Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 33 de 72

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Sonetos Completos

Mea Culpa

 

 

Não duvido que o mundo no seu eixo

Gire suspenso e volva em harmonia;

Que o homem suba e vá da noite ao dia,

E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo, Nem chamo ao céo da vida noite fria;

Não chamo á existencia hora sombria;

Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda…

É minha mãe… Ah, se eu á face linda

Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada ha que me aqueça esta frieza;

Se estou cheio de fel e de tristeza…

É de crer que só eu seja o culpado!

 

O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavalleiro andante.

Por desertos, por sóes, por noite escura,

Paladino do amor, busco anhelante

O palacio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exhausto e vacillante.

Quebrada a espada já, roda a armadura… E eis que subito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aerea formosura!

Com grandes golpes bato á porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Desherdado…

Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor…

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silencio e escuridão—e nada mais!