Então ela realmente é... bastante... bem, inculta?

Rowley arreganhou os dentes num sorriso.

– Bem, ela não é uma dama, se é a isso que você se refere. Tem olhos adoráveis e uma aparência muito boa, e suponho que o velho Gordon tenha sucumbido a isso, somado ao extraordinário ar bastante ingênuo dela. Não penso que seja fingimento, embora nunca se saiba, é claro. Ela apenas fica por lá parecendo boba e deixa David mandar nela.

– David?

– O irmão. Eu diria que não existe muita coisa sobre expedientes escusos que ele não saiba! – Rowley acrescentou: – Ele não gosta muito de nenhum de nós.

– Por que gostaria? – disse Lynn de modo cortante, e acrescentou enquanto ele a olhava ligeiramente surpreso: – Quero dizer, vocês não gostam dele.

– Eu com certeza não gosto. Você também não vai gostar. Ele não é do nosso nível.

– Você não sabe de quem eu gosto ou não gosto, Rowley! Vi muita coisa do mundo nos últimos três anos. Eu... eu acho que minha visão alargou-se.

– Você viu mais do mundo do que eu, isso é verdade.

Ele disse isso mansamente, mas Lynn olhou-o de forma penetrante.

Havia alguma coisa por trás daquela entonação neutra.

Ele devolveu o olhar dela de modo direto, o rosto inexpressivo. Lynn lembrou que nunca foi fácil saber exatamente o que Rowley pensava.

“Que mundo esquisito e confuso”, pensou Lynn. O homem costumava ir para as guerras, e a mulher ficava em casa. Mas ali as posições eram invertidas.

Dos dois rapazes, Rowley e Johnnie, um forçosamente tinha de ficar na fazenda. Haviam decidido na sorte, e Johnnie Vavasour foi o escolhido. Ele foi morto quase imediatamente, na Noruega. Ao longo de todos os três anos da guerra, Rowley nunca esteve a mais de dois ou três quilômetros de casa.

E ela, Lynn, estivera no Egito, Norte da África, Sicília. Estivera sob fogo mais de uma vez.

Cá estava Lynn-em-casa-vinda-da-guerra, e cá estava Rowley-mantido-em-casa.

Ela se indagou, de repente, se ele se incomodava...

Deu uma semirrisada nervosa.

– As coisas às vezes parecem um pouco de pernas para o ar, não?

– Oh, não sei. – Rowley fitava o campo lá fora de modo vago. – Depende.

– Rowley – ela hesitou –, você se incomoda... quero dizer... Johnnie...

A mirada gélida e sensata dele fez com que ela caísse em si.

– Deixe Johnnie fora disso! A guerra acabou. E eu tive sorte.

– Sorte, você quer dizer – ela parou em dúvida –, por não ter tido que... que ir?

– Sorte espetacular, não acha?

Ela não soube bem como receber aquela observação. A voz dele era macia com arestas ásperas. Ele acrescentou com um sorriso:

– Mas vocês, garotas da ativa, vão achar difícil acomodar-se em casa, é claro.

Ela disse, irritada:

– Ora, não seja estúpido, Rowley.

(Mas por que se irritar? Por quê?... A menos que fosse porque as palavras tivessem tocado um nervo sensível de verdade em algum lugar.)

– Oh, bem – disse Rowley. – Suponho que possamos muito bem tratar de nos casarmos. A menos que você tenha mudado de ideia.

– Claro que não mudei de ideia. Por que teria?

Ele disse em um tom vago:

– Nunca se sabe.

– Você quer dizer que pensa que eu – Lynn fez uma pausa – estou diferente?

– Não particularmente.

– Talvez você tenha mudado de ideia.

– Oh, não, eu não mudei. Pouquíssima coisa muda na fazenda, você sabe.

– Pois bem, então – disse Lynn, consciente de algum modo do anticlímax –, vamos nos casar. Quando quiser.

– Junho ou perto disso?

– Pode ser.

Ficaram calados. Estava decidido. A despeito de si mesmo, Lynn sentiu-se terrivelmente deprimida. Contudo, Rowley era Rowley, exatamente como sempre havia sido. Afetivo, contido, cuidadosamente dado a meias-palavras.

Eles se amavam. Sempre haviam se amado. Nunca tinham falado muito sobre seu amor. Por que haveriam de começar agora?

Iriam se casar em junho e viver em Long Willows (um belo nome, Lynn sempre tinha achado), e ela jamais iria embora de novo. Ir embora, isto é, no sentido que as palavras tinham para ela agora. A excitação das pranchas de embarque sendo erguidas, o rastro de uma hélice de navio, o arrepio quando um avião movia-se pelos ares e se elevava sobre a terra lá embaixo. Observar um contorno de litoral estranho adquirir um formato. O cheiro da poeira quente, do querosene, do alho... o matraquear e o tagarelar de línguas estrangeiras. Flores estranhas, poinsétias vermelhas erguendo-se orgulhosas em um jardim poeirento... Fazer e desfazer as malas, qual o próximo destino?

Tudo isso estava acabado. A guerra estava acabada. Lynn Marchmont tinha voltado para

casa. “Home is the sailor, home from the sea”...[1] “Mas não sou a mesma Lynn que partiu”, ela pensou.

Ela ergueu os olhos e viu Rowley a observá-la...

 

[1] “O marinheiro está em casa, vindo do mar.” Poema de A.E. Housman. (N.T.)