Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 52 de 72

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Sonetos Completos

Capítulo I

(Ao Dr. José Falcão)

 

Erguendo os braços para o céo distante

E apostrophando os deuses invisiveis,

Os homens clamam:—«Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! Incessante

Corre o tempo e só gera, inestinguiveis,

Dor, peccado, illusão, luctas horriveis,

N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente

Do nada e do que ainda não existe,

Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»

 

Espiritualismo

 

I

 

Como um vento de morte e de ruina,

A Duvida soprou sobre o Universo.

Fez-se noite de subito, immerso

O mundo em densa e algida neblina.