Sonetos Completos
Capítulo VI
Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,
Jámais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestio?
Pallida imagem, que a agua de algum rio, Reflectindo, levou… incerta e fina
Luz, que mal bruxulêa pequenina…
Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…
Estendei, estendei-lhe os vossos braços, Magros da febre d'um sonhar profundo,
Vós todos que a seguis n'esses espaços!
E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,
Tu não tens outra amante em todo o mundo Mais que essa fria virgem desdenhosa!
VI
Outra amante não ha! não ha na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem balsamo mais doce, que adormeça
Em nós a antiga, a secular ferida!
Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida, Como quem sabe amar e amar confessa, Quer nas nuvens se esconda ou appareça, Será sempre ella a esposa promettida!