Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 8 de 72

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Sonetos Completos

Hymno da Manhã

 

Tu, casta e alegre luz da madrugada,

Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,

E enche de força o coração triumphante

Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza immensa

No desolado coração. Mais quero

A noite negra, irmã do desespero,

A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro não palpita,

Nem ave canta, nem susurra o vento,

E adormece o proprio pensamento,

Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,

Imagem do repouso inalteravel

E do esquecimento inviolavel,

Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,

O nada universal o pensamento, E despreza o viver e o seu tormento.

E olvida, como quem está já morto…

E, interrogando intrepido o Destino,

Como reu o renega e o condemna,

E virando-se, fita em paz serena

O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,

Que está além das cousas transitorias.

Das paixões e das formas illusorias,

Onde sómente ha dor e falsidade…

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,

De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano Em rede de mil malhas, mysteriosa!

Symbolo, sim, da universal traição,

D'uma promessa sempre renovada

E sempre e eternamente perjurada,

Tu, mãe da Vida e mãe da Illusão…

Outros estendam para ti as mãos,

Supplicantes, com fé, com esperança…

Ponham outros seu bem, sua confiança

Nas promessas e a luz dos dias vãos…

Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia

E que tortura ainda não provada

Hoje me ensinará esta alvorada?

E digo: Porque nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa!

Antes nunca existisses! e o Universo

Ficasse inerte e eternamente immerso

Do possivel na nevoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora? O sentimento só, só a consciencia,

D'uma eterna, incuravel impotencia,

Do insaciavel desejo, que o devora!

De que são feitos os mais bellos dias?

De combates, de queixas, de terrores!

De que são feitos? de illusões, de dores,

De miserias, de maguas, de agonias!

O sol, inexoravel semeador,

Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço

As sementes innumeras da Dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente,

A seara maldita! como treme

Sob os ventos da vida e como geme

N'um susurro monotono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas, Em ondas de cruel fecundidade,

Com a força e a subtil tenacidade

Invencivel das plantas venenosas!

De podridões antigas se alimenta,

Da antiga podridão do chão fatal…

Uma fragrancia morbida, mortal

Lhe reçuma da seiva peçonhenta…

E é esse aroma languido e profundo,

Feito de seducções vagas, magneticas,

De ardor carnal e de attracções poeticas, É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes,

A aurora acorda, placida e inflexivel,

As miserias da terra: e a hoste horrivel,

Enchendo de clamor e horisontes.

Torva, cega, colerica, faminta,

Surge mais uma vez e arma-se á pressa

Para o bruto combate, que não cessa,

Onde é vencida sempre e nunca extincta!

Quantos erguem n'esta hora, com esforço, Para a luz matinal as armas novas,

Pedindo a lucta e as formidaveis provas,

Alegres e crueis e sem remorso,

Que esta tarde ha-de ver, no duro chão

Cahidos e sangrentos, vomitando

Contra o céo, com o sangue miserando,

Uma extrema e importante imprecação!

Quantos tambem, de pé, mas esquecidos, Ha-de a noite encontrar, sós e encostados A algum marco, chorando aniquilados

As lagrimas caladas dos vencidos!

E porque? para que? para que os chamas, Serena luz, ó luz inexoravel,

Á vida incerta e á lucta inexpiavel,

Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco d'um só dia

Na mão indifferente do Destino…

Clarão de fogo-fatuo repentino,

Cruzando entre o nascer e a agonia…

Para serem, no páramo enfadonho,

Á luz de astros malignos e enganosos,

Como um bando de espectros lastimosos, Como sombras correndo atraz d'um sonho…

Oh! não! luz gloriosa e triumphante!

Sacode embora o encanto e as seducções, Sobre mim, do teu manto de illusões:

A meus olhos, és triste e vacillante…

A meus olhos, és baça e luctuosa

E amarga ao coração, ó luz do dia,

Como tocha esquecida que allumia

Vagamente uma crypta monstruosa…

Surges em vão, e em vão, por toda a parte, Me envolves, me penetras, com amor…

Causas-me espanto a mim, causas-me horror, E não te posso amar—não quero amar-te!

Symbolo da Mentira universal,

Da apparencia das cousas fugitivas, Que esconde, nas moventes perspectivas, Sob o eterno sorriso o eterno Mal,

Symbolo da Illusão, que do infinito

Fez surgir o Universo, já marcado

Para a dor, para o mal, para o peccado,

Symbolo da existencia, sê maldito!