Sonetos Completos
Capítulo II
Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aereo berço.
Um veneno sutil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.
E, no meio da noite monstruosa,
Do silencio glacial, que paira e estende
O seu sudario, d'onde a morte pende,
Só uma flor humilde, mysteriosa,
Como um vago protesto da existencia,
Desabroxa no fundo da Consciencia.
II
Dorme entre os gelos, flor immaculada!
Lucta, pedindo um ultimo clarão
Aos soes que ruem pela immensidão,
Arrastando uma aureola apagada…
Em vão! Do abysmo a bocca escancarada Chama por ti na gélida amplidão…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…
Tu morrerás tambem. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo, Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo
No vacuo eterno se esvahirá disperso,
Como o alento final d'um moribundo, Como o ultimo suspiro do Universo.