Sonetos Completos

Antero de Quental · Capítulo 35 de 72

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Sonetos Completos

Ideal

 

 

Aquella, que eu adoro, não é feita

De lyrios nem de rosas purpurinas,

Não tem as formas languidas, divinas

Da antiga Venus de cintura estreita…

Não é a Circe, cuja mão suspeita

Compõe filtros mortaes entre ruinas,

Nem a Amazona, que se agarra ás crinas D'um corcel e combate satisfeita…

A mim mesmo pergunto, e não atino

Com o nome que dê a essa visão,

Que ora amostra ora esconde o meu destino…

É como uma miragem, que entrevejo,

Ideal, que nasceu na solidão,

Nuvem, sonho impalpavel do Desejo…

 

Emquanto outros combatem

Empunhasse eu a espada dos valentes!

Impellisse-me a acção, embriagado,

Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentes

O ar de fogo do circo ensanguentado…

Ou cahira radioso, amortalhado

Na fulva luz dos gladios reluzentes!

Já não veria dissipar-se a aurora

De meus inuteis annos, sem uma hora

Viver mais que de sonhos e anciedade!

Já não veria em minhas mãos piedosas

Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade!