Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 37 de 72

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Sonetos Completos

Uma Amiga

 

 

Aquelles, que eu amei, não sei que vento Os dispersou no mundo, que os não vejo… Estendo os braços e nas trevas beijo

Visões que á noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento

Que a saudade dos mortos… que eu invejo… Passam por mim, mas como que têm pejo Da minha soledade e abatimento!

D'aquella primavera venturosa

Não resta uma flor só, uma só rosa…

Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel—tu, como d'antes,

Inda volves teus olhos radiantes…

Para ver o meu mal… e escarnecel-o!

 

A uma mulher

Para tristezas, para dor nasceste.

Podia a sorte por-te o berço estreito

N'algum palacio e ao pé de regio leito,

Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores—com que veste

As ricas e as felizes—n'esse peito:

Fazer-te… o que a Fortuna ha sempre feito… Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,

Que não são d'este mundo e onde eu leio Uns mysterios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, Tudo me diz a mim, e assim o creio,

Que para isto só tinhas nascido!

 

Voz do Outomno

 

Ouve tu, meu cançado coração,

O que te diz a voz da Natureza:

—«Mais te valera, nú e sem defeza,

Ter nascido em asperrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão

Frio e cruel da mais cruel

deveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza, Como emballou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionaria

Silenciosa e triste ter passado

Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste) Com odio e raiva e dor… que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!»—

 

Sepultura romantica

 

Ali, onde o mar quebra, n'um cachão

Rugidor e monotono, e os ventos

Erguem pelo areal os seus lamentos,

Ali se ha-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóes da adusta solidão

Na fornalha do estio, em dias lentos;

Depois, no inverno, os sopros violentos

Lhe revolvam em torno o arido chão…

Até que se desfaça e, já tornado

Em impalpavel pó, seja levado

Nos turbilhões que o vento levantar…

Com suas luctas, seu cançado anceio,

Seu louco amor, dissolva-se no seio

D'esse infecundo, d'esse amargo mar!

1864—1874