Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 57 de 72

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Sonetos Completos

Em Viagem

 

 

Pelo caminho estreito, aonde a custo

Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte, Mas só bruta aridez de aspero monte

E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto

E sem susto encarei, vendo-os defronte,

Phantasmas que surgiam do horizonte

A accommetter meu coração robusto…

Quem sois vós, peregrinos singulares?

Dor, Tedio, Desenganos e Pesares…

Atraz d'elles a Morte espreita ainda…

Conheço-vos. Meus guias derradeiros

Sereis vós. Silenciosos companheiros,

Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!

 

Quia aeternus

(A Joaquim de Araujo)

 

Não morreste, por mais que o brade á gente Uma orgulhosa e van philosophia…

Não se sacode assim tão facilmente

O jugo da divina tyrannia!

Clamam em vão, e esse triumpho ingente Com que a Razão—coitada!—se inebria, É nova forma, apenas, mais pungente,

Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o Pensamento Como d'antes te encara, e és o tormento

De quantos sobre os livros desfallecem.

E os que folgam na orgia impia e devassa Ai! quantas vezes ao erguer a taça,

Param, e estremecendo, empallidecem!

 

No turbilhão

(A Jayme Batalha Reis)

 

No meu sonho desfilam as visões,

Espectros dos meus proprios pensamentos, Como um bando levado pelos ventos,

Arrebatado em vastos turbilhões…

N'uma espiral, de estranhas contorsões,

E d'onde sáem gritos e lamentos,

Vejo-os passar, em grupos nevoentos,

Distingo-lhes, a espaços, as feições…

—Phantasmas de mim mesmo e da minha alma, Que me fitaes com formidavel calma,

Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes? Quem sois, visões miserrimas e atrozes? Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…